Mobilização também cobra recursos federais para assistência estudantil

Estudantes de diferentes campi do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) realizaram, nesta terça-feira (31), um ato público em frente ao campus Vitória, para cobrar a criação de uma política efetiva de alimentação estudantil e o reforço no orçamento destinado à assistência estudantil. A mobilização, organizada por grêmios estudantis da Grande Vitória, deve ter continuidade nesta quarta-feira (1), com paralisações nas unidades.
O ato teve início por volta das 12h20, e seguiu em caminhada até a Reitoria do Ifes, na Avenida Fernando Ferrari. Segundo os organizadores, a ausência de uma política institucional de alimentação tem impactado diretamente a permanência dos estudantes no Ifes, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade social. “Há anos o instituto não tem um plano de alimentação escolar nem fornece merenda. Isso é muito grave, porque atendemos também ao ensino médio e à Educação de Jovens e Adultos”, afirma Lis Regazzi, representante do Grêmio Rui Barbosa do Ifes Vitória e aluna do curso técnico em Estradas integrado ao ensino médio.
Ela destaca que, atualmente, o auxílio estudantil destinado à alimentação é insuficiente para cobrir os custos básicos. “O valor gira em torno de R$ 9 por dia útil, enquanto um único salgado na cantina custa R$ 9,50. Sem falar na baixa qualidade nutricional das opções disponíveis”, diz. Ainda segundo Lis, há relatos frequentes de estudantes que passam o dia inteiro sem se alimentar por falta de recursos.
A situação se agrava diante da rotina acadêmica exigente. Nos cursos integrados e superiores, muitos alunos permanecem na instituição em período integral, conciliando aulas, projetos de pesquisa, extensão e, em alguns casos, trabalho ou estágio. Wal Candeia, estudante do bacharelado em Sistemas de Informação do campus Serra e representante do Grêmio Edson Luís aponta que a alimentação é fundamental para garantir que o estudante consiga desenvolver todas essas atividades com dignidade”.
Embora o Ifes possua políticas de assistência estudantil, Wal avalia que as ações não são suficientes para atender toda a demanda. “Os estudantes em situação de vulnerabilidade muitas vezes não conseguem acessar ou são contemplados com valores insuficientes. Isso compromete diretamente o desempenho acadêmico e até a permanência no curso”, explica.
Outro ponto levantado pelos estudantes é a demora na implementação de estruturas físicas que poderiam amenizar o problema, como restaurantes institucionais. No campus Vitória, a promessa de construção de um refeitório se arrasta há anos. “Já são mais de oito anos de promessas, com diferentes projetos e formas, e nada de mudança real ou oferta de merenda para os alunos. O prazo mais recente era 2025, mas até agora nem as obras começaram”, afirma Lis.
Apesar das críticas, os estudantes reconhecem que há diálogo com a Reitoria, sob liderança de Adriana Pionttkovsky, que iniciou algumas medidas, como o planejamento de restaurantes institucionais, observa Wal. No entanto, ela ressalta que a principal barreira apontada é orçamentária. “Para garantir alimentação gratuita de fato, é necessário recurso. E isso depende de uma ampliação da verba federal destinada aos institutos”, destaca.
Os números apresentados pelos estudantes ilustram o desafio. Atualmente, o orçamento estimado necessário para garantir alimentação nos institutos federais do Espírito Santo seria de cerca de R$ 80 milhões. Em nível nacional, a demanda chega a aproximadamente R$ 1 bilhão. Para efeito de comparação, o custeio total do Ifes gira em torno de R$ 76 milhões, o que indica a necessidade de mais que dobrar os recursos disponíveis.
Diante desse cenário, a mobilização busca pressionar não apenas a gestão interna, mas também o governo federal e a bancada capixaba no Congresso Nacional, para que destinem recursos específicos para a alimentação estudantil nos institutos federais. Os estudantes esperam que a mobilização amplie a pressão política. “A conversa com a Reitoria está bem encaminhada. O que precisamos agora é de uma resposta a nível federal”, enfatiza Wal.
A mobilização desta terça-feira faz parte de uma campanha mais ampla, construída ao longo dos últimos anos por organizações estudantis. No entanto, as ações não são necessariamente sincronizadas em todo o país. Para esta quarta-feira, estão previstas paralisações estudantis em diversos campi do Ifes na Grande Vitória e interior, incluindo Serra, Vitória, Guarapari e Montanha (extremo norte). A expectativa dos organizadores é ampliar a adesão e manter a pauta em evidência ao longo da semana.
Os estudantes defendem que a discussão sobre alimentação está diretamente ligada às políticas de acesso e permanência na educação pública. “Não adianta ampliar o acesso por meio de cotas e outras ações afirmativas, se os estudantes não têm condições básicas para permanecer na instituição”, defende Lis. Ela também ressalta que a mobilização é resultado de um acúmulo de tentativas de diálogo. “Sempre buscamos resolver essas questões de forma pacífica, com reuniões e pedidos de transparência. Mas, diante da falta de respostas concretas, decidimos adotar uma postura mais firme”, argumenta.

