Decisão ocorre seis anos após professora ser eleita e não nomeada no governo Bolsonaro
O Conselho Universitário da Ufes aprovou por unanimidade, em sessão nesta sexta-feira (27), a proposta apresentada pelo reitor Eustáquio de Castro de reconhecer e homenagear a professora Ethel Maciel como reitora eleita e não nomeada, incluindo sua foto na galeria de reitores da instituição.

A iniciativa tem “caráter exclusivamente simbólico, histórico e reparador”, como destaca o colegiado, acrescentando a importância de preservar a memória institucional da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e reafirmar “o compromisso com os valores democráticos e a autonomia universitária”.
Professora do departamento de Enfermagem e na época vice-reitora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ethel Maciel foi a mais votada no processo eleitoral realizado em 2020, tanto na consulta ampla e informal com a comunidade acadêmica, como na votação oficial nos Conselhos Superiores, que indicaram a lista tríplice para o governo federal. No entanto, em razão de decisão política do então presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), o nomeado foi Paulo Vargas.
“Embora tenha havido o cumprimento da norma vigente à época, com a escolha do segundo candidato da lista tríplice, a decisão configurou grave afronta ao princípio da autonomia universitária, bem como desrespeito à escolha democrática da comunidade acadêmica da Ufes, produzindo uma ruptura institucional amplamente reconhecida no cenário nacional das universidades federais”, manifestou a professora Larissa Zanin, relatora da proposta.
A situação, registrada também em outras universidades, resultou na publicação do livro Intervenções nas instituições federais de ensino, com relatos em primeira pessoa de mais de 20 reitores eleitos, incluindo Ethel Maciel, apontando as formas de violência política e invisibilização sofridas durante os processos.
“O ato do presidente foi ruim, mas talvez pior tenha sido o das pessoas que assumiram aqui, sem nenhum pudor, e tentando me invisibilizar a todo momento, como se eu não tivesse sido eleita. O Paulo não teria nem voto se eu não tivesse dividido meus votos com ele, naquela estratégia que fomos montando, quando vimos que o presidente não estava respeitando as eleições em outras universidades”, disparou a professora na ocasião da divulgação do livro.
Ela contou que, naquele momento, nem todas as peças estavam postas, e só foram se encaixando e montando o quebra-cabeça tempos depois. As ações, recorda, foram orquestradas por um assessor do Ministério da Educação, Ricardo da Costa, que veio até a Ufes se reunir com Paulo Vargas antes da nomeação. Apesar de ambos negarem o conteúdo da reunião, uma gravação apresentada ao Conselho Universitário posteriormente revela a afirmação de Paulo de que ele havia sido indicado para a Reitoria pelo MEC.
Outros episódios são narrados no capítulo capixaba, com nomes e datas que se conectam para “desenhar” como a violência política atuou na Ufes. “Não aconteceu de uma vez a derrocada. Foram episódios de muita misoginia, violência política e invisibilização. As mudanças que eu tinha proposto, as pessoas que eu havia convidado…quando o Paulo assume, nem liga para as pessoas, como se nada que eu tivesse feito tivesse existido. A tentativa de invisibilização foi tão completa, que é até difícil de falar. Ver as negociações por cargos. Eles agiram como se fosse absolutamente normal!!”, pontuou.
Nesta sexta-feira, após a decisão, Ethel também se manifestou. “Recebi com um misto de sentimentos a aprovação pelo Conselho Universitário da minha inclusão na galeria de reitores, como a primeira reitora eleita e não nomeada, reconhecendo um momento de ruptura democrática e ataque à autonomia universitária naquele momento sombrio. A justiça não repara o sofrimento, mas é importante deixar o registro da violência política para as futuras gerações. Minha gratidão”.
A homenagem ocorre na esteira da aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei nº 5.874/2025, que acaba com a lista tríplice para a escolha de reitores nas universidades e institutos federais brasileiros. A matéria aguarda votação no Senado, para envio posterior à sanção do presidente Lula.
A nova legislação determina que o resultado da consulta à comunidade acadêmica (estudantes, docentes e técnicos) prevaleça, sendo nomeado quem vencer a eleição direta. A escolha seria por regra fixa, e não facultativa, e acabaria ainda o peso previsto em lei do voto de 70% para os docentes em relação às demais categorias. As definições, neste ponto, caberiam a um colegiado constituído especificamente para esse fim, e nos termos da norma de cada universidade, também poderiam participar representantes de entidades da sociedade civil.
A cerimônia de aposição do quadro com a foto da professora Ethel Maciel na galeria de reitores da Ufes será realizada em data ainda a ser definida pelo Gabinete da Reitoria.

