Grupo afirma que trabalhou desde agosto de 2025 sem receber pagamentos

Mais de 30 intérpretes de Libras da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) suspenderam as atividades desde a semana passada e denunciam um “calote” nos pagamentos que perdura desde agosto de 2025. A dívida acumulada ultrapassa R$ 400 mil e afeta o suporte a alunos e professores surdos na graduação, pós-graduação e em eventos da instituição. Os profissionais atuam como horistas no Projeto 979, coordenado pelo Centro de Educação.
Na última semana, a situação se agravou com a declaração do novo secretário de Inclusão Acadêmica e Acessibilidade, Euluze Rodrigues da Costa Junior, em ofício ao qual Século Diário teve acesso, em que afirma não haver “reconhecimento institucional de empresa prestadora de serviços nessa modalidade com vínculo fixo ou permanente junto a esta Universidade”. O documento determina que, a partir de então, qualquer contratação deve ser formalizada exclusivamente pelo pasta – a gestão estava, antes, sob a chefia de Cinthia de Oliveira.
Segundo a líder da equipe, Claudia Vieira, a universidade tinha pleno conhecimento da contratação. “O reitor [Eustáquio de Castro] permitiu que houvesse intérpretes trabalhando, e um orçamento foi aprovado para os pagamentos. Sabiam do valor e dos horários, e que nós atendíamos doutorado, mestrado e graduações todos os dias, inclusive aos sábados”, afirma. Ela explica que o grupo traduz aulas de alunos surdos, bem como eventos externos e tudo o que necessita de intérpretes. “Atendemos o curso de Biologia, Pedagogia, Letras Libras, doutorado em Linguística, mestrado, e aulas dos professores surdos e alunos surdos matriculados”, enumera.
O detalhamento das notas fiscais pendentes, registrado em comunicações oficiais à Reitoria, aponta que a nota fiscal de agosto de 2025, no valor de R$ 90,5 mil, foi reprovada em janeiro de 2026, sob a justificativa de que o valor extrapolava o limite de contratação direta, sem a devida justificativa de excepcionalidade pela coordenação do projeto.
As notas seguintes também permanecem em aberto: R$ 35,6 mil em setembro, R$ 92,3 mil em outubro, R$ 68,5 mil em novembro, R$ 59,9 mil em dezembro de 2025, e R$ 55,9 mil o período de janeiro e fevereiro deste ano O passivo documentado soma R$ 402,9 mil. A empresa Librei Acessibilidade, responsável pelos profissionais, notificou a universidade sobre a suspensão total das demandas devido à “insegurança jurídica e financeira” causada pela negativa de pagamento e pela nova postura da secretaria (Siac).
No ofício, Euluze Rodrigues justifica o bloqueio afirmando que “a administração encontra-se em diligência quanto à forma como tem sido operacionalizada a contratação desse tipo de serviço, com vistas a assegurar plena conformidade com os princípios que regem a Administração Pública”. e determina que “não serão autorizados pagamentos de solicitações de demandas de intérpretes de Libras na modalidade de horistas que não tenham sido previamente demandados, formalizados e encaminhados por esta gestão da Siac”.
A mensagem gerou mais insegurança entre a equipe, explica a porta-voz do grupo, que pediu explicações ao gabinete do reitor, ao pró-reitor, Antônio Carlos Moraes, e ao secretário, mas ninguém respondeu, afirma. “Eles mantêm um silêncio que, para mim, também é resposta. Estão nos tratando de maneira totalmente invisível. Isso é um desprezo enorme, usaram uma equipe qualificada por sete meses e agora somem”, critica.
Claudia Vieira diz que a universidade teria convocado uma nova equipe para assumir as demandas, embora a administração não tenha quitado o passivo com os profissionais que atuaram até fevereiro. Para ela, o caso expõe a fragilidade da política de inclusão da Ufes, que convocou profissionais sob regime de urgência e agora ignora o passivo trabalhista. “Isso é prejudicial para a acessibilidade e para a própria imagem da universidade. Como uma instituição federal chama intérpretes de urgência e depois se nega a falar sobre o pagamento?”, questiona.
Século Diário procurou a Ufes para se posicionar sobre as denúncias e o impacto da suspensão dos serviços para os estudantes e professores surdos, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

