Demanda antiga da classe artística do Estado, proposta busca recursos do MEC

Após décadas de mobilização da classe artística, o Espírito Santo avança na proposta de consolidação de um novo curso superior público, de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A demanda recebeu parecer favorável de nove departamentos da instituição, mas ainda depende de ajustes no projeto pedagógico e, principalmente, do aval do Ministério da Educação (MEC) para se concretizar.
A iniciativa é resultado de uma longa articulação entre artistas, professores e pesquisadores capixabas, que historicamente apontam a ausência de uma formação superior pública em artes cênicas como uma lacuna no Estado. A atriz Verônica Gomes, integrante da comissão de criação do curso, relembra que essa ausência era sentida inclusive em espaços de representação nacional e internacional. “Era muito ruim dizer que o Estado não tinha um curso superior de artes cênicas. Lugares menores tinham, e nós não”, afirma.
Segundo ela, a luta pela implantação da licenciatura atravessa décadas e diferentes contextos políticos. Ao longo dos anos, a proposta esbarrou em entraves como falta de recursos, dificuldades institucionais e mudanças de governo. “Sempre acontecia alguma coisa que impedia a criação do curso. Às vezes era verba, às vezes era a necessidade de convencer dentro da própria universidade”, explica.
O projeto chegou a avançar no início do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, mas acabou interrompido posteriormente. Nos anos seguintes, especialmente no período mais recente, as discussões perderam força e ficaram praticamente paralisadas. Foi apenas há dois anos que a proposta voltou a ganhar fôlego na Ufes.
A partir dessa retomada, uma comissão foi reativada para elaborar o projeto pedagógico. O grupo reúne docentes da universidade e representantes da classe artística, que contribuíram com sugestões e experiências práticas. Verônica destaca que sua participação se deu justamente nesse campo. “Levei ideias, experiências, e a vivência de quem está no mercado. É uma construção coletiva”, ressalta.

O professor William Berger, membro da comissão organizadora, explica que o curso foi pensado para ir além da formação tradicional de professores, integrando práticas artísticas e pesquisa acadêmica. Segundo ele, a licenciatura habilita o estudante a atuar como professor de artes na educação básica e em espaços não formais, além de garantir o direito ao registro profissional de ator (DRT). A proposta inclui atividades práticas de montagem teatral, tanto coletivas quanto individuais.
O currículo também contempla iniciação científica, projetos de extensão e trabalho de conclusão de curso, o que poderá ser vinculado às práticas cênicas desenvolvidas ao longo da graduação. Além disso, há disciplinas voltadas para direção teatral, figurino, cenografia, caracterização, performance e atuação na cena educativa. “A ideia é ampliar as possibilidades de atuação profissional e também acadêmica desses estudantes”, afirma.
Outro ponto central da proposta é a construção de um currículo que dialogue com referências nacionais consolidadas. O projeto incorporou contribuições de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), todas com tradição na área em artes cênicas. Ao mesmo tempo, há a preocupação em valorizar as especificidades locais, com um olhar decolonial e disciplinas voltadas à história do teatro capixaba, além de ações de extensão com grupos culturais do Estado.
Apesar dos avanços, a Ufes informa que o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) está em fase de revisão final e ainda não foi aprovado oficialmente pela universidade. A diretora do Centro de Artes da Ufes, Larissa Zanin, explica que o projeto ainda precisa ser aprovado pelo Conselho Departamental do Centro de Artes, pela Câmara de Graduação, pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) e pelo Conselho Universitário.
Segundo ela, há um entrave central neste momento: a necessidade de garantia de recursos para viabilizar o curso. “Para que o projeto avance no Conselho Departamental, precisamos ter a confirmação de pelo menos 13 vagas de docentes, além de técnicos administrativos e recursos financeiros para a infraestrutura. E ainda não temos essa garantia”, explica.
Em reunião recente com a Reitoria, foram definidos alguns encaminhamentos. O projeto pedagógico passará por uma revisão para se adequar às mudanças recentes na legislação das licenciaturas e, em seguida, será novamente submetido aos departamentos. Paralelamente, a Reitoria enviará um ofício ao MEC solicitando a liberação de vagas e recursos financeiros necessários para a implantação do curso.
A diretora ressalta que ainda não há previsão para a aprovação final do PPC nem para o início das aulas. As próximas etapas, reitera, só devem ocorrer após essa sinalização do governo federal. “O que temos hoje é um compromisso institucional do Centro de Artes, da Reitoria e da comissão em adequar o projeto às normas vigentes e buscar apoio do MEC para viabilizar o curso”, completa.
Atualmente, o Estado já conta com formação pública na área por meio da Escola Técnica de Teatro, Dança e Música de Vitória (Fafi), que oferece cursos técnicos e livres. No entanto, a proposta da Ufes representa um avanço ao introduzir a formação em nível superior, ampliando as possibilidades acadêmicas e profissionais.
Para artistas locais, essa diferença é significativa. Sem uma graduação pública, muitos precisaram deixar o Espírito Santo para estudar em estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. “Eu mesma tive que viajar para estudar. Nem todo mundo tem condições de fazer isso. Agora, vamos poder formar profissionais aqui”, enfatiza Verônica.
Ela acredita que a criação da licenciatura terá impacto direto no fortalecimento da cena cultural capixaba, promovendo maior circulação de conhecimento, incentivo à pesquisa e valorização das produções locais. “Vai ser um grande ganho. A gente deixa de ser aquele estado que não tem formação superior em teatro e passa a ter uma universidade formando artistas e professores”, defende.
O sentimento entre os envolvidos é de que o projeto está mais próximo de se tornar realidade do que em qualquer outro momento. “É um curso muito sonhado, lutado e dialogado. Agora estamos caminhando para que ele aconteça”, conclui Verônica.

