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Menos de 5% dos servidores da Câmara de de Vila Velha são efetivos

Casa presidida por Osvaldo Maturano chegou ao recorde de 715 comissionados em 2025

CMVV

Na Câmara de Vereadores de Vila Velha, apenas 20 dos 450 servidores são estatutários – ou seja, 4,4% do total. Dentre os demais, 420 ocupam cargos em comissão e nove atuam cedidos por outros órgãos públicos, em sua maioria como assessores parlamentares. Dessa forma, quase 96% são funcionários comissionados.

Em 2025, a Câmara, presidida desde o ano passado pelo vereador Osvaldo Maturano (PRD), chegou ao recorde de 715 comissionados e 15 cedidos, o maior número desde 2014, conforme dados disponibilizados no Portal da Transparência da Casa. O número se refere a quem passou pela Casa durante o ano, e não a funcionários trabalhando simultaneamente.

Mas esse não é um problema novo. Em novembro de 2021, o Ministério Público do Estado ingressou com uma ação civil pública contra a Câmara de Vila Velha devido à desproporção entre servidores efetivos e comissionados.

Em 2014, o número de servidores estatutários era 32, e passou a cair vertiginosamente, até se manter em 12 entre 2020 e 2022. Em 2024, chegou a 25, e depois caiu de novo, até alcançar o patamar atual. No caso dos comissionados – sem considerar aqui o número de “cedidos” -, o patamar mensal se manteve estável ao longo do período, sempre acima de 400. Considerando a quantidade anual de pessoas empregadas (não simultaneamente), foram 408 no total ao longo de 2014 e chegaram a 715 em 2025, um aumento de 75,2%.

Ao longo de 2025, o gasto total da Câmara com a remuneração bruta dos comissionados foi de R$ 4,6 milhões; com os estatutários, foi R$ 354,77 mil, valor 13 vezes inferior. Com os servidores cedidos, a despesa ficou em R$ 23,5 mil.

Século Diário não localizou dados atualizados sobre o número de vagas totais disponibilizadas pela Casa. Sabe-se que cada um dos 21 vereadores têm direito a manter até 11 assessores parlamentares.

Ação judicial

De acordo com a petição inicial da ação civil pública do MPES, em uma reunião com a Promotoria de Justiça realizada em 2013, a então Mesa Diretora se comprometeu a regularizar a situação da Câmara com relação ao número desproporcional de Comissionados. Entretanto, apenas em 2019 foi contratada uma empresa para realizar concurso público, sendo que o último havia acontecido em 1992. O edital, lançado em 2020, apresentava irregularidades, de acordo com o órgão ministerial, e provia apenas 13 novas vagas, inexistindo oferta para funções rotineiras.

Em 2021, uma resolução da Câmara Municipal ampliou o número de assessores parlamentares de sete para 11, evidenciando, segundo o MPES, que a Casa Legislativa não tinha a intenção real de adequar a situação.

“É uma profusão de cargos comissionados, com criação de novos, transformação de antigos, tudo com grande prodigalidade. Notam-se cargos com atividades que se sobrepõem às atividades de outros, tal como no caso do Controlador Legislativo e do Assessor Técnico de Controladoria. Ou ainda situações inusitadas, do tipo ‘o assessor do assessor’, tal como ocorre com o Assistente Técnico de Comunicação que assessora o Assessor de Comunicação, ou o Assessor de Gabinete Parlamentar II que assessora o Assessor de Gabinete Parlamentar I, ou ainda o Assistente Técnico de Controladoria que assessora o Assessor Técnico de Controladoria”, diz a petição.

Em decisão de 30 de setembro de 2022, o juiz Ubiratan Almeida Azevedo não atendeu aos pedidos liminares do MPES, porque o pleito “se confunde ou esgota o objeto da ação”, o que seria vedado pelo Código do Processo Civil (CPC). Até aquele momento, a Câmara não se manifestou.

A Câmara apresentou contestação em junho de 2023. Entre os argumentos apresentados está o de que “a atividade finalística desempenhada pela Câmara Municipal de Vila Velha é eminentemente política”, e que a jurisprudência não fixou uma “proporcionalidade” exata entre comissionados e efetivos. Além disso, foi destacada a realização do concurso público e solicitou-se a realização de uma audiência de conciliação.

A última decisão no processo é de setembro de 2025. Na ocasião, o juiz Marcos Antônio Barbosa de Souza acolheu o pedido para retirar a Prefeitura de Vila Velha do polo dos réus e decretou a revelia, apesar de ressalvar a possibilidade de a Câmara se defender.

Século Diário solicitou esclarecimentos sobre o tema à Câmara de Vereadores de Vila Velha, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Anchieta

A desproporção entre comissionados e efetivos também é questionada na Câmara de Anchieta, no litoral sul do Estado. O juiz Rafael Fracalossi Menezes, da 1ª Vara de Anchieta, determinou, em janeiro, que a Câmara de Vereadores deixe de realizar novas nomeações de servidores para cargos comissionados e funções de confiança.

A medida atendeu parcialmente aos pedidos do Ministério Público do Estado (MPES), que ingressou com ação civil pública pelo fato de a Casa Legislativa, presidida pelo vereador Renan Delfino (União), manter cerca de 77% dos trabalhadores como ocupantes de cargos comissionados.

‘Dentro da média’

Em nota para Século Diário, a Câmara de Vila Velha destacou que a ação civil destacada é um “processo referente à gestão anterior, encerrada em dezembro de 2024. A decisão judicial determinou a reabertura do concurso público que havia sido suspenso, medida que foi cumprida. O concurso encontra-se vigente”. Segundo o texto, a Casa apresentará “todos os recursos jurídicos cabíveis e, ao final, cumprirá integralmente qualquer determinação judicial”.

A Câmara argumentou, ainda, que o número de 715 comissionados refere-se à despesa anual, incluindo com aqueles que foram exonerados durante o período, e “não corresponde ao número atual de cargos existentes ou ocupados simultaneamente”. Além disso, foi destacado o impacto gerado pelo aumento do número de vereadores, de 17 para 21, a partir da atual legislatura.

“No comparativo com outras Câmaras da Grande Vitória de porte semelhante, o quantitativo de servidores da CMVV encontra-se dentro da média necessária para garantir o funcionamento administrativo e legislativo da Casa”, defende a nota.

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