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Protesto pede justiça por crime da Samarco e massacre de Aracruz

“Carta à sociedade” e homenagem marcaram a mobilização, que terminou na Assembleia

Leonardo Sá

Os 10 anos do crime da Samarco/Vale-BHP e os três anos do massacre em duas escolas de Aracruz, no norte do Estado, levaram às ruas centenas de pessoas para pedir justiça perante os dois crimes. O ato saiu da Praça do Papa, na Enseada do Suá, passou pela escola Professora Flávia Amboss Merçon Leonardo, em Santa Helena, e terminou na Assembleia Legislativa.

Na Casa de Leis, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) leu uma carta à sociedade capixaba, elaborada coletivamente nessa quinta-feira (27), na plenária popular “Somos Todos Atingidos”, durante o “Encontro dos 10 anos do MAB no Espírito Santo – do rio ao mar é tempo de avançar!”, do qual o ato também faz parte da programação. O nome do evento, segundo o coordenador nacional do MAB, João Paulo Lyrio Izoton, é porque “nosso povo é ribeirinho, agricultor, pescador, do interior, mora na beira da praia. Em qualquer cais que você esbarrar por aí, seja no Rio Doce, no Cricaré, em Santa Cruz, você vai encontrar alguém que sabe o nome do MAB, porque é esse povo que a gente organiza depois do crime da Vale, Samarco e BHP”, ressalta.

No que diz respeito especificamente ao “é tempo de avançar”, João Paulo destaca que os atingidos tiveram algumas vitórias, como o fim da Fundação Renova e que o dinheiro da reparação fosse destinado às políticas, mas, aponta, é preciso ir além. “Agora a chave do cofre está com o Estado, é ele que vamos cobrar”, afirma. A manifestação contou com atingidos do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Estes últimos, do extremo sul, lutam para ser reconhecidos oficialmente como atingidos.

Leonardo Sá

Na carta, os atingidos denunciam: “no Brasil, nenhuma empresa e nenhum executivo foi punido, essas empresas criminosas seguem lucrando bilhões às custas dos atingidos”. Eles reafirmam que seguem “em luta por reparação, por reconhecimento, por participação popular, em defesa do meio ambiente e dos nossos modos de vida”.

O texto relembra o atentado às escolas de Aracruz, cometido por um adolescente de 16 anos, que vitimou fatalmente a estudante Selena Sagrillo e as professoras Maria da Penha Banhos, Cybelle Bezerra e Flávia Amboss. Esta última era militante do MAB. Os manifestantes, na carta, classificam o crime como “o ataque neonazista mais violento de nosso país”.

“Nós, atingidos novamente por esse novo crime, denunciamos: não vamos nos calar, punição para os nazistas, em memória de Flávia Amboss, e de todas as vítimas do crime de ódio do Espírito Santo e do Brasil. Em uma década fomos atingidos gravemente por duas vezes, a mineração e o fascismo. Ambos crimes apagados de nossa história, mas nós, organizados no Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens, não vamos permitir”.

A programação do “Encontro dos 10 anos do MAB no Espírito Santo – do rio ao mar é tempo de avançar!” prossegue neste sábado (29), com atividades culturais. Além de uma feira com produtos artesanais e gastronômicos durante todo o dia, a partir das 11h haverá apresentação do Coletivo de Circo Capixaba Watu, Reis de Bois, Congo Benedito, Slam e Batalha do Conhecimento. À noite, a partir das 18h, terá apresentação do cantor Mazin, seguida do show do cantor Zé Geraldo.

Homenagem

Leonardo Sá

Antes de chegar à Assembleia Legislativa, os manifestantes passaram pela antiga escola Fernando Duarte Rabello, em Santa Helena, que agora passa a se chamar Professora Flávia Amboss Merçon Leonardo. Durante o ato, a placa com o novo nome da unidade de ensino foi inaugurada. Fernando Duarte Rabello, já falecido, foi um ex-reitor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que assumiu o cargo nomeado pelo governo ditatorial. A mudança no nome foi possível após aprovação do Projeto de Lei (PL) 450/2025, de autoria da deputada estadual Camila Valadão (Psol).

A homenagem foi marcada por distribuição de flores brancas. “Flávia era uma mulher feminista, lutadora. Morava em Regência. Assumiu a luta quando a lama chegou. Num sábado fomos para uma atividade com as mulheres para bordar a luta como forma de terapia, para não esquecer a história. Fizemos isso embaixo das árvores, em Regência. Perguntei pelo doutorado, ela falou: ‘ja defendi. Com certeza vou publicar’. Dias depois ela foi morta”, recorda a militante do MAB, Ana Helena Andreon.

Leonardo Sá

A diretora da escola, Vanessa Barbosa Tavares, disse ao público, no carro de som, que inicialmente os alunos estranharam a mudança no nome da escola. Diante disso, foi feito todo um trabalho de resgate da memória de Flávia, que fez com que os estudantes abraçassem a novidade. Um exemplo disso é a jovem Victória Thomaz Sá. “Flávia significa muita luta pra mim. Pelo que soube da história dela, era uma pessoa que sempre teve muita esperança nas pessoas como eu, nos adolescentes, nas pessoas que têm mais dificuldade de ter acesso às coisas. Lutou muito pela educação, para eu estar aqui hoje representando os alunos”, diz.

O crime em Aracruz foi cometido com a arma do pai do adolescente, um tenente da Polícia Militar (PM). O jovem cumpriu medida socioeducativa e já se encontra solto. O pai ainda não respondeu pelo crime. João Paulo, que era companheiro de Flávia, destaca que o atirador tinha uma “ideologia que partilhava com o pai”, ou seja, o nazismo, uma vez que o tenente publicava em suas redes sociais posts de cunho nazista.

Leonardo Sá

João Paulo também tece críticas à gestão de Renato Casagrande (PSB), por causa da “forma como o Estado não organizou a indenização às vítimas de um crime cometido com arma do Estado, em um aparelho do Estado, que é a escola”. Ele aponta um “silenciamento do Estado diante de um crime nazista facilitado pelo próprio Estado”.

Contudo, afirma, a mudança no nome da escola, o acolhimento da comunidade escolar e o fato de estar entre atingidos do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia “dão um certo conforto”. “A gente vê que o apagamento do Estado é porque o Estado está errado mesmo. O Casagrande acoita nazistas na PM. Essa é a única explicação para esse cara continuar recebendo soldo do Estado. Tem um ditado que diz que se há 11 pessoas na mesa, senta um nazista e ninguém levanta, são 12 nazistas na mesa. Se esse cara recebe soldo, dá expediente na PM, tenho uma péssima notícia para a sociedade capixaba: o que está sendo cevado nos quartéis é esse tipo de mentalidade”, lamenta.

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