Segunda, 27 Setembro 2021

Anti-aniversário de cinco anos une atingidos em manifestações de resistência

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Bruno Gava

"Não é fácil. Lembrar de todo o drama que começou há cinco anos e que a gente vive no dia a dia. Mas com tudo isso que aconteceu, a comunidade se organizou e se uniu pra se fortalecer um no outro. O que a gente tem de melhor é um ao outro, é a solidariedade". 

O relato vem da comunidade quilombola de Degredo, em Linhares, norte do Espírito Santo, uma das dezenas atingidas pelo crime da Samarco/Vale-BHP em cinco de novembro de 2015, que completa cinco anos nesta quinta-feira (5).

As palavras são de Simony Silva de Jesus, coordenadora-geral da Associação dos Pescadores e Extrativistas e Remanescentes de Quilombo de Degredo (Asperqd), a primeira Assessoria Técnica Independente (ATI) contratada no Espírito Santo e a primeira, em todo o território atingido, incluindo Minas Gerais, formada pelos próprios atingidos

No vídeo produzido pela Associação, moradores exaltam palavras de luta: União, Quilombo, Ancestralidade, Direitos, Saudade, Resistir para Existir. Palavras que resumem como as injustiças acumuladas nesses cinco anos do maior crime socioambiental do país e um dos maiores do mundo se transformam em energia para impulsionar a luta por direitos. "Somos uma comunidade que se reconhece um no outro. O que a gente tem é a resistência pra continuar na luta, sem desistir, buscando o novo pra caminhar", afirma Simony. 

Povos das águas 

Neste quinto anti-aniversário, Degredo e muitas outras localidades e grupos de atingidos realizam manifestações de resistência e união, para continuar na luta pela reparação integral por, sabe-se lá, mais quanto tempo. 

Na foz do Rio Doce, também em Linhares, onde a lama de rejeitos alcançou o mar, a Associação de Surfistas de Regência (ASR) organizou uma grande roda de surfistas e barcos de pescadores no outside, na Boca do Rio, uma "grande celebração da resistência dos povos das águas", reunindo agricultores, ribeirinhos, pescadores de mar, rio e mangue, comerciantes, pousadeiros e surfistas.
Acervo ASR

"Não aceitamos mais que a nossa história seja escrita pelos criminosos das mineradoras! Venha tomar sua própria história nas mãos e denunciar as mentiras que a Fundação Renova conta na TV", conclamam. 

'A vida acima do lucro'

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), uma das principais organizações sociais a atuar na mobilização dos atingidos pela reparação integral dos danos, essa meia década do crime tem deixado claro como "a Vale está com a (in)justiça nas mãos".

"Com parcela estratégica do Judiciário nas mãos, o conflito a cada ano se tornou mais judicializado. O poder decisório se concentrou nas mãos de um juiz federal, que atua como agente serviçal da empresa criminosa, que age para defender a empresa e manipular as famílias atingidas. Até hoje, não houve nenhuma responsabilização penal pela morte das 19 pessoas, ou mesmo pelos demais crimes. As multas devidas tanto pelos danos ambientais como pela morosidade da Renova não são pagas e nem solucionadas", relata a organização.

O mais cruel, ressalta o MAB, é que "enquanto os direitos são negados, no último trimestre de 2020, a Vale dobrou seus lucros, que foram anunciados no patamar de R$ 15 bilhões".

Apesar do lucro extraordinário, aponta, "a empresa não permitiu finalizar nenhum dos três reassentamentos que se comprometeu, e nem atendeu as 10 comunidades que reivindicam direito à moradia ou cumpriu com os acordos pactuados com governos e instituições de Justiça", repudia, ressaltando que das indenizações pagas, muitas foram em valor insuficiente. "O dinheiro não resolveu problemas de postos e locais de trabalho e nem de moradia. Em suma, o crime empobreceu as famílias e aprofundou sua dependência", relata a organização.

Boa parte dos R$ 10 bilhões que a Fundação Renova afirma ter aplicado na reparação e compensação dos danos, destaca o MAB, é destinada "à propaganda enganosa, notícias falsas, cooptação, desorganização do povo, manipulação e negação de direitos às vítimas do crime da Samarco".

Ecoando as palavras de Degredo, de Regência e demais comunidades atingidas, o MAB afirma que "as vítimas de um crime bárbaro que está longe de uma correta solução" é também "um povo em luta disposto a lutar e colocar a vida acima do lucro".

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