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Aparição de jacarés em Vitória e Serra alerta para ondas de calor

Especialistas destacam impactos das mudanças climáticas nos répteis

Instituto Caiman

Especialistas que trabalham no resgate de jacarés na Grande Vitória têm alertado para o crescimento do número de chamados por conta da aparição desses animais nos bairros nos primeiros meses deste ano. Só nessa sexta-feira (13), a equipe do Instituto Caiman precisou agir para resgatar um jacaré de 1,80 metro encontrado nas proximidades do Aeroporto de Vitória, reforçando a tendência de que esses répteis invadam áreas urbanas durante ondas de calor, o que evidencia os efeitos das mudanças climáticas.

Segundo Júlia Coronel, bióloga e educadora ambiental do instituto, que realiza resgates e monitoramento da espécie, apenas neste mês já foram contabilizados 18 jacarés resgatados em diferentes bairros. “Como eles são répteis, dependem da temperatura do ambiente para regular seu metabolismo e, especialmente, o sexo dos filhotes”, explica.

Ela acrescenta que “durante ondas de calor intensas, os animais se deslocam em busca de locais mais seguros e acabam aparecendo em casas, comércios e até em piscinas de prédios”. No Carnaval do ano passado, a equipe foi acionada para fazer o resgate de um jacaré encontrado em uma piscina. O animal foi batizado informalmente de “Léo Santana” pelos pesquisadores.

O aumento de chamadas não ocorre de forma isolada. Um levantamento feito pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) indica que, entre 14 e 20 de fevereiro, mais de 127 milhões de pessoas no Brasil enfrentaram pelo menos um dia com temperaturas 5 °C acima da média histórica – o equivalente a quase 60% da população. No Espírito Santo, aproximadamente 55 milhões de pessoas foram impactadas por temperaturas 0,5 °C acima da média histórica para o período, segundo dados meteorológicos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF), analisados pelo Lapis.

As altas temperaturas e o aumento de dias com calor extremo têm efeito direto na fauna local. Para os jacarés, o calor intenso pode alterar padrões de comportamento, deslocamento e reprodução. “O período de reprodução vai até aproximadamente outubro, e fêmeas em busca de locais adequados para colocar ovos acabam entrando em áreas urbanas. Com o aumento da temperatura, é mais comum que esses deslocamentos ocorram”, explica Júlia.

O Instituto Caiman atua em parceria com órgãos de segurança pública, como a Polícia Ambiental e o Corpo de Bombeiros, para realizar o resgate seguro dos animais. Todo jacaré resgatado passa por exames de saúde e recebe um microchip, permitindo o monitoramento individual e a possibilidade de reencontrar o mesmo animal em futuras operações.

A maior concentração de aparições ocorre no município da Serra, principalmente em regiões com lagoas e áreas de preservação que fazem parte do habitat natural da espécie. No entanto, com o aumento das temperaturas e a urbanização crescente, esses deslocamentos têm se tornado mais frequentes, indicando uma pressão ambiental sobre os jacarés.

Além de garantir a segurança da população e dos próprios animais, os especialistas observam impactos ecológicos. “Prejudicar a população de jacarés pode desequilibrar todo o ecossistema, porque eles desempenham um papel fundamental na manutenção da cadeia alimentar e no controle de espécies que vivem nos mesmos ambientes aquáticos”, afirma. Júlia Coronel alerta que a temperatura elevada, se persistente, pode afetar a proporção de machos e fêmeas, trazendo consequências a longo prazo para a espécie.

O instituto mantém um trabalho de pesquisa contínuo sobre os efeitos das mudanças climáticas e do aumento de eventos extremos sobre os jacarés. “Fazemos estimativas da temperatura dos ninhos e acompanhamos os padrões de reprodução. Esses levantamentos são indícios importantes de como o aquecimento global pode afetar a fauna local”, afirma a pesquisadora. A Universidade Federal do Estado (Ufes) é uma das instituições parceiras nessa iniciativa, contribuindo com estudos científicos e análises detalhadas.

Em termos de prevenção e segurança, a orientação para quem encontrar um jacaré é não tentar capturar ou espantar o animal por conta própria. “Entrar em contato imediatamente com o instituto, a Polícia Ambiental ou o Corpo de Bombeiros é essencial. Temos equipes treinadas e todo o material necessário para realizar o resgate de forma segura, tanto para a população quanto para o animal”, destaca Júlia. Cada operação envolve três a quatro profissionais capacitados, garantindo que os jacarés sejam conduzidos a áreas seguras e monitoradas.

Além do resgate, o trabalho do Instituto inclui pesquisa científica, monitoramento da população e ações de educação ambiental para escolas e comunidades. Os dados coletados ajudam a traçar políticas públicas e estratégias de preservação, alinhando proteção da fauna com segurança urbana.

“Estamos vivendo uma dinâmica global de mudanças climáticas que já impacta nossos ecossistemas locais. A frequência crescente de resgates é um alerta de que precisamos nos preparar para eventos mais extremos e trabalhar preventivamente”, reforça Júlia Coronel. Para ela, o equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental é fundamental para garantir a convivência segura entre humanos e animais silvestres.

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