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Indígenas fazem ‘campanha emergencial’ para debater privatização de parque

Xapuko aponta falta de recursos e de participação dos povos Puri e Guarani nas decisões

Arquivo Pessoal

Uma campanha emergencial de arrecadação, para viabilizar transporte e alimentação, foi lançada por indígenas da Teia dos Povos do Espírito Santo para garantir a presença de lideranças Puri e Guarani nas audiências públicas convocadas pela Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa a serem realizadas em Alegre, nesta terça-feira (25), e em Ibitirama, na quarta-feira (26), municípios do Caparaó capixaba, para debater com as comunidades locais os impactos do Programa de Desenvolvimento Sustentável das Unidades de Conservação do Espírito Santo (Peduc) ao Parque Estadual Cachoeira da Fumaça.

A mobilização tem como objetivo direto permitir que indígenas estejam fisicamente presentes nas audiências, considerando que muitas lideranças vivem em áreas rurais ou ribeirinhas, distantes dos centros urbanos e de onde as decisões são tomadas. Sem recursos, não conseguem participar de processos formais. “É importante convocar esses parentes para que eles possam se permitir estar nesses lugares também. É desafiador, assusta. Mas se não ocuparmos, decidem sem nós”, ressalta Xapuko Ñavera, educadora popular do povo Ñamantuza Koya Puri.

Para ela, democratizar a participação é enfrentar o racismo ambiental na raiz e garantir voz a quem cuida do território. Xapuko considera o Peduc exclui povos originários, populações tradicionais e moradores locais, e alerta que a instalação de grandes estruturas turísticas em áreas sensíveis e a cobrança de ingresso devem aprofundar desigualdades e restringir o acesso de quem historicamente cuida do território.

Parte da população indígena, acrescenta, ainda se vê distante das mobilizações oficiais e lembra que muitas famílias Puri foram sistematicamente expulsas de suas terras quando fazendeiros avançaram para criar propriedades rurais. “Os nossos mais velhos tinham que trabalhar na terra para continuar vivendo e plantando para os fazendeiros”, recorda.

Esse processo criou linhagens inteiras de parentes cujas histórias são semelhantes e atravessadas pelo deslocamento forçado, perda territorial e invisibilização. “Eu sou indígena em contexto de imigração, porque é a situação do nosso povo, que não tem o território demarcado. Ficamos obrigados a nos deslocar”, afirma. Com a colonização, o nomadismo foi restringido por fronteiras políticas e econômicas, levando muitos a serem empurrados para contextos urbanos. “Na verdade, foi o urbano que foi inserido nos nossos contextos, porque era tudo território, era tudo floresta”, pontua.

O acesso à informação sobre políticas públicas e projetos ambientais é inviabilizado ainda pela linguagem técnica, burocrática e distante da realidade local, avalia a integrante da Teia no Estado, que descreve como o entrave linguístico atinge especialmente lideranças que não tiveram acesso ao letramento formal e provoca medo, insegurança e afastamento das comunidades nos processos decisórios.

“Não é uma linguagem acessível, não é uma linguagem para todos. Dá um pouco de medo neles, de ir até lá e não entender do que estão falando, não conhecer as leis que forem mencionadas”, reforça. Ela insiste que a luta pela terra existe, mas esbarra na barreira criada deliberadamente pela linguagem especializada. “Talvez não tenha muita linguagem popular, a linguagem da terra, e aí acaba criando esse abismo”, observa. A educadora popular reforça a atuação da comunidade para quebrar essa barreira, “facilitar a informação, servindo de ponte para passar as informações com linguagem possível e descentralizadora”, acrescenta.

A Teia dos Povos, articulação que une povos indígenas, quilombolas, agricultores, assentamentos e coletivos urbanos, está em processo de reorganização no Estado, e é composta atualmente por representantes Puri e Guarani. Os Tupinikim ainda não integram o núcleo capixaba, mas podem vir a compor futuramente. O elo capixaba da Teia foi retomado após encontros nacionais, culminando na formação de um grupo que passou a se reconhecer nos trabalhos de agroecologia, educação popular, sementes crioulas, retomadas territoriais e proteção ambiental.

“A Teia é a união de todos os povos e do campo com a cidade”, ressalta. A articulação envolve trocas de sementes, formação política, apoio mútuo, pré-jornadas e grupos de trabalho que atuam independentemente da divisão por estados. Xapuko destaca a referência da mestra Maya, educadora indígena Pataxó Hã-hã-hãe e autora do livro A Escola da Reconquista. “Ela é uma grande referência da Teia dos Povos da Bahia, uma mestra de retomadas, dava aula embaixo das árvores”, conta. Para Xapuko, essa rede de mestras e mestres não reconhecidos formalmente é essencial para a resistência. A representante da Teia do Estado é Jheyse Silva, do coletivo Xamum Orun.

Lucas S.Costa/Ales

‘De cima para cima’

Xapuko alerta que o turismo projetado pelo governo de Renato Casagrande (PSB) e idealizado pelo secretário de Estado de Meio Ambiente, Felipe Rigoni (União), é “pensado de cima para cima”, sem consulta prévia e diálogo com as comunidades locais. Ela afirma que a promessa de emprego e desenvolvimento esconde a precarização e a transformação dos moradores em mão de obra barata. “Falta sentar e conversar com a base. Falta informação verdadeira”, critica.

A instalação de grandes estruturas turísticas como mirantes, lojas, restaurantes, centros de visitantes, estacionamento e até uma tirolesa sobre o vale implica impactos severos em áreas que já são ilhas de vegetação cercadas por regiões degradadas. A Cachoeira da Fumaça é o menor parque estadual incluído no projeto de privatização e um dos mais frágeis. Além disso, a previsão de cobrança de ingresso é, segundo Xapuko, um mecanismo de exclusão social: “Eu vejo isso como racismo ambiental. Quem é que vai poder vir ao parque? As pessoas que mais cuidam do espaço, que são as mais empobrecidas, vão ser impedidas”, alerta.

A água também é central na análise de Xapuko. Para ela, a abundância hídrica da região é um dos motivos para o interesse empresarial. Com a memória viva do crime ambiental da Samarco/Vale-BHP, ela relata que a comunidade tem dedicado esforços para proteger afluentes do Rio Doce, mas teme que a privatização dos parques abra novos ciclos de devastação.

No pacote do Peduc estão seis unidades: além da Cachoeira da Fumaça, o Parque Estadual de Itaúnas (PEI), em Conceição da Barra, norte do Estado; Forno Grande (PEFG) e Mata das Flores (PEMF), em Castelo, no sul; Paulo César Vinha (PEPCV), em Guarapari; e Pedra Azul (Pepaz), em Domingos Martins, na região serrana.

Para garantir que as lideranças indígenas possam participar das discussões e defender seus direitos, os movimentos Teia dos Povos do Espírito Santo e em Defesa das Unidades de Conservação do Estado pedem colaborações por meio da campanha de arrecadação solidária para custear o transporte até as audiências. Qualquer contribuição ajuda a viabilizar a presença dessas comunidades e podem ser feita pela chave Pix 289999950915.

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