Domingo, 14 Julho 2024

Metade do Rio Doce pode ter redução de mais de 91% da vazão em 50 anos

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Leonardo Sá

Metade da bacia hidrográfica do Rio Doce pode ter suas vazões reduzidas em mais de 91% dentro de 50 anos. A projeção, indubitavelmente catastrófica, consta em um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) sobre os impactos da crise climática ao maior rio a banhar as terras capixabas, vitimado pelo maior crime socioambiental do Brasil e da história da mineração mundial.

Desde a publicação da reportagem "Amargo Rio Doce", em 1977, no Jornal do Brasil, por Rogério Medeiros, fundador deste Século Diário, o país teve acesso a uma descrição objetiva e sucinta das sucessivas e graves ações predatórias que o grande rio capixaba-mineiro sofreu ao longo da sua história. O crime da Samarco/Vale-BHP intensificou sobremaneira os danos, alcançando níveis de contaminações impensáveis até então. Nesse contexto trágico, a crise climática chega de forma avassaladora.

"Apesar das diferenças entre as tendências, certamente a bacia sofrerá problemas com a redução da precipitação e o aumento de temperatura entre 2025 e 2099. Os resultados mostram reduções consideráveis nas tendências da vazão média da bacia", afirmam os pesquisadores no resumo do artigo Impacto das mudanças climáticas na vazão na bacia do Rio Doce, publicado sobre a primeira parte dos estudos.

Detalhando as projeções, eles descrevem as possíveis reduções de vazões para períodos de 25 em 25 anos, todas para 50% dos trechos de drenagem da bacia hidrográfica: entre 2025 e 2049, essas tendências de redução são maiores que 64%; entre 2050 e 2074, as reduções são maiores que 84% e 77%, dependendo da técnica utilizada na projeção; e entre 2075 e 2099, maiores que 91% e 79%.

"Todo resultado tem que ter cautela. São projeções e não previsões, e os próprios modelos divergem entre si quanto a magnitude do que vai ocorrer, mas a maioria indica a mesma tendência, de redução de chuvas e de vazão e aumento de temperatura. Já em 2030, há redução grande de vazão", afirma o professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Ufes Diogo Buarque.

Divulgação

Nessas projeções, a redução da pluviosidade é a principal causa da redução da vazão. Mas a dinâmica da vegetação e da erosão ainda não foram devidamente avaliadas. "Consideramos que a cobertura vegetal se mantém, mas a gente sabe que ela se adapta ao clima e alguns estudos já mostram que a vegetação de 2050 será diferente. Como é uma bacia já muito antropizada e com redução de chuva, haverá redução também da erosão? Ou o fato de ter períodos de concentração de chuva irá aumentar a produção de sedimentos em alguns períodos, sem alterar a média? Ou haverá aumento médio da erosão por redução da vegetação? São questões a serem estudadas ainda".

Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, Diogo Buarque coordena o Profágua, mestrado profissional em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos, iniciativa da qual a Ufes participa. Ele explica que os dados integram um amplo estudo, ainda em andamento.

O mapeamento das secas ocorridas entre 1950 e 2020 em todo o Espírito Santo, a partir de modelagem hidrológica e dados de satélites, está concluída. Agora, os estudos se debruçam sobre a ocorrência de secas futuras, em decorrência das mudanças climáticas. Uma parte deles ocorre no âmbito da pesquisa de mestrado em Engenharia Ambiental de Amanda dos Santos Pereira, que avalia as secas futuras na bacia do rio Doce. A outra é feita no pós-doutorado de Mino Viana Sorribas, que estuda as secas futuras em todo o Espírito Santo.

Metodologia

Na fase já consolidada, a pesquisa de doutorado da pesquisadora Julielza Betzel Baldotto foi fundamental. Ela utilizou duas ferramentas principais: os satélites do Gravity Recovery and Climate Experiment (Grace) e o modelo hidrológico MGB. Foram analisadas 13 bacias de grande relevância para as terras capixabas, que correspondem aos rios Doce – subdividida em Alto Doce, Médio Doce e Baixo Doce –, Mucuri, Itaúnas, São Mateus, Barra Seca, Riacho, Santa Maria da Vitória, Jucu, Benevente, Itapemirim e Itabapoana.

Conforme noticiou a Ufes em junho passado, o conjunto de satélites Grace captou os dados das bacias desde 2002, quando foi lançado. "O Grace possui sensores que registram as variações de massas de água no campo gravitacional da Terra, revelando uma ampla gama de informações sobre as alterações nos armazenamentos de água. O acesso aos dados, que foram processados pelo Center for Space Research (CSR), da Universidade do Texas, permitiu uma comparação com o método MGB, modelo desenvolvido para aplicações no estudo de grandes bacias, baseando-se em equações físicas conceituais para simular os processos hidrológicos", explica a publicação. Já o MGB foi utilizado para simular as faltas hídricas no período de 1950 a 2020, a partir dos dados de precipitação, temperatura, umidade relativa do ar, velocidade do vento e pressão atmosférica.

"Nas bacias da região noroeste do Estado, onde existe maior tendência a ter déficits hídricos, destacam-se três eventos secos de longa duração: de 2002 a 2004, de 2014 a 2017 (que foi o mais intenso e longo) e de 2018 a 2020. Além disso, a simulação de dados feita com o MGB também permitiu visualizar essa tendência de déficit hídrico mais acentuada no sentido noroeste", expôs Julielza Baldotto, na ocasião.

Ainda de acordo com a publicação, o Plano Estadual de Recursos Hídricos do Espírito Santo de 2018 apresenta valores médios anuais de chuva que variam entre 900 a 1,7 mil milímetros, sendo que, na zona úmida, a sudeste, os valores médios anuais ficam acima de 1,3 mil mm, e, à medida que se aproxima das regiões norte e noroeste, onde se localiza uma zona mais seca, a média é inferior a 1,2 mil mm.

A dinâmica projetada para o Rio Doce, conta, ocorrerá em todo o norte do Estado. Nas demais áreas, a crise climática tende a não alterar radicalmente a pluviosidade e vazões médias de rios, mas haverá distribuição mais irregular das chuvas. "No Espírito Santo, a perspectiva de mudança climática é de aumento de períodos secos, sem chuvas, e também de eventos de chuvas mais isoladas e mais fortes, causando consequentemente mais enchentes".

Barragem do Rio Bonito, no rio Santa Maria da Vitória, em período de grande estiagem. Foto: Eduardo Badson/Ufes

Adaptações e monitoramento

E quando falamos de futuro, qual o contexto mundial em que nos inserimos? Diogo lembra que o cenário mais otimista, entre os maiores pesquisadores do clima no mundo, dificilmente atende ao limite de 1,5ºC estabelecido no Acordo de Paris, em 2015. A previsão mais aceita é justamente a mais pessimista, de crescimento da temperatura média global superior a 3ºC, quando comparada com o período pré-Revolução Industrial.

"Teremos que conviver com as mudanças climáticas, não há como mudar isso. Os estados e municípios precisam de planos de adaptação climática, prevendo formas de reservação de água para os períodos de seca e estratégias para reduzir danos das enchentes. E criar redes de monitoramento para melhorar ao máximo a previsibilidade dos eventos".

Nesse sentido, o grupo de Diogo Buarque criou o aplicativo HidroES, com foco em monitoramento em tempo real e previsão de chuva e vazão para 10 dias. "A expectativa é deque ele seja ampliado para todo o Estado e que seja não só um APP mais uma Web, que permita fazer o acompanhamento pelo computador e possibilite que entidades como a Agerh [Agência Estadual de Recursos Hídricos] criem salas de monitoramento em tempo real do comportamento dos rios no estado".

Distopia?

Em reportagem publicada pelo portal do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) no último dia 22 de maio, sob o título Perguntamos a 380 dos principais cientistas do clima o que eles sentiam sobre o futuro. Eles estão aterrorizados, mas determinados a continuar lutando. Aqui está o que eles disseram, há trechos dos relatos, colhidos por uma pesquisa exclusiva realizada pelo jornal britânico The Guardian, e uma quantificação geral das percepções dos entrevistados: 77% deles acreditam que as temperaturas globais atingirão pelo menos 2,5°C acima dos níveis pré-industriais, um grau devastador de aquecimento; quase metade (42%) acha que será mais de 3°C; apenas 6% acham que o limite de 1,5°C será alcançado.

Os sentimentos predominantes são de medo e frustração, assinalam. "Espero um futuro semidistópico com dor e sofrimento substanciais para as pessoas do sul global," disse um cientista sul-africano que optou por não ser identificado. "A resposta do mundo até agora é repreensível - vivemos em uma era de tolos", completou. Outro depoimento anônimo, de um cientista de uma nação insular do Pacífico, clamou: "A humanidade está caminhando para a destruição. Precisamos apreciar, ajudar e amar uns aos outros".

Giovani Pagotto/GovES

"Na crise climática, até frações de grau importam: cada décimo extra significa 140 milhões a mais de pessoas sofrendo com o calor perigoso. A meta de 1,5°C foi forçada por negociações internacionais por uma aliança de estados insulares pequenos e exclusivamente vulneráveis. Eles viram a meta anterior de 2°C como condenando suas nações à obliteração sob oceanos em elevação e tempestades", destaca a reportagem.

Sobre uma alegada falta de dinheiro para evitar o pior, apenas 27% dos cientistas entrevistados concordam. A maioria acredita que o financiamento existe para financiar a transição verde. "Múltiplos trilhões de dólares foram liquidados para uso durante a pandemia, mas parece que não há vontade política suficiente para comprometer vários bilhões de dólares com financiamento de adaptação", disse Shobha Maharaj, de Trinidad e Tobago.

Para Aditi Mukherji, no grupo de pesquisa CGIAR, "os países ricos monopolizaram todo o orçamento de carbono, deixando muito pouco para o resto do mundo." O Norte global, afirma ao The Guardian, tem uma grande obrigação de resolver um problema de sua própria criação, reduzindo suas emissões e fornecendo financiamento climático para o resto do mundo. Financiamento que, segundo o governo indiano, deve ser de US$ 1 trilhão por ano.

Em outro ponto, a reportagem pondera que, mesmo a crescente necessidade de proteger comunidades contra ondas de calor, inundações e secas inevitáveis pode ter um lado positivo, com base na visão de Mark Pelling, da University College London. "Isso abre possibilidades excitantes: ao ter que conviver com as mudanças climáticas, podemos nos adaptar de maneiras que nos levem a uma forma de viver mais inclusiva e equitativa". Um mundo assim, pontua, "veria a adaptação andar de mãos dadas com a redução da pobreza e da vulnerabilidade, fornecendo moradias melhores, água e eletricidade limpas e confiáveis, dietas melhores, agricultura mais sustentável e menos poluição do ar".

Sustentabilidade para quem?

Quando os governos adotam ponto de vista das grandes corporações, debate sobre crise climática se limita ao balcão de negócios
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