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Moradores lutam para proteger mangueira histórica de horta comunitária

Coletivo impediu corte de árvore planejado para esta semana no Centro de Vitória

Arquivo pessoal

Uma mangueira histórica da Rua Rubens José Vervloet Gomes, no Centro de Vitória, esteve prestes a ser cortada pela gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos) nessa quarta-feira de Cinzas (18), após solicitação de uma vizinha que alegou danos ao telhado de sua casa. A árvore, que integra a Horta Comunitária Quintal na Cidade há mais de 10 anos, só não foi suprimida graças à mobilização imediata de moradores e do coletivo que administra o espaço, que conseguiram convencer a equipe da Secretaria Municipal de Meio Ambiente a realizar apenas a poda necessária.

A Horta Comunitária Quintal na Cidade ocupa uma rua sem saída, transformada em um quintal coletivo aberto à participação da população. O espaço abriga diversas espécies de frutas, verduras e flores, e todo o cuidado é feito por moradores e voluntários, sem auxílio direto da prefeitura.

Segundo Eduarda Borges Bimbatto, uma das coordenadoras da horta, uma equipe técnica foi enviada ao local para realizar um corte “drástico”, sem consultar os moradores ou o coletivo. “Quando soubemos, organizamos imediatamente os vizinhos e o pessoal da horta para intermediar a situação. Graças à presença da equipe e à disposição da bióloga em ouvir a comunidade, conseguimos evitar o corte da mangueira”, relata.

A mangueira não é apenas uma árvore frutífera, reforça. “Oferece sombra, contribui para um microclima mais fresco em meio ao centro urbano”. Ela aponta que moradores antigos afirmam que a árvore já existia na rua antes do nascimento de muitos deles, reforçando seu valor histórico e ambiental.

Eduarda conta que a bióloga que acompanhou a intervenção analisou a mangueira e concluiu que ela não corria risco de queda. Apenas os galhos que atingiam a casa da vizinha precisavam ser podados. “Eles tinham que cortar? Não, não tinham. Conseguimos que a prefeitura realizasse apenas a poda. Por enquanto, a mangueira está preservada”, explica.

Outro morador que colabora na horta coletiva e acompanhou a ação intermediou com a equipe da prefeitura e sustentou que a árvore é parte de um projeto comunitário consolidado há mais de 10 anos e, por isso, o corte não poderia ser feito sem ouvir os demais. “Vamos continuar atentos”, afirma Eduarda.

Além de evitar o corte imediato, os moradores e o coletivo da horta planejam ações para garantir que a mangueira e outras árvores do local não corram risco novamente. A representante do coletivo revela que pretende abrir um protocolo formal na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, solicitando proteção legal das árvores, podas periódicas e acompanhamento técnico das espécies cultivadas.

“Queremos proteção para a árvore, não corte. Plantar mais árvores, não derrubar”, destaca. O objetivo é criar mecanismos que impeçam ações individuais de terceiros de colocar em risco exemplares históricos e frutíferos da comunidade.

O movimento se apoia também nos recentes avanços sobre os direitos da natureza, que reconhecem a importância de preservar espécies e áreas verdes urbanas. A intenção é que a mangueira e outras árvores da horta recebam atenção institucional. Além da mangueira, o espaço abriga outros exemplares frutíferos, como pés de limão, mamão e acerola, que também poderão ser protegidos por meio das medidas que o coletivo pretende formalizar.

Arquivo Pessoal

Com a mangueira salva, ao menos por enquanto, o coletivo já planeja um mutirão para o próximo domingo (22), com organização do espaço e um lanche compartilhado. Eles pretendem organizar uma comemoração especial para marcar o 10º aniversário do projeto, reforçando a importância da participação comunitária na preservação das árvores e do espaço público.

Mecanismos de proteção

Em várias cidades brasileiras, comunidades e órgãos públicos atuaram para proteger árvores específicas do corte ou supressão e conseguiram que fossem declaradas “protegidos contra corte” por meio de decretos municipais, que reconhecem o valor ecológico, histórico e cultural dessas árvores. Esses decretos funcionam como uma imunidade legal, ou seja, enquanto estiverem protegidos por lei, esses espécimes não podem ser cortados ou suprimidos, e qualquer intervenção exige autorização formal do poder público. A proteção pode vir também por ordens judiciais, prescrições legais específicas ou pelo movimento social organizado.

Um dos casos mais conhecidos internacionalmente é o da árvore coast redwood chamada “Luna”, na Califórnia (EUA). A ativista ambiental Julia Butterfly Hill viveu por 738 dias no alto dessa árvore de cerca de 1.000 anos para impedir sua derrubada por uma madeireira. Após essa ocupação, foi estabelecido um acordo com a empresa responsável, garantindo que a árvore não fosse cortada naquele local.O caso se destaca porque a proteção da árvore veio por negociação forçada por meio de ocupação e resistência, e não apenas por decreto.

Para o movimento comunitário, esses precedentes reforçam a legitimidade da mobilização da horta coletiva e dão base para mencionar que esse tipo de proteção já existe historicamente em outras cidades, tanto no Brasil quanto no exterior.

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