Ação denuncia impunidade por crime no Rio Doce e cobra reforma agrária

Mais de 300 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em sua maioria mulheres, seguem acampadas em uma área da mineradora Samarco no município de Anchieta, no litoral sul do Espírito Santo. A ocupação teve início na madrugada de segunda-feira (9), e integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, realizada em diversas regiões do país desde domingo (8), em referência ao Dia Internacional de Luta das Mulheres.
A ação denuncia a impunidade pelo crime da Samarco/Vale-BHP, ocorrido em 2015, considerado o maior da história do Brasil. As ativistas também cobram reparação pelos pela contaminação provocada pela chegada de 30 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, que percorreram cerca de 600 quilômetros pela bacia do Rio Doce até chegar ao litoral capixaba. De acordo com o MST, a mobilização busca pressionar o sistema de Justiça para que haja responsabilização efetiva das empresas envolvidas e reparação integral aos territórios e populações atingidas.
A organização defende que uma eventual condenação das empresas resulte não apenas em compensações financeiras, mas também em ações concretas de restauração ambiental e garantia de direitos às comunidades impactadas. A ocupação em Anchieta reforça ainda reivindicações por reforma agrária e à democratização do acesso à terra. Segundo o movimento, a Samarco possui cerca de cinco mil hectares no município, enquanto milhares de famílias permanecem acampadas aguardando assentamento. No Estado, cerca de 1,5 mil famílias vivem atualmente em acampamentos e aguardam políticas de assentamento.
Uma porta-voz do movimento no Espírito Santo, que pediu para não ser identificada por questões de segurança, lembra que a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra acontece anualmente. Em 2025, a mobilização denunciou a Suzano (ex-Aracruz Celulose e ex-Fibria) como “maior inimiga da reforma agrária no Brasil”, e expôs os impactos do agronegócio e da concentração fundiária. “Agora também estamos denunciando a Samarco por todo esse processo que gera desigualdade e miséria nos territórios onde essas empresas estão instaladas”, destaca. “A nossa pauta aqui é a terra, colocar para a sociedade o debate da reforma agrária popular e denunciar esse grande latifúndio da Samarco”, completa.
A mobilização destaca o fortalecimento da organização das mulheres do campo e de comunidades tradicionais, que são protagonistas das iniciativas de recuperação ambiental e reconstrução dos territórios impactados pelo crime da mineração. O movimento também denuncia “a contradição entre a concentração de terras nas mãos de grandes empresas e a existência de milhares de famílias sem acesso à terra para produzir alimentos”.
A reivindicação central da ocupação é a destinação das terras da mineradora para fins de reforma agrária. De acordo com o movimento, a empresa concentra cerca de cinco mil hectares no município de Anchieta, área que seria suficiente para assentar todas as 1,5 mil famílias que atualmente vivem em acampamentos no Estado. O coletivo também defende que recursos previstos em processos de reparação relacionados ao crime da mineração poderiam contribuir para viabilizar políticas de assentamento para as famílias sem terra.
O MST destaca os impactos socioeconômicos provocados pela instalação de grandes empreendimentos minerários no sul capixaba, como os danos a corpos d’água importantes para o abastecimento e para a subsistência de comunidades locais, como a Lagoa de Mãe-Bá e o Rio Benevente. Segundo o MST, episódios de mortandade de peixes e comprometimento da qualidade da água têm sido registrados nesses locais, afetando pescadores, agricultores e comunidades tradicionais que dependem diretamente desses recursos naturais. Na esfera social, a organização observa que a presença de grandes empreendimentos minerários veio vinculada ao aumento de diferentes formas de violência de gênero nos territórios impactados, como exploração sexual, violência doméstica e discriminação contra mulheres e pessoas LGBTQIA+.
Ação nacional
A ocupação em Anchieta ocorre simultaneamente a outras ações realizadas em diferentes estados brasileiros. Segundo o MST, mais de 11 mil mulheres participaram das mobilizações nos dois primeiros dias da Jornada, realizadas em 13 estados e 21 municípios. Ao todo, foram registradas 24 ações, entre ocupações de terras consideradas improdutivas, marchas, bloqueios de rodovias, debates e atos públicos.

No Sudeste, mais de 700 mulheres do MST realizaram um bloqueio simbólico nos trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no município de Tumiritinga, em Minas Gerais, em protesto contra os dez anos de impunidade pelo crime da Samarco/Vale-BHP . Em Presidente Epitácio, no interior de São Paulo, um grupo de 400 mulheres ocupou a Fazenda Santo Antônio, que possui 1.675 hectares de terras devolutas públicas que poderiam ser destinada à reforma agrária, sustenta a organização. Ainda na manhã de segunda-feira, porém, a Polícia Militar realizou o despejo das camponesas, ação que o movimento classificou como violenta e marcada pelo uso de bombas de gás lacrimogêneo.
Na região amazônica, aproximadamente 800 mulheres ocuparam a Fazenda Santo Hilário, em Araguatins, no Tocantins. A área, com mais de 2,4 mil hectares, teve sua matrícula cancelada e passou a pertencer à União para fins de reforma agrária, mas, segundo o movimento, ainda permanece sob controle irregular de um fazendeiro.
No Nordeste, mobilizações ocorreram em vários estados. No Piauí, 200 famílias ocuparam uma área improdutiva da empresa Suzano no município de Palmeirais. Em Alagoas, 500 mulheres ocuparam instalações da mineradora Vale Verde, em Craíbas, denunciando impactos ambientais da exploração mineral na região.
Em Sergipe, mulheres marcharam pelas ruas de Aracaju até a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), onde realizaram audiência para cobrar avanços na política de assentamentos. No Rio Grande do Norte, ocorreram protestos em rodovias federais nas regiões de Touros e da Chapada do Apodi, com denúncias sobre impactos de megaprojetos de energia eólica nos territórios rurais.
Na Bahia, as mobilizações incluíram plenárias, formações políticas e participação em atos do Dia Internacional das Mulheres em Salvador e em outros municípios. Já em Pernambuco, 800 famílias ocuparam a Fazenda Pontalino, no Vale do São Francisco, uma área de aproximadamente 900 hectares considerada improdutiva.
No Centro-Oeste, 500 mulheres do Distrito Federal e entorno ocuparam uma área de 8 mil hectares da Usina da Companhia Bioenergética Brasileira (CBB), em Vila Boa de Goiás. O movimento cobra a desapropriação da área, que foi oferecida ao patrimônio da União para quitar dívidas da empresa, para fins de reforma agrária.
Na região Sul, cerca de 500 mulheres ocuparam uma área de 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. A mobilização cobra a destinação da área para assentamentos e o reassentamento de famílias afetadas pelas enchentes de 2024 no estado.
No Paraná, aproximadamente mil mulheres marcharam pelas ruas de Rio Bonito do Iguaçu. A mobilização terminou em um seminário que debateu os impactos da crise climática sobre a vida das mulheres do campo e reforçou a defesa da agroecologia.

