segunda-feira, fevereiro 2, 2026
31.9 C
Vitória
segunda-feira, fevereiro 2, 2026
segunda-feira, fevereiro 2, 2026

Leia Também:

Quilombolas voltam a denunciar invasões e violações no Sapê do Norte

Destruição de cercas é uma das ações recorrentes atribuídas à empresa Suzano

A Comissão Quilombola do Sapê do Norte, território que compreende os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, voltou a denunciar uma série de ataques atribuídos à empresa Suzano (ex-Aracruz Celulose e ex-Fibria) em áreas tradicionais da região. As ações incluem destruição de cercas, cortes de roças, danos a plantações e intimidação de moradores por meio de vigilantes privados, e têm afetado diretamente o modo de vida e a subsistência de famílias que dependem da agricultura e da criação de animais.

A quilombola Flávia dos Santos, da comunidade de Angelim II, em Conceição da Barra, afirma que os ataques são recorrentes e fazem parte do cotidiano das comunidades. “Não é algo recente, é diário, é cotidiano aqui no Sapê do Norte”, afirma. Em outubro de 2025, moradores da comunidade de Córrego do Alexandre também registraram Boletim de Ocorrência (BO) devido à inviabilidade da produção rural das famílias, resultado das constantes violações praticadas pela empresa.

Redes Sociais

Flávia descreve que há um padrão de intimidação. “Já tivemos vigilância que chegou a bater e empurrar quilombolas. Fizemos denúncia, divulgamos, houve pressão política, mas tudo vai para o esquecimento. As denúncias quilombolas não são tratadas como deveriam”, critica.

Segundo ela, enquanto as comunidades denunciam e não obtêm resposta, os quilombolas são rapidamente intimados quando realizam retomadas – ações de reocupação dos territórios motivadas pela morosidade na titulação oficial e degração ambiental gerada pelos monocultivos de eucalipto. “Existe uma relação clara de poder e capital influenciando a justiça”, aponta.

O caso mais recente foi registrado na comunidade de Nossa Senhora da Penha, onde, em menos de sete dias, cercas instaladas em uma área de retomada foram destruídas duas vezes. De acordo com o relato da comissão, a cerca havia sido refeita coletivamente, mesmo em meio a fortes chuvas, mas foi novamente cortada durante a noite.

“De um dia para o outro, já amanheceu tudo cortado de novo. É um prejuízo constante”, relata uma representante da comissão, que pediu para não ser identificada por questões de segurança. “Acontecem situações semelhantes em várias comunidades. É um problema do Sapê do Norte todo”, reitera. Ela acrescenta que Boletins de Ocorrência (BOs) têm sido registrados, e os episódios são comunicados a órgãos como o Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público Estadual (MPES) e Defensoria Pública (DPES), porém sem providências.

Arame farpado de cerca destruída em área de retomada quilombola – Foto: Montagem/reprodução

“Acontece sempre à noite, de madrugada, quando a gente está dormindo. Com o corte das cercas, animais acabam soltos, o que gera uma série de riscos. Os animais saem, podem ser furtados, causar acidente, entrar nas roças. Nós trabalhamos com gado, porco, galinha, e isso tudo fica exposto”, explicou. As comunidades também cultivam mandioca, banana, coco, pimenta-do-reino e outros alimentos que garantem a subsistência das famílias. A comissão destaca que os danos às cercas fazem com que os próprios animais invadam as áreas de plantio, ampliando as perdas. “Plantamos para sobreviver. É prejuízo atrás de prejuízo”, relatou.

A comissão diz que o custo do arame é elevado e inviável para muitas famílias. “Uma bola de arame custa mais de R$ 500,00. A gente não tem condição de ficar comprando toda hora. Tem áreas que a gente nem conseguiu cercar ainda por causa do preço”, afirmou. A comissão destaca ainda o impacto emocional causado nas famílias pela insegurança constante, que ameaça a permanência das pessoas no território.

Para a comissão, a demora na titulação definitiva das terras, uma luta de décadas dos quilombolas, é o principal fator que alimenta os conflitos. As comunidades defendem a regularização fundiária como fundamental para garantir segurança jurídica, proteger as famílias e assegurar a continuidade do modo de vida tradicional.

No Sapê do Norte, o principal obstáculo à titulação dos territórios é a presença das empresas de monocultivo de cana de açúcar a de eucalipto, principalmente a Suzano (ex-Fibria, ex-Aracruz Celulose), detentora de centenas de milhares de hectares com monocultivos de eucalipto no Espírito Santo e histórica usurpadora de territórios tradicionais não só de quilombolas, mas também de indígenas e camponeses, tendo atuado junto com a ditadura militar na expulsão e tortura de pessoas nessas comunidades.

“Essas terras foram dos nossos antepassados, já foram reconhecidas como terras devolutas, aprovadas várias vezes pelos órgãos, mas falta o governo fazer a titulação”, afirma a representante da comissão. De acordo com ela, o Ministério Público Federal (MPF) já reconheceu, em mais de uma ocasião, o direito das comunidades sobre os territórios.

Em outubro do ano passado, o órgão ministerial e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) voltaram a cobrar judicialmente a titulação dessas terras, após decisões que anularam títulos de domínio obtidos de forma frudulenta pela Fibria Celulose, atual Suzano. As sentenças reconheceram fraudes na apropriação de terras devolutas e reforçam a obrigação do Estado de garantir a posse definitiva às comunidades tradicionais.

Mais Lidas