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Recorde de agrotóxicos expõe disputa interna no governo, aponta MPA-ES

Dorizete Cosme, do Movimento de Pequenos Agricultores, critica pressão do agronegócio

Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil bateu recorde na liberação de agrotóxicos em 2025, ano em que foram concedidos 912 registros de produtos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) – um aumento de mais de 37% em relação a 2024, quando o país já havia alcançado o maior patamar da série histórica, com 663 liberações. Os dados constam no Ato nº 63 da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins (CGAA/SDA/Mapa), publicado no Diário Oficial da União na semana passada, e são apresentados pelo Governo Federal como sinal de modernização regulatória e fortalecimento da competitividade agrícola.

Para o Movimento dos Pequenos Agricultores do Estado (MPA-ES), no entanto, os números escancaram um modelo de produção que segue aprofundando a dependência de venenos no campo, em detrimento da saúde da população, do meio ambiente e da agricultura camponesa. A avaliação é do agricultor agroecológico Dorizete Cosme, membro da coordenação estadual do MPA, que classifica o cenário como “lamentável” e afirma que o tema será central nas disputas políticas e nas jornadas de luta ao longo de 2026.

“Nós vamos pautar, já no plano de governo para as eleições deste ano, a questão dos agrotóxicos e da expansão dos transgênicos. Esse é um ponto crucial que nós vamos focar”, afirma. Segundo ele, o movimento também defende a ampliação de recursos para a implementação efetiva do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), política criada para estimular modelos sustentáveis de produção de alimentos no país.

Lucas Costa/Ales

Dentro do Planapo, um dos instrumentos mais reivindicados pelos movimentos do campo é o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que, apesar de previsto há anos, nunca saiu do papel de forma concreta. “Foi tudo de forma muito lenta, muito morosa. O que nós queremos é que o governo invista nas ações para que o controle do uso de agrotóxicos seja mais rigoroso”, critica.

Para o agricultor, a contradição se torna ainda mais evidente quando o Brasil continua autorizando produtos que já foram banidos em outros países. “Principalmente aqueles agrotóxicos que já são proibidos na União Europeia e aqui continuam sendo liberados”, destaca. Dorizete chama atenção para o rigor adotado por países europeus na importação de alimentos brasileiros. “Quando produtos como café, pimenta, frutas e commodities chegam lá, eles não aceitam resíduos de agrotóxicos que são banidos por eles. Embargam a entrada. E aqui o governo continua cedendo, liberando esses mesmos produtos”, observa.

O Mapa, por sua vez, sustenta que a alta no número de registros não significa, necessariamente, aumento no uso de agrotóxicos. Segundo o ministério, parte significativa das liberações se refere a produtos equivalentes ou genéricos, cujo objetivo seria ampliar a concorrência e reduzir custos para os produtores. A pasta também destaca que 162 dos registros concedidos em 2025 são de bioinsumos, o maior número já registrado no país.

Além disso, o ministério afirma que o processo de registro é rigoroso e envolve análises técnicas tripartites da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do próprio Mapa. “O registro final é concedido apenas após parecer favorável dos três órgãos”, ressalta a nota oficial.

Para o MPA-ES, porém, o discurso institucional não se traduz em mudança real de rumos. Dorizete avalia que existe uma forte correlação de forças dentro do governo federal, na qual o agronegócio segue tendo mais peso político do que a agricultura familiar e camponesa. “É uma queda de braço muito forte, principalmente através do Ministério da Agricultura. Eles estão levando a melhor, estão conseguindo botar pressão no governo e avançar”, afirma. Segundo ele, os movimentos ligados ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) acabam tendo menos influência nas decisões estratégicas.

Essa dinâmica, na avaliação do agricultor, entra em choque com o discurso do próprio Governo Federal, que tem no combate à fome uma de suas principais bandeiras. “Combater a fome é produzir alimentos saudáveis. Mas, infelizmente, os comportamentos não condizem com o discurso. Quando se libera agrotóxico, isso gera impactos ambientais e na saúde humana, que depois dificultam a vida de quem está produzindo”, aponta.

Em 2025, o Mapa também registrou a liberação de seis novos ingredientes ativos químicos inéditos e 19 produtos formulados com esses compostos. Entre os pesticidas liberados para uso direto no campo, seis se destacam — Seeker, Spyrale, Evito T, Reflect Top, Rikali e Reflect — todos classificados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como “muito perigosos ao meio ambiente”. Para o MPA, esse dado reforça a necessidade de um debate mais profundo sobre o modelo agrícola adotado no país.

“O dilema está posto. Ou o Brasil segue aprofundando um modelo baseado em veneno, dependente de interesses do agronegócio, ou investe de verdade na agroecologia, na produção de alimentos saudáveis e no fortalecimento da agricultura familiar”, conclui a liderança camponesa.

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