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‘Sem permanência, não existe universidade’

DCE aponta unidade como chave para lutas estudantis na Ufes este ano

“Partimos do tripé tradicional — ensino, pesquisa e extensão —, mas entendemos que ele é insuficiente. Se o estudante não consegue se manter na universidade, nada disso se sustenta. Por isso, a permanência precisa ser reconhecida como um quarto pilar”, defende Pedro Lucas Fontoura, coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ele resgata a formulação política do chamado “quadripé universitário”, conceito construído nacionalmente pelo movimento Enfrente, ligado à Juventude do PT, do qual faz parte.

O dirigente destaca a luta pela permanência estudantil como um direito estruturante da universidade pública e eixo central das mobilizações estudantis deste ano, que serão discutidas nesta segunda (26), no campus de Goiabeiras, na primeira assembleia geral convocada após o retorno do semestre coletivo.

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Ele explica que a permanência estudantil é entendida como o conjunto de políticas que garantem que estudantes não apenas ingressem, mas consigam permanecer na universidade até a conclusão do curso. “Não basta assegurar o acesso ao ensino superior, se parte significativa dos estudantes não consegue se manter na instituição por falta de condições materiais” reforça.

Na prática, essa concepção se traduz na defesa de auxílios estudantis com valores compatíveis com a realidade socioeconômica dos alunos, rompendo com a lógica de benefícios considerados insuficientes, avalia. “Não pode ser ‘bolsa-esmola’. Não adianta dar R$ 100,00 e achar que isso resolve a vida do estudante. Os auxílios precisam ser realistas e atender de fato às necessidades”, pontua.

A pauta ampla debatida na reunião inclui auxílios financeiros integrais, fortalecimento do Restaurante Universitário (RU), ampliação de cotas trans e condições de acessibilidade para pessoas com deficiência.

O primeiro ponto listado, a proposta de pagamento integral dos auxílios durante as férias ou em meses com menos de dez dias letivos, foi uma promessa de campanha da atual gestão do DCE, apresentada à Reitoria e às instâncias deliberativas da universidade, recorda a liderança. Atualmente, estudantes que não atingem esse mínimo recebem apenas metade do valor do benefício. “A proposta já está em discussão, inclusive em forma de projeto. Agora, precisamos pressionar para que isso ganhe prioridade e seja votado”, ressalta.

Outro avanço destacado pelo DCE é a ampliação dos serviços do Restaurante Universitário, com a implementação do café da manhã em todos os campi, além da oferta de jantar em unidades que antes não contavam com essa refeição. “Foi uma conquista importante. O café da manhã começa às 6h45 e custa R$ 1,50. Pode não ser um café de hotel, mas garante que ninguém vá para a aula com fome”, avalia.

Para ele, a política do RU é especialmente relevante para estudantes que moram sozinhos ou em repúblicas e precisam conciliar estudo, estágio e trabalho informal. “É conforto, organização e economia. Também evita que o estudante fique refém das cantinas, que costumam ter preços mais altos”.

A assembleia também vai debater a ampliação do benefício de gratuidade no RU, atualmente restrito a estudantes com renda per capita de até dois salários mínimos. A proposta do DCE é elevar esse limite para três salários mínimos, ampliando o alcance da política. Outro ponto de forte tensão foi a denúncia contra a atuação da Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Assistência Estudantil (Propaes) no RU, após episódios de conflito envolvendo controle de acesso e abordagem a estudantes.

“Houve constrangimento e até agressão física. Isso não pode ser naturalizado”, enfatiza Pedro Lucas, destacando que a entidade cobra investigação rigorosa e responsabilização. O diretório repudiou a forma como a medida foi implementada e afirmou que acompanha denúncias já protocoladas em instâncias como o sistema Fala.br – plataforma integrada de Ouvidoria e Acesso à Informação do Poder Executivo Federal.

A pauta da inclusão e diversidade também ganhou destaque, especialmente com o debate sobre a implementação das cotas trans. Segundo o coordenador, a proposta prevê a criação de vagas suplementares — uma por curso — sem retirada de vagas da ampla concorrência ou de outras cotas. “Cota é uma ferramenta de justiça social. Se não houvesse desigualdade, ela não seria necessária”, argumenta.

A acessibilidade aparece como outro eixo estratégico, com a proposta de criação de comissões permanentes por centro de ensino, em parceria com a Superintendência de Acessibilidade da Ufes. A iniciativa busca enfrentar problemas estruturais, como falta de rampas adequadas, saídas de emergência e condições seguras para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.

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Leonardo Sá

Para além das pautas internas, Pedro Lucas avalia que 2026 exige atenção redobrada do movimento estudantil por ser um ano eleitoral. Ele alerta que, historicamente, esses períodos são marcados por tentativas de desmoralização da universidade pública. “É um ano em que precisamos defender a universidade e tocar os projetos com unidade. Quando o movimento estudantil se une, ele é muito forte”, destaca.

A liderança reforça que a principal tarefa do DCE é evitar divisões internas e fortalecer a construção coletiva. “Precisamos entender as limitações e potencialidades de cada força, mas sem perder a unidade. Sem permanência, sem unidade e sem universidade pública, não existe futuro para o ensino superior”.

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