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Ufes vai analisar impactos do crime da Samarco/Vale-BHP no rio Comboios

Lideranças indígenas de Aracruz alertam para contaminação e danos à saúde

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Divulgação

A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) vai realizar estudos multidisciplinares para analisar a contaminação do rio Comboios e os impactos do contato da água com o corpo humano, a pedido de lideranças indígenas das aldeias Tupinikim Comboios e Córrego do Ouro, localizadas em Aracruz, no norte do Estado. O rio foi atingido por rejeitos de mineração decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015, crime socioambiental de responsabilidade da Samarco e suas controladoras Vale e BHP Billiton.

A medida foi debatida em reunião realizada na última sexta-feira (16), entre representantes indígenas, o reitor da Ufes, Eustáquio de Castro, pró-reitores, professores e lideranças das comunidades atingidas. Segundo a universidade, os estudos vão envolver áreas como saúde, meio ambiente e cadeia alimentar, com participação de diferentes departamentos e articulação com instituições parceiras, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), além de ministérios do governo federal. Os projetos devem utilizar recursos próprios da universidade e verbas da repactuação do Acordo do Rio Doce.

Para o cacique da Aldeia Comboios, Alair Severo Elisiário, conhecido como Brás, a realização dos estudos é fundamental para dar visibilidade a impactos que, segundo ele, persistem há uma década e seguem sem reparação adequada. “Nosso rio está contaminado. A gente quer fazer um trabalho sério sobre o rio, mas também sobre os animais e o ser humano, porque essa contaminação deixou muitas dúvidas”, afirma.

Brás destaca que, até hoje, as comunidades indígenas não receberam compensações pelos danos causados diretamente ao rio. “A gente recebe recurso relativo aos impactos ao mar,, mas pelo rio que está contaminado, nada”, disse. Segundo o cacique, a expectativa é que os estudos sirvam como base técnica para cobrar responsabilidades das empresas.

As aldeias Comboios e Córrego do Ouro estão situadas às margens do rio Comboios, que atravessa o território indígena e historicamente sustentou práticas como pesca, banho, agricultura familiar e atividades culturais. De acordo com Brás, após a contaminação pelos rejeitos, o rio deixou de ser utilizado pela comunidade.

Além da perda do uso do rio, as lideranças indígenas relatam mudanças significativas na saúde da população ao longo dos últimos dez anos. Brás afirma que a comunidade tem observado um aumento de problemas de saúde que antes não eram comuns no território. “Hoje a gente observa muito problema de pressão alta, sede excessiva nas crianças e também casos de diabetes”, disse. “A gente percebe que até crianças de 10 anos estão com diabetes, coisa que não se via antes”, completa.

Outro ponto de preocupação é o impacto no aprendizado escolar. “Tem criança de 8, 9, 10, 12 anos com dificuldade de aprendizagem na escola, e isso a gente vem observando muito”, afirmou o cacique, destacando que a própria equipe de saúde da aldeia relatou essas observações durante a reunião com a reitoria da Ufes.

Para Brás, os efeitos da contaminação não se restringem à saúde física. “Tirou a liberdade das crianças, dos jovens, dos adultos e dos idosos. Afetou tudo”, destaca. Ele também aponta impactos profundos na saúde mental da comunidade. “Quando você perde, de uma hora para outra, uma coisa que faz parte da sua vida há 100, 150 anos, a saúde mental da pessoa vai a zero”, alerta.

Durante o encontro com as lideranças indígenas, o reitor da Ufes garantiu que a universidade vai estruturar projetos de pesquisa e extensão voltados à análise da água do rio Comboios, do solo e dos efeitos da contaminação na saúde humana e na cadeia alimentar. Brás informa que ficou definido a realização de uma nova reunião em fevereiro, ainda sem data marcada, quando a universidade deve apresentar um cronograma para o início dos trabalhos.

A aldeia Comboios abriga atualmente 443 pessoas, distribuídas em 133 famílias, enquanto a Córrego do Ouro, 485 pessoas. A agricultura familiar, a pesca e o artesanato são práticas centrais para a subsistência e a preservação cultural das comunidades. Atualmente, as lideranças apontam que os povoados enfrentam desabastecimento de água tratada e dependem do fornecimento de água mineral, conforme previsto no acordo decorrente do crime da Samarco/Vale-BHP.

As comunidades também relatam que, em períodos de cheia, o rio Comboios sofre interferência de águas contaminadas que chegam do Rio Doce por meio do Canal Caboclo Bernardo, agravando os riscos à saúde, especialmente de crianças – o canal foi pela então Aracruz Celulose (atual Suzano e ex-Fibria) em 1999, para abastecimento de duas fábricas em Aracruz.

Para Brás, os estudos anunciados pela Ufes representam um passo importante, mas ele reforça que o objetivo final é garantir justiça e reparação. “A gente quer saber o que ainda está no nosso rio, no nosso solo e no nosso corpo. Só assim vamos poder pensar em soluções”, enfatiza.

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