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Quinta, 29 Outubro 2020

Como uma onda no mar

O píer é o mais longo do estado: 1/4 de milha. Várias vezes foi destruído por furacões mais raivosos e, quando renovado, o esticam mais um pouco. Persistência. A cidade praieira é pequena nos padrões americanos: só tem um Walmart, um Walgreen's, um McDonald... etc. O zoológico também se restringe em quantidades: um casal de leões, um casal de tigres, um de ursos, um de zebras, um de girafas, um de rinocerontes, embora a família girafa já tenha dois rebentos. Os animais menos nobres, no entanto, que proliferam bem em cativeiro, exibem grandes núcleos: macacos, aves, etc. Pagando, pode-se alimentar as girafas com alface, os bichos menores com grãos, e a criançada se diverte com os gulosos vindo comer em suas mãos.


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Estamos no inverno e faz frio, a cidade está vazia. Poucas luzes acendem durante a noite nos sofisticados condomínios e edifícios de luxo, mas os restaurantes estão sempre lotados. Apesar da baixa temperatura e do vento cortante, na passagem tinha gente na praia enfeitando o negrume de um céu sem lua e sem estrelas com belos fogos de artificio. Às sete da manhã tem surfistas deslizando sobre as ondas. Pessoas com crianças já caminham na praia, algumas catando conchas. O sol às vezes mostra a cara, mais das vezes se esconde num céu nublado, e apesar de ter muitos corajosos sempre andando ou refestelados em cadeiras coloridas, poucos se arriscam a entrar no mar.


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Mar aqui seria um modo de dizer, ou força do hábito. Estou no norte da Flórida, numa ponta que se estica para o oeste, nove horas de carro de Miami em impecáveis highways. Espremida entre cidades maiores, como Destin e Pensacola, beirando o Golfo do México. Nadando em linha reta o Michael Pfifer chegaria no México. Talvez. Mas nada difere essa praia das nossas bem conhecidas praias atlânticas: ondas constantes acariciando a areia branca, o incessante cantar das sereias que brincam em suas profundezas, provavelmente zombando de nós - Por que eles ficam sempre na orla, receosos de vir nos encontrar?


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Os revezamentos anuais ocorridos no dia 31/12 são como essas ondas que veem lamber nosso mundo, mas sempre voltam atrás - um ano que chega, outro que retorna, enquanto os séculos se sucedem. Persistência. Vão-se civilizações, os monumentos erigidos e a vaidade humana se desmancham devagar na poeira do tempo - mas o mar continua ali, viajando entre os continentes, e essas ondas que hoje admiro de minha varanda amanhã podem estar numa praia de Cancun ou seguir para o sul, indo brincar numa praia da Ilha de Páscoa.


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E como o Golfo do México desliza para o Atlântico, talvez essas ondas que brincam entre as estacas desse píer podem seguir para a África, ou ultrapassar o Cabo da Boa Esperança e ir se desmanchar numa praia de Sidney. Pequeno mundo, o nosso, onde labutamos nossas pequenas vidas. 2020 pode trazer ventos amenos ou furacões e tsunamis, mas teremos sempre essas ondas abençoando nossas praias, trazendo esperança e renovação. Talvez acabem quando o último ser humano deixar de existir, ou continuem aguardando nossa próxima civilização.

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