domingo, abril 12, 2026
25.1 C
Vitória
domingo, abril 12, 2026
domingo, abril 12, 2026

Leia Também:

A ira pertence aos homens, mas a vingança só pertence a Deus’

 
O presidente da Assembleia Legislativa acumula um currículo de quase meio século de atividades políticas. Aos 77 anos, Theodorico Ferraço (DEM) tem quatro mandatos como prefeito de Cachoeiro de Itapemirim; três como deputado federal. Em 2014 foi reeleito para seu quarto mandato na Assembleia como o segundo deputado mais votado. É presidente da Casa desde março de 2012, graças a manobras que ele mesmo articulou para se manter à frente do legislativo estadual até 2015, quando ele deve se despedir da Assembleia para disputar a Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim.
 
O currículo político de Ferraço é tão extenso quanto sua folha corrida na Justiça. O mais recente capítulo de suas pendengas judiciais aconteceu há duas semanas. A Justiça Federal manteve o bloqueio dos bens do deputado no valor de R$ 5,2 milhões. Motivo: Ferraço, quando esteve prefeito de Cachoeiro, cometeu irregularidades na aplicação de recursos federais repassados para as obras do Hospital Aquidaban.
 
Na resposta do deputado sobre o imbróglio, ele solta uma de suas frases de efeito: “O hospital só não está funcionando porque meus adversários não querem”. As tiradas, aliás, marca registrada de Ferraço, o transformaram numa das figuras mais pitorescas e folclóricas da mise-en-scène política capixaba.
 
 
Relembre outras frases do decano da Assembleia.
 
A rasteira que o então governador Paulo Hartung deu em Ricardo Ferraço (PMDB), em 2010, quando trocou o filho de Theodorico pelo então candidato do PSB, Renato Casagrande, que disputaria e venceria a eleição para governador naquele ano, não foi assimilada por Ferraço-pai.
 
“Tomei uma atitude. Não vou comentar nada sobre essa decisão [de Hartung]. Essa atitude pra mim é demoníaca. Não faço parte do bloco do governo. Não fui ouvido sobre nenhuma decisão e por isso não quero me posicionar. Só digo que a partir dessa quarta o jogo político zerou”
 
“Eu sou do tipo que não costuma tomar uma decisão pela manhã e mudar à tarde. Estou surpreso com essa mudança”
 
“É muito estranho num final de mandato o governador [Hartung] ser forçado a apoiar um candidato [Casagrande] que até então o criticava”
 
 
Logo após o “abril sangrento” Ferraço se distanciou de Hartung, e passou a fazer críticas mais diretas ao governador.
 
“É imperiosa a necessidade de colocar um freio no mandonismo dele”
 
Sinalizando que estava abrindo a porta para reequilibrar o jogo político, embora sabendo que sua atitude não seria seguida por outros deputados descontentes.
 
A prisão da sua mulher, a ex-prefeita de Itapemirim, Norma Ayub (DEM), em fevereiro de 2013, durante a Operação Derrama, talvez tenha sido o episódio que mais desestabilizou emocionalmente Ferraço. As frases, ao menos, revelam o inconformismo do deputado com a prisão da companheira.
 
“A ira pertence aos homens, mas a vingança só pertence a Deus. É isso que me segurou até agora para que minha ira fosse colocada nas mãos da Justiça. Se a Justiça não resolver, Deus irá resolver”.
 
“A revanche é porque meu nome foi citado numa operação falsificada pelo Nuroc [Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção] e pelo Feu Rosa [desembargador, então presidente do Tribunal de Justiça, Pedro Valls Feu Rosa]”
 
A vingança que Ferraço prometeu entregar na mão de Deus acabou sendo feita por ele mesmo em maio deste ano, durante a CPI da Sonegação, na Assembleia. O presidente do Legislativo chamou Pedro Valls de “impostor” e “bandido”. E trouxe para falar à CPI o juiz aposentado Antônio Leopoldo, que acusou Pedro Valls a força-lo, por meio de tortura, a confirmar a farsa de que o juiz Alexandre Martins foi vítima de uma crime de mando.
 
 
Ainda na esteira da Derrama, Ferraço defendeu o ex-prefeito Edson Magalhães (DEM), seu eterno afilhado, que também foi preso na operação.
 
“Edson é um homem muito honesto. Tem muita gente o acusando que não é digna de beijar o sapato dele. Não tem um processo contra ele que diga que desviou um tostão. Quem o acusa ou é por despeito, mágoa ou ciúme”.
 
No dia a dia da condução do legislativo, Ferraço não perde a oportunidade de encaixar suas tiradas de efeito. Sobre a ausência de deputados na sessão, em outubro de 2014, disparou: 
 
“Senhor deputado Gilsinho Lopes, só nos resta apertar a campainha e convidar os ilustres deputados que não se encontram em plenário, a comparecer”.
 
Durante quase três quartos do mandato do governador Renato Casagrande, Ferraço esteve à frente da Assembleia, e não poupou críticas ao socialista. Em agosto de 2012 cutucou: 
 
“Casagrande não respeita os deputados. Os trata como “trouxas”  
Ferraço só criticou Casagrande como o PSB e os deputados da base aliada do governo.
 
“O partido, quando deseja muito para si, trabalha contra o governo. Quem quiser ajudar Casagrande tem que parar de criar problemas, porque o governo tem um número de partidos ao seu redor, e quando um deles se sente maltratado tem o direito de ficar contra”, (dezembro de 2013)
 
“Tem puxa-sacos que não indicam ao governo os problemas que ele tem que conhecer. O pior inimigo desse governo são os puxa-sacos”
 
“Tem deputado esperto que, em vez de ficar aqui cumprindo as obrigações, fica atrás de secretarias, e quando sabe de algum programa que o governo vai lançar, vem aqui e discursa antes para depois colocar na conta”.
 
“O maior benefício que os aliados de Casagrande podem fazer a ele é não ficar levando fofoca até o Palácio Anchieta nem criar um estado de autoritarismo paralelo ao governador”.
 
O presidente da Assembleia sempre gostou de dramatizar algumas situações para se mostrar humano e solidário. Foi assim, em março de 2012, que ele reagiu ao dilema de substituir os comissionados da Casa por servidores concursados.
 
“Não tem jeito, sei que muita gente vai sofrer. Mas eu também vou chorar com as lágrimas deles”. 
 
Quando tem oportunidade, Ferraço também gosta de fazer algumas troças com a vida alheia. Quando o romance do senador Magno Malta (PR) e Lauriette decolava em Brasília, o velho Ferraço, que perde o amigo mas não perde a piada, disparou, durante um evento em Cachoeiro: 
 
“O homem não é fácil, não!.Em Brasília, todo mundo já sabe. De mãozinhas dadas e tudo mais…”
 
Nas frases de efeito, Ferraço também gosta de criar analogias: 
 
“O político é como um animal. O animal demarca seu território, o político também o faz”.

Mais Lidas