Um caminho, ou melhor, um atalho, já estaria aberto para o deputado Theodorico Ferraço (DEM) partir para o seu quarto mandato consecutivo à frente da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. O acordo teria sido fechado entre o deputado e o governador Paulo Hartung (PMDB) em um almoço entre as duas lideranças no início do mês, mas a articulação ainda precisa ser aprovada pelo plenário.
O segundo secretário da Mesa, deputado Cacau Lorenzoni (PP), está incumbido de recolher as 10 assinaturas necessárias para que comece a tramitar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permitiria uma recondução do presidente na mesma legislatura, o que encontra certa resistência nos meios políticos por ser uma medida impopular, que segue na contramão da minirroforma política, que prevê o fim da reeleição para mandatos executivos
Vencida essa etapa de colher as assinaturas mínimas para a PEC, o presidente terá que conquistar os 18 votos necessários para a aprovação em dois turnos da PEC no plenário. Se aprovada, a expectativa é de que os deputados sigam o exemplo de algumas câmaras municipais e antecipem a eleição da Mesa Diretora, que pode acontecer depois do processo eleitoral de outubro próximo.
Isto significa que se for reeleito, o deputado precisa colher os votos com os atuais deputados, já que alguns devem se eleger nas eleições municipais em suas bases, dando espaço para os suplentes. A posse da nova Mesa acontece em fevereiro de 2017 e termina no fim de 2018.
Mas não é apenas a Assembleia Legislativa que esteve no pacote acordado entre Ferraço e Hartung. O deputado estadual é considerado favorito na disputa pela prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim, sua principal base eleitoral. Mas seu interesse político está voltado para o município vizinho, Itapemirim — a “galinha dos ovos de ouro”. O governador teria oferecido como contrapartida ao deputado o controle das articulações do processo eleitoral no sul do Estado.
Pouco antes disso, Ferraço vinha se aproximando do ex-governador, o socialista Renato Casagrande, sobretudo após a migração do prefeito Luciano Paiva do PSB para o Pros. Entretanto, esta semana, com o novo afastamento do prefeito da gestão pelo prazo de 120 dias, o caminho fica mais fácil para que o deputado consiga emplacar a candidatura da mulher, a ex-prefeita do município, Norma Ayub (DEM).
Luciano Paiva é um candidato muito competitivo mesmo com os desgastes políticos que vem enfrentando. O atual afastamento da prefeitura não o tira do pleito deste ano. Mas se ele tiver uma condenação colegiada até lá, o cenário fica mais confortável para a disputa. E aí outro obstáculo precisa ser vencido, o da cassação dos direitos políticos da ex-prefeita.
O grupo precisa reverter ou protelar o transitado em julgado de uma ação contra a demista para que ela possa disputar a eleição sem correr o risco de ser barrada pela Justiça Eleitoral. Se todas as movimentações derem certo, Ferraço consegue manter o controle do Poder Legislativo do Estado sem abrir mão do controle do sul do Estado.
Em Cachoeiro, a estratégia é outra. Ferraço, mesmo estando em larga vantagem na corrida eleitoral, deve apoiar o nome do empresário do setor de rochas, Tales Machado. A situação financeira do município não atrai Ferraço para a prefeitura, mas ele vai participar da eleição como cabo eleitoral, como fez em 2012, embora não tenha obtido sucesso ao tentar transferir votos para o ex-deputado Glauber Coelho, morto em um acidente automobilístico em 2014.
A contrapartida para o governador Paulo Hartung é a garantia da governabilidade. Desde o inicio do mandato do peemedebista, Ferraço vem facilitando o trânsito das matérias de interesse do Palácio Anchieta. Ele também tem entrado em campo para dirimir os embates entre a liderança do governo e os deputados descontentes.
O presidente da Assembleia não é tão frequente no comando das sessões, mas sempre está presente quando o clima começa a esquentar no plenário ou nos momentos de votações importantes. Além disso, o acordo com Ferraço evita reações inesperadas de Ferraço, como a entrevista do deputado concedida no início do ano ao jornal A Gazeta, em que ele disparava contra o governador. Na ocasião, Ferraço lavou toda a roupa suja entre os dois, e causou constrangimentos ao governador.
O acordo, para os meios políticos, foi vantajoso para ambas as partes, mas Ferraço terá que aparar outras arestas para garantir que toda a movimentação acordada venha a se concretizar até o fim do ano.

