Mesmo sem apoio, prefeito de Vila Velha insiste em pré-candidatura a governador

O prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), inicia o ano de 2026 mais distante do grupo do governador Renato Casagrande (PSB). O atual chefe do Executivo definiu publicamente que vai mesmo apoiar o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) na disputa pela sua sucessão em outubro, mas Arnaldinho parece convencido de que pode chegar ao Palácio Anchieta mesmo sem a ajuda de Casagrande.
O Governo do Estado continua como o principal parceiro institucional da Prefeitura de Vila Velha, uma aliança que permitiu ao município da Grande Vitória a realização de altos investimentos em obras de infraestrutura e urbanismo – e que viabilizou a reeleição de Arnaldinho em outubro de 2024, com quase 80% dos votos.
Em dezembro daquele mesmo ano, Borgo foi colocado na lista de Renato Casagrande de possíveis sucessores, junto a Ricardo Ferraço; ao ex-prefeito da Serra, Sérgio Vidigal (PDT), bem-sucedido na missão de fazer o seu sucessor no município, Weverson Meireles (PDT); e ao prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB), também reeleito com quase 90% dos votos.
Porém, um a um, os nomes da lista foram declinando de qualquer pretensão em nome da pré-candidatura a governador de Ricardo Ferraço, que sempre foi considerado o primeiro da fila. Sérgio Vidigal decidiu se dedicar a articulações mais de bastidores, e Euclério Sampaio passou a se colocar como pré-candidato a senador, em sintonia estreita com Casagrande e Ferraço.
O único que não seguiu o mesmo caminho foi justamente Arnaldinho. Insatisfeito com o presidente estadual do Podemos, Gilson Daniel, deixou o partido em março e passou a flertar com outras siglas – inclusive de oposição, como o Partido Social Democrático (PSD), que passaria a abrigar o ex-governador Paulo Hartung, rival de Casagrande. O Podemos, aliás, foi a primeira sigla a fechar apoio a Ricardo Ferraço.
Em junho, Arnaldinho Borgo deu um passo ainda mais ousado ao anunciar, sem meias palavras, que iniciaria “uma jornada por todos os municípios do Estado” para construir a sua pré-candidatura a governador, justificando que havia sido encorajado por “diversas esferas da sociedade civil”. Segundo ele, pesquisas qualitativas de opinião apontaram que “os capixabas desejam um governador que represente uma nova geração de políticos comprometidos com a gestão pública, que possua capacidade de diálogo, de liderar e montar equipes, que seja transparente e que cultive princípios conservadores”.
Desde então, o ímpeto do prefeito de Vila Velha foi esquentando e esfriando periodicamente, ao mesmo tempo em que os sinais de que Ricardo Ferraço seria de fato o escolhido de Renato Casagrande ficavam cada vez mais claros. E mesmo nos momentos de maior tensão, todas as partes envolvidas mantiveram o discurso de “parceria”.
Com a “tomada” do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) por Arnaldinho, em dezembro, tornou-se impossível disfarçar que nada estava acontecendo. O prefeito de Vila Velha não apenas se filiou à sigla, mais uma vez reforçando sua pré-candidatura a governador, como foi colocado como presidente estadual sem a menor cerimônia, passando por cima do então presidente, o deputado estadual Vandinho Leite, líder do governo Casagrande na Assembleia Legislativa.
O que poderia ser encarado como um grande reforço para a sigla, se o processo tivesse sido feito com diálogo, acabou resultando no início de um processo de debandada do PSDB, enfraquecendo ainda mais o partido no Espírito Santo. De quebra, Arnaldinho conquistou a antipatia declarada de todos os tucanos (ou ex-tucanos) que estão fechados com o governo estadual.
Em resposta, Renato Casagrande adiantou logo o anúncio de Ricardo Ferraço como o seu escolhido, e mandou recado para Arnaldinho: “é muito bem-vindo ao movimento que eu lidero”. Ou seja, se não quiser se submeter à liderança do atual governador, boa sorte.
Não satisfeito, Arnaldinho foi às redes sociais no mesmo dia para dizer que “a decisão sobre quem vai dar continuidade aos bons governos dos últimos 24 anos, de Paulo Hartung e de Renato Casagrande, será do povo, no dia 4 de outubro” – indicando que pretende se candidatar mesmo que isso signifique romper com o atual chefe do Executivo.
O prefeito de Vila Velha voltou ao assunto em texto publicado nas redes sociais quatro dias depois – adotou tom mais ameno, mas sem recuar de suas pretensões. Mais uma vez, elogiou as gestões de Hartung e Casagrande, sem distinção, exaltou a “relação política e administrativa sólida” com o atual chefe do Executivo capixaba, e afirmou que as suas pretensões nascem de um projeto “coletivo”, levando em conta o que considera ser um desejo de “renovação” na política, “mas sem abrir mão da experiência”. Em contraponto, Casagrande tem declarado que é preciso “dar tempo” para Arnaldinho, e que espera contar com ele em seu projeto.
A última pesquisa de intenção de voto para o Governo do Espírito Santo, realizada pelo instituto Real Time Big Data e divulgada pela CNN Brasil, no início de dezembro, mostra Ricardo Ferraço e o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), empatados em primeiro lugar. Arnaldinho oscila entre o terceiro e o quarto lugares, em diferentes cenários, pontuando de 11% a 14%. O índice de rejeição a Borgo, de 30%, é o terceiro maior, superior ao de Pazolini e Ferraço. De qualquer forma, ainda faltam dez meses para as eleições, o número de indecisos é elevado, e o cenário pode mudar bastante até lá.

