“Matar ou morrer. Não há escolha. Na guerra, o mais capaz vence. Que os jogos comecem!”
Se o prefeito Audifax Barcelos (Rede) abrisse a reunião nessa quinta-feira (30) com a frase clássica (acima) do filme “Jogos Vorazes” para agradecer os 17 vereadores que aprovaram o projeto de lei que permite à prefeitura pôr a Guarda Municipal armada nas ruas, ninguém acharia fora de contexto, tão aflorado estavam os ânimos dos presentes, começando pelo próprio chefe do Executivo municipal.
Não era para menos. Os vereadores foram se reunir com o prefeito horas depois de uma sessão tensa, considerada “histórica” por Audifax. “Esse é um momento histórico. Esses 170 guardas [que com a lei conquistam o direito à efetivação imediata] vão se lembrar do que aconteceu hoje na Serra daqui a 10, 20, 30 anos. E vocês [se dirigindo aos vereadores] vão fazer parte do lado do bem dessa história”.
A sessão histórica cujo prefeito se referia foi a extraordinária-especial convocada pelo próprio. Audifax queria aprovar a qualquer custo o projeto de lei que permitiria que os 170 agentes concursados concluíssem o processo de formação antes da data limite do período eleitoral, que tem início neste sábado (2). Se não conseguisse passar o projeto, a tão propagandeada Guarda não entraria na vitrine do prefeito.
Os vereadores da base obviamente queriam a aprovação do projeto para que o prefeito pudesse usar a Guarda armada como uma das principais entregas da atual gestão. Os vereadores de oposição queriam exatamente o oposto: evitar que o projeto fosse aprovado e Guarda usada eleitoreiramente. Estava criado o impasse. A tumultuada sessão refletia a animosidade dentro da Casa entre partidários de Audifax e de Sérgio Vidigal (PDT).
A presidente da Câmara, Neidia Pimentel (PSD), após ouvir o parecer do presidente da Comissão de Justiça, Basílio da Saúde (Pros), que julgou a proposta do Executivo inconstitucional, mandou devolver o projeto ao prefeito e pôs ponto final à sessão.
A confusão estava formada. A partir daí foi só ladeira abaixo. Em meio à troca de insultos, a energia da Câmara acabou “misteriosamente”. Acusaram Neidia pelo “atentado”. Um vereador da base disse que a presidente da Casa era “ditadora”. Faltou água também e até os telefones ficaram mudos. Um caos total. Mas o desejo de aprovar o projeto da Guarda foi maior que as adversidades. Por 17 votos a zero — seis vereadores deixaram a sessão para não votar, em protesto — os governistas aprovaram o projeto do prefeito.
À tarde, menos tenso, já com um sorriso de alívio no rosto, o prefeito transformou a cerimônia de assinatura da lei em um grande ato político, embora tenha repetido inúmeras vezes que a aprovação do projeto não tivesse conotação política e tampouco trouxesse qualquer benefício para ele. “Quem sai ganhando é a população da Serra”, martelou.
Depois de agradecer a todos que votaram com a proposta, Audifax literalmente “abriu os jogos”. Avisou que no evento desta sexta-feira (1), quando irá inaugurar as unidades do Minha Casa, Minha Vida (Ourimar I e II), contará a população o que aconteceu na Câmara nessa quinta-feira. “Vou nomear um a um os vereadores que ajudaram a Serra e também os que não ajudaram. Vou mostrar quem agiu contra a Serra”, disse se referindo aos seis vereadores que queriam barrar o projeto: Neidia (PSD), Basílio da Saúde (Pros), Nacib, David, Boy do INSS, Aldair Xavier (todos do PDT). “As duas mil pessoas esperadas para o evento vão saber quem são esses vereadores”, disse em tom de ameaça, enfatizando que o evento contará com a presença do governador Paulo Hartung (PMDB). E acrescentou. “Vou falar isso rua por rua por onde eu andar nesta cidade”.
O clima de embate entre Audifax e Vidigal ficou ainda mais explícito quando o prefeito deu a entender que o rival estaria por trás da tentativa de manobra na Câmara para barrar a Guarda. “Quando jogava pelada, havia um compromisso de não bater abaixo da virilha. Mas se for para bater, a gente também sabe bater”, avisou, fazendo referência clara a Sérgio Vidigal e dando o tom do que será a disputa entre os dois este ano.
Outra frase do filme “Jogos Vorazes” ilustra bem a provável leitura que o eleitor serrano deve estar fazendo do embate entre os dois eternos rivais. “Ninguém nunca ganha os jogos. Ponto final. Há sobreviventes. Não há vencedores”.

