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Carnaval ganha componente político adicional em prefeituras do Estado

Em Vitória, blocos reclamam da gestão; em Cachoeiro, prefeitura organiza “Cachoeiraço”

PMV/Leonardo Sá

Por ser um dos períodos festivos mais populares do Brasil, o Carnaval é permeado por componentes políticos, ainda que de forma indireta. Em meio ao ano eleitoral de 2026, essa característica parece ter se acentuado em algumas prefeituras do Espírito Santo. Esse é o caso de Vitória, com os embates entre blocos de rua e a gestão municipal; e Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado, em que a administração prepara uma festa com nome sugestivo.

No fim do ano passado, a Prefeitura de Cachoeiro anunciou para 2026 a volta do “Cachoeiraço”, evento de pré-carnaval cujo título rima com Theodorico Ferraço (PP), o nome do prefeito. A iniciativa foi anunciada como o resgate de uma tradição criada há mais de 20 anos – Ferraço assumiu seu quinto mandato em 2025 após duas décadas longe do Executivo municipal.

O “Cachoeiraço” levará trio elétrico para a avenida Beira Rio, uma das mais importantes do município, de 6 a 8 de fevereiro, e contará com atrações locais e nacionais, como a banda Terra Samba. A Lei Orçamentária Anual (LOA) de Cachoeiro para 2026 separou R$ 100 mil para o Carnaval, mas o orçamento deve ser maior, haja vista o patrocínio do banco Banestes – o vice-governador (e pré-candidato a governador), Ricardo Ferraço (MDB), é filho de Theodorico, o que deve facilitar trâmites no governo estadual.

Com o evento, Cachoeiro ganha uma programação oficial de Carnaval após alguns anos sem atração nenhuma. Mas vale destacar que este será um pré-Carnaval, ou seja, quando chegar o feriado de fato, o povo cachoeirense terá que procurar por folia em outros cantos. Além disso, há um tom grandiloquente e personalista no “Cachoeiraço” típico das realizações ferracistas, e que pode mascarar a ausência de maior investimento cultural na cidade ao longo do ano.

Em Vitória, desenha-se uma dinâmica parecida e repetida nos últimos anos. Blocos de rua denunciam o que consideram um processo de desidratação do Carnaval no Centro, enquanto o prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) investe em grandes shows na praia, nos quais inclusive gosta de aparecer como “dublê de artista”, fazendo aparições no palco e até mesmo “se jogando” na multidão.

Às vésperas da folia, a gestão de Pazolini publicou uma portaria e um edital que, da forma como foram redigidos, podem inviabilizar o desfile dos blocos de rua no Centro. A Portaria nº 001, da Secretaria de Governo, determina que ações de patrocínio e apoio aos grupos passem pelo crivo da administração municipal, com um prazo de análise que se estende para além do feriado festivo. Já o edital de premiação de blocos estabelece que “os recursos serão repassados aos contemplados em parcela única, no prazo de até 30 dias, após a assinatura do Termo de Compromisso Cultural” – ou seja, mesmo se o grupo for contemplado, será preciso fazer a festa sem dinheiro no bolso, esperando o pagamento para depois.

Os custos de realização do Regional da Nair, um dos maiores blocos do Centro de Vitória, giram em torno de R$ 80 mil, segundo os organizadores. O valor representa menos de 50% do montante de R$ 180 mil que a gestão de Pazolini repassou em janeiro para a MMZ Produções Artísticas LTDA, empresa que representa o cantor Mumuzinho, que fez um show na Arena de Verão da Praia de Camburi – de acordo com dados do Portal da Transparência de Vitória.

Independentemente da discussão específica a respeito do valor dos cachês de grandes artistas nacionais, o fato é que esse comparativo mostra a desproporção entre os investimentos feitos em uma arena de shows em que o prefeito, pré-candidato a governador, consegue aparecer como protagonista, e um Carnaval de rua mobilizado por grupos que não fazem parte do poder público.

De modo geral, uma das justificativas comumente apresentadas para os grandes shows é o sucesso de público alcançado por esse tipo de evento. Acontece que o Carnaval de rua, além de mais barato, também é imensamente popular, como qualquer um pode constatar dando uma volta pelo Centro de Vitória no período festivo. Além disso, é tocado por blocos identificados com a cidade, sendo que muitos deles também desenvolvem ações fora de época.

Mas a questão não gira só em torno do dinheiro. Há também o quesito “controle”, com o estigma de “desordem” muitas vezes atribuído à festa de rua. Os blocos do Centro têm manifestado o temor de que se repitam ações policiais consideradas violentas, como ocorreu em outros anos, principalmente na programação noturna dos últimos dias de Carnaval. A prefeitura ainda não apresentou um planejamento nesse setor, de acordo com os grupos.

Secretarias de eventos

A ênfase nos shows de grande porte em muitas prefeituras também parece revelar uma visão distorcida sobre investimento público em cultura, muitas vezes tratado como mero sinônimo de realização de eventos. E esse pensamento pode abrir margem para situações esdrúxulas.

Em Colatina, no noroeste, há uma ação civil de improbidade administrativa em tramitação relacionada à gestão do prefeito Renzo Vasconcelos (PSD), por suposta comercialização de camarotes VIP na festa oficial do município. Em agosto do ano passado, a Justiça bloqueou os bens da secretária de Cultura e Turismo, Loressa Pagani Campostrini Pretti, da empresa +707 Soluções em Marketing e Eventos LTDA e de seu proprietário, Paulo Henrique Caldeira Miranda, até o montante de R$ 381,4 mil.

O Ministério Público do Estado (MPES) também pediu o afastamento da secretária do cargo, mas a solicitação foi negada, em decisão de outubro.

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