“Até o café está frio”, diz um servidor graduado do Palácio Anchieta, na manhã desta sexta-feira (27), para descrever o clima de fim de festa que tomou conta da sede do governo do Estado, a cinco meses da saída do governador Paulo Hartung, no final deste ano.
No portal de notícias, a agenda do governador informa: “Nenhum evento encontrado nesta data”. Depois de desistir da reeleição, em um processo cheio de afirmações e desmentidos, Hartung se volta mais para articular nos bastidores do cenário político.
Precisa, o quanto antes, erguer estruturas essenciais à manutenção da imagem construída em mais de quatro décadas no poder político no Espírito Santo, corroída pelo desgaste natural do cargo e, também, por envolvimento de figuras do seu governo em denúncias de corrupção, muitas ainda em andamento na Justiça.
Nessa quinta-feira (26), conseguiu emplacar um avanço: com o apoio de 23 colegas, o líder do governo na Assembleia Legislativa, deputado Rodrigo Coelho (PDT), se inscreveu para concorrer a uma vaga no Tribunal de Contas (TCE), em substituição ao conselheiro afastado por corrupção José Antonio Pimentel, que se aposentou. Sai um aliado, entra outro.
Pelo menos no TCE, Hartung espera contar com votos favoráveis às suas contas, que serão apreciadas com ele já fora do governo, a partir de 2019. Para a eleição à Assembleia Legislativa, já não se espera tanto de sua influência, considerando as baixas do bloco que lhe dava sustentação.
Dos aliados, contam-se nos dedos os que sobraram. O deputado federal Lelo Coimbra, presidente estadual do partido do governador, o MDB, se distancia e procura abrigo no comitê da senadora Rose de Freitas (Podemos), pré-candidata a substituí-lo no governo.
Antigo companheiro, desde os tempos do Diretório Central de Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Lelo se distancia em busca da reeleição, ainda não totalmente garantida. César Colnago, o vice-governador, preside o PSDB esfacelado por conta de movimentos equivocados, como a filiação à força do ex-secretário de Estado da Agricultura, Octaciano Neto, que no final acabou até desistindo da candidatura à Câmara dos Deputados.
Ao comentar esses fatos, o servidor graduado do Anchieta dá um muxoxo, esfrega as mãos em um tique nervoso, e conta que muitos dos colegas do tempo da gestão de Renato Casagrande (PSB), de 2010 a 2014, já se direcionam aos interlocutores do ex-governador para garantir o emprego. Como ele, estão certos de o socialista ganha a eleição.
Esse mesmo procedimento é adotado por integrantes do bloco político do governo, desfeito depois de confirmada a segunda desistência à reeleição. Além de Lelo e Colnago, dois ex-secretários do governo procuram pousar no ninho da senadora Rose de Freitas.
Neucimar Fraga e José Carlos da Fonseca, o Zé Carlinhos, ambos do PSD, tentam se articular, o primeiro para se eleger à Câmara Federal, o outro tentando abrir uma brecha para sair como suplente de senador. Para tanto, pressiona o mais sinalizado a obter a vitória, o deputado estadual Amaro Neto (PRB).
Justo ele, sobre quem pesaram as pressões para que desistisse desse projeto, a fim de favorecer o senador Ricardo Ferraço (PSDB), que, bem antes, já formalizou com Casagrande, mesmo destino do deputado federal Sérgio Vidigal (PDT), fiel aliado de Hartung, mas que decidiu reforçar a chapa do ex-governador.
Até o bloco de partidos nanicos, Avante, PSC, PV e PHS, debandou.

