Quinta, 26 Mai 2022

​Denúncia do MPF traz à tona assassinato de capixaba na Guerrilha do Araguaia

Arildo_Airton_Valadao Reprodução
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Nove anos depois de iniciadas as investigações da Força-Tarefa Araguaia, volta à tona o assassinato do estudante capixaba Arildo Aírton Valadão, ocorrido no Pará, durante a repressão que ficou conhecida como massacre à Guerrilha do Araguaia, em um dos períodos mais sangrentos da ditadura militar instalada no país em 1964. Ari, como era conhecido, foi decapitado ainda com vida, segundo denúncia do Ministério Público Federal (MPF), encaminhada neste mês ao Judiciário, como parte da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) contra o Estado brasileiro.

Além de Arildo Valadão, que era de Muniz Freire, no sul do Espírito Santo, estão desaparecidos desde o período ditatorial os corpos dos capixabas Orlando Bonfim Júnior e Maurílio Patrício (Manoel), de Santa Teresa (região serrana); Marcos José de Lima (Zezinho) e João Gualberto Calatrone (Zebão), de Nova Venécia (noroeste), e Lincoln Bicalho Roque, de São José do Calçado (sul).

Na contramão do que ocorre na maioria dos países, o Brasil não pune os envolvidos em assassinatos e torturadores. A anistia recíproca considera como se houvesse dois lados na ditadura e, devido às próprias condições do conflito, excessos teriam sido cometidos por ambas as partes.

O ex-preso político Francisco Celso Calmon, ex-coordenador da Rede Brasil Memória, Verdade Justiça e do Fórum Memória e Verdade no Estado, afirma que "o Brasil é o país da impunidade, da falta de memória e das mentiras institucionais", e isso decorre especialmente da ditadura militar e da mídia coorporativa, sempre comprometida com os golpes ocorridos no País.
Reprodução YouTube/Ales
Dez denúncias foram impetradas pelo Ministério Público Federal (MPF) no último dia nove, que provocaram reações de entidades de direitos humanos. A Associação Advogados e Advogadas pela Democracia, Justiça e Cidadania (ADJC), coordenada pelo deputado federal Aldo Arantes (PCdoB), divulgou nota, no último dia 18, afirmando que "espera que seja feita Justiça às vítimas daquele período sangrento de repressão patrocinada pelo Estado brasileiro".

"Neste momento, em que se multiplicam os ataques da extrema-direita contra o Estado Democrático de Direito, as instituições e a Constituição, capitaneados pelo próprio atual ocupante da Presidência da República, esta tarefa se reveste ainda de maior importância jurídico-política e de uma atualidade premente", diz a nota.

E ressalta: "O ex-capitão que governa o nosso país tem declarado, em várias ocasiões, o seu apoio à ditadura militar e a seus torturadores e assassinos, chegando a afirmar, em entrevista, que era necessário fazer 'o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil', e ele próprio tem sido denunciado por crimes contra a Humanidade, em especial pelo crime de genocídio contra os povos indígenas".

Decapitação

Uma das denúncias, de 2019, cita o coronel José Brant Teixeira, o "Doutor César", apontado pelos camponeses como torturador e mandante de um crime marcado pela barbárie: a decapitação do estudante de física Arildo Valadão, emboscado num local conhecido como Grota do Pau Preto, em São Geraldo do Araguaia, no dia 24 de novembro de 1973.

Ari levou um tiro no peito e teve a cabeça cortada ainda em vida, conforme relato de um dos três guias que, coagidos por Brant, executaram o crime e depois andaram quatro dias pela mata para entregar a cabeça do guerrilheiro.

"O corpo de Arildo Valadão foi abandonado na mata e a cabeça da vítima foi decepada e entregue ao mandante, José Brant Teixeira, então comandante da base militar instalada no município de Xambioá/TO", escrevem os procuradores na denúncia.

Brant esteve várias vezes na região, a última em julho de 1974, quando teria feito questão de acompanhar de perto a execução da geóloga Dinalva Conceição Teixeira, a Dina, guerrilheira que virou uma lenda na região, presa duas semanas antes numa emboscada organizada por Curió, segundo matéria publicada no site do PCdoB.

"O Ministério Público Federal resgatou a pauta mais incômoda para as Forças Armadas e o governo do presidente Jair Bolsonaro: a acusação de que, longe da versão de uma guerra na selva difundida pelos militares, o que ocorreu na Amazônia entre outubro de 1973 e final de 1974, na operação conhecida como Marajoara, foram assassinatos a sangue frio, com a ocultação e destruição planejadas dos corpos de oponentes", aponta a informe do partido com base da peça dos procuradores federais.

O relato ressalta que oito oficiais e um médico foram identificados e responsabilizados pela execução e ocultação dos corpos de 17 guerrilheiros do PCdoB. As investigações também confirmam que, entre os 68 desaparecidos, 41 foram executados, 32 deles depois de passarem por prisões nas bases militares no circuito da guerrilha. 

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Comentários: 1

Seu Madruga em Sábado, 23 Outubro 2021 20:04

Leiam o livro A Verdade Sufocada, muito bom.

Leiam o livro A Verdade Sufocada, muito bom.
Visitante
Sexta, 27 Mai 2022

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