Rogério Medeiros e José Rabelo
As eleições de 2012 no Espírito Santo trouxeram de volta o “dilema Tostines”. Lembram? Aquele da década 1980 que fazia a seguinte pergunta: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”. O papo de repórter tenta clarear o dilema: Será que foi Casagrande que cresceu ou Paulo Hartung que encolheu? O que teria acontecido primeiro?
Rogério: Há uma tendência muito forte em achar que o governador Renato Casagrande está com tudo. Como dizem hoje em dia, está bombando. De fato ele foi nas eleições municipais e está se saindo bem nessa questão dos royalties. Podemos dizer que ele vive um bom momento político. Esse bom momento já leva muita gente a crer que ele está praticamente reeleito em 2014. Acho que não é bem assim. Para um governador que foi para frente das câmeras para prometer que iria cuidar pessoalmente da Segurança, ele não está se saindo tão bem. O capixaba está saturado de conviver com essa violência. Afinal, foram oito anos de criminalidade nas alturas no governo Paulo Hartung e a situação continua caótica.
José Rabelo: Concordo plenamente com você. Inclusive, no início dessa semana, publicamos uma matéria alertando sobre isso. Lembramos que a violência pode ser a grande adversária de Casagrande em 2014. Se ele não começar a modificar esse cenário de guerra civil logo, vai perder muitos votos. Também concordo que o jogo de 2014 não está definido. Longe disso. Talvez, nesse momento, a sensação é de que Casagrande esteja absoluto. Ele olha pra frente e não enxerga ninguém com chances de obstruir sua passagem rumo à reeleição. Pelo menos por enquanto.
Rogério: Ele realmente se saiu bem das eleições municipais. O processo eleitoral serviu para mostrar que o ex-governador Paulo Hartung não tinha esse mundo de votos que ele dizia possuir. Acho que é muito mais isso, do qu esse crédito todo que estão dando a Casagrande. A primeira eleição do pós-Hartung foi democrática e livre. Ela mostrou que Hartung não tinha o que ele dizia que tinha. Era um grande blefe. Essa eleição reduz o Paulo a condição de uma liderança política média. Ele não é mais o grande protagonista da política capixaba. Mas não foi o Casagrande que o suplantou, foi ele quem reduziu de tamanho.
José Rabelo: Isso me faz lembrar do “dilema da Tostines”. Lembra daquela propaganda de biscoitos dos anos 1980 que perguntava: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”? Ou seja, o que acontece primeiro. Será que foi Casagrande que ganhou estatura ou foi Hartung que encolheu? Estou com você. Acho que Hartung se assustou quando tomou consciência do seu real tamanho nessas eleições. Assustou-se mais ainda quando percebeu que as pessoas também passaram a enxergá-lo do tamanho que ele realmente é. No início do processo eleitoral ele ainda apostava que um bom blefe seria capaz de manter sua imagem ampliada. Não deu. A eleição municipal acabou tirando a prova dos nove com relação à estatura política do ex-governador. Parece que o “dilema Tostines” está respondido: não foi o Casagrande que cresceu, foi o Hartung que encolheu.
Rogério: O qual seria os planos de Hartung para 2014? Disputar a eleição para governador ele não vai. Duvido. Ele sabe que Casagrande já está na fila. O que ele pode querer? Se você se recordar, nesse processo eleitoral que passou, ele surgiu como o grande condutor de votos. Ele se colocava assim: todo candidato que ele tocasse a mão, se elegeria. Mas candidatos eleitos que estavam com Hartung para ganhar a eleição estão caminhando em direção ao Palácio Anchieta. É inevitável.
José Rabelo: Concordo. Ele não arriscaria disputar o governo. Não quis arriscar nem a prefeitura. Também não consigo vê-lo disputando o Senado. E você?
Rogério: Também duvido. O campo está fechado para Hartung. Ele terá que avaliar bem o cenário para ver onde ele cabe.
José Rabelo: E quem seria o adversário de Casagrande para 2014, só a violência?
Rogério: Vai depender do desempenho de Casagrande até lá. Se ele não resolver esse problema da violência, terá problemas sérios pela frente. Agora, se ele resolver, na minha opinião, ele está eleito.
José Rabelo: Mas é curiosa essa constatação. Em menos de dois anos de governo, a violência já se tornou um calo doloroso para Casagrande. A imprensa corporativa passou a dar visibilidade à violência, coisa que não acontecia no governo passado. Durante oito anos o Estado experimentou com Hartung e Rodney índices de homicídios de guerra civil. Quebrando recordes de violência em todos os segmentos: mulheres, negros, jovens… Mas, graças à parcimônia da imprensa, ninguém atribuiu a Hartung esse retrospecto negativo. Prova disso é que o ex-secretário Rodney saiu ileso da sua catastrófica gestão à frente da Segurança. O eleitor não levou esse descontentamento para as urnas porque não estava evidente. Ao contrário, ele ficou com a imagem de “Rambo” valentão e de bom gestor. Tanto é que levou a disputa à Assembleia e à prefeitura de Vila Velha. Não pesou para Rodney, mas pode pesar para Casagrande, porque agora a imprensa resolveu mostrar a realidade.
Rogério: Na hora que você tira o Paulo de uma disputa de governo ou Senado, naturalmente você tende a jogar o foco para cima de Ricardo Ferraço (PMDB). Ele tem seis anos de mandato pela frente. Na sucessão de Paulo, ele era favorito, lembra? A eleição de 2010, que por outras circunstâncias foram para Casagrande, colocavam Ricardo como abola da vez. Mas isso passou. O cenário no interior do Estado, onde o Ricardo esteve muito bem, já mudou completamente. Ele não tem mais a capilaridade que tinha quando era vice de Hartung e secretário de Agricultura. Isso já é capítulo passado. O campo hoje é difícil para Ricardo.
José Rabelo: Tem razão. É um campo um tanto inóspito. Pirou um pouco mais depois que Ferração “deserdou” politicamente seu “rebento” para ddeclarar apoio à reeleição de Renato Casagrande. Ou você acha que essa pode ser mais um estratagema da velha repousa?
Rogério: O que o Ferração não abandona é o seu filho. O Casagrande ele pode abandonar na primeira esquina. Depois desse episódio da reeleição da Assembleia ele também encolheu um bocado. Lembre-se que ele tem dois anos de mandato para construir sua reeleição. É natural que ele queira se pendurar no governador para se reeleger. Mas deixemos o Ferração de lado e voltemos ao filho. A constatação de que o governador Paulo Hartung é de médio tamanho também prejudicou a candidatura de Ricardo. Quem vai apoiar Ricardo Ferraço em 2014? Hartung? Duvido. Depois do golpe que levou nas eleições deste ano ele vai se fingir de morto.
José Rabelo: Mas tirando Ricardo, quem você vê para 2014 ou seria para 2018?
Rogério: Acho que é mais para 2018. Acho que 2014 está meio definido. O grande nome para 2018 pode ser Audifax Barcellos (PSB). Tem também o senador Magno Malta (PR). Se o Magno entrar, digo em2014 mesmo, acho que equilibra o jogo, porque ele é um líder popular. Ele sempre vai dar trabalho. Veja bem, o Paulo Hartung tentou fritar o Magno de todo jeito durante oito anos e não conseguiu. Mas eu não coloco o Magno como postulante ao governo. Acho que ele é um nome de Senado. Hoje eu ainda não o incluo na lista de candidatos à sucessão de 2014. Luciano Rezende também pode se credenciar com um nome forte. Em 2018, Luciano e Audifax podem estar reeleitos prefeitos de Vitória e Serra, na metade do segundo mandato, com vistas à disputa para o governo.
José Rabelo: Vou dizer algo tenebroso. E o Rodney Miranda, não entra na sua lista.
Rogério: Tem razão. É verdade que ele não é capixaba, foi mal na Segurança etc etc. Mas não dá para descartá-lo da lista de 2018.
José Rabelo: Ele é uma figura imprevisível. Ninguém imagina como será sua gestão à frente da prefeitura de Vila Velha. É ponto pacífico que ele terá uma bela vitrine nas mãos. Concordo com você, Rodney não pode ser riscado da lista de 2018. Claro, muita água ainda vai passar por debaixo da ponte, mas o retrospecto de Rodney – candidato mais votado à Assembleia e o fato de ele ter derrubado dois fortes candidatos (Neucimar Fraga e Max Filho) nas eleições à prefeitura de Vila Velha – o credencia.
Rogério: Que Nossa Senhora da Penha nos proteja de Rodney Miranda!