Fazendo jus ao apelido de “homem-bomba”, o presidente da Assembleia Legisativa, Theodorico Ferraço (DEM), em entrevista ao jornal A Gazeta desta quarta-feira (13), disparou sem piedade contra o governador Paulo Hartung (PMDB). As declarações efusivas de Ferraço deixam transparecer que a relação dele com o governador não é nada boa. A lista de mágoas revela que o governador não pagou a extensa conta que tinha com o deputado. Se a “entrevista-desabafo” vai funcionar como instrumento de pressão sobre o governador, não se sabe, mas o mal-estar no Palácio Anchieta está criado.
O momento da entrevista foi um dos pontos intrigantes. Em meio ao recesso parlamentar e em um período em que as lideranças políticas estão se movimentando em suas bases ou simplesmente aproveitando as férias, a fala de Ferraço pega a classe política de surpresa.
Para algumas lideranças, a entrevista seria o estopim de uma crise entre os poderes, com Ferraço cobrando a conta de compromissos assumidos e não cumpridos por Hartung no passado. Um dos mais sentidos pelo demista se refere à falta de empenho do governador em garantir a eleição de Norma Ayub (DEM) para a Câmara dos Deputados.
Para Ferraço, sua mulher teria perdido porque os votos esperados de Vila Velha não chegaram e o deputado isenta o prefeito Rodney Miranda (DEM) e contabiliza a não eleição de Norma na conta do governador. Após Norma ficar pelo caminho, o presidente da Assembleia se ressente que não houve vontade palaciana para puxar um deputado da bancada para abrir espaço para a ex-prefeita de Itapemirim, que é primeira suplente, promessa que teria sido feita a Ferraço pelo governador, mesmo que Norma ficasse na segunda suplência.
Não era segredo nos corredores do legislativo que a movimentação no início do ano de 2015, que culminou com a terceira recondução de Ferraço à presidência da Assembleia, não refletia o cenário dos sonhos de Hartung. O governador trabalhava para fazer seu aliado de primeira linha, Guerino Zanon (PMDB), presidente da Casa. Mas uma movimentação no plenário garantiu a reeleição de Ferraço.
Se para uma parte do mercado político a entrevista anuncia um rompimento definitivo do presidente da Assembleia com o governador, pondo fim a uma harmonia entre os Poderes, para outra a coisa não é bem assim. A abordagem dura, com ameaças explícitas, pode ser apenas uma forma de Ferraço chamar a atenção do governador para mostrar que ainda está no jogo e quer jogar.
Ferraço é uma liderança que está no chamado viés de baixa. Tem certo favoritismo na eleição de Cachoeiro de Itapemirim, mas assumir uma prefeitura grande e endividada pode não o atrai. O interesse maior do deputado seria a eleição da mulher, Norma Ayub, em Itapemirim. Mas por lá, não há garantias de eleição tranquila para ela no enfrentamento ao prefeito Luciano Paiva (PSB). Ferraço estaria buscando a articulação necessária para limpar o campo e abrir caminho para Norma, mas isso agora, em parte, está nas mãos do Tribunal de Justiça, que vai decidir o futuro do atual prefeito.
Outra conta que Ferraço estaria colocando sobre a mesa se refere ao seu próprio futuro político. O Regimento da Assembleia não permite uma nova reeleição para Ferraço, que tem mandato até o final de 2016 à frente da Mesa Diretora. O governador estaria trabalhando com a possibilidade de emplacar o nome de Rodrigo Coelho (de saída do PT) na sucessão de Ferraço. Essas conversas acontecem à revelia de Ferraço, o que tem irritado o atual presidente.
Só para reforçar a complexidade desse cenário, quando era secretário de Assistência Social, Coelho retardou seu retorno à Assembleia para não ter de participar da eleição que deu o segundo mandato de presidente a Ferraço, em 2013.
Nos corredores da Assembleia já se fala em uma nova mexida no regimento que permitiria a eleição para Ferraço. Mas se o governo do Estado ingerir no processo, o demista corre o risco de sair derrotado na manobra. Embora tente mostrar controle da Casa e destaque a submissão da Assembleia ao Executivo, o presidente tem hoje problemas para controlar o Plenário, tarefa que é feita por telefone do Palácio Anchieta.
De qualquer forma, a entrevista de Ferraço movimenta o cenário político do Estado e cria um desconforto para o governador, que é convidado a um debate político de uma forma muito diferente da que está acostumado, sem pego de surpresa pela imprensa.
Ferraço estica a corda e pressiona o governador, usando para isso o prestígio que teria na Assembleia. O que intriga a classe política é se Ferraço tem mesmo condições de fazer o enfrentamento ou se, como bom jogador que é, estaria apenas blefando.

