Um dos pontos que mais chamou atenção na entrevista coletiva concedida pelo governador em exercício César Colnago (PSDB), o governador licenciado, Paulo Hartung (PMDB), e o secretário de Segurança, André Garcia, na manhã desta quarta-feira (8), foi a politização da crise na segurança pública.
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O governo jogou a culpa pelo impasse nas negociações com familiares dos policiais militares em “atores políticos” . Os familiares dos militares fazem manifestação em frente aos batalhões desde a madrugada de sábado (4), impedindo a saída das viaturas. Hartung, Colnago e Garcia afinaram o discursos sobre a ingerência da Assembleia. Eles afirmaram que “pessoas estranhas” ao processo intervieram atrapalhando o desfecho das tratativas que estavam sendo conduzidas pelo Executivo, na figura do comandante da PM, coronel Nylton Rodrigues. Colnago chegou a dizer que “o processo foi sabotado por atores políticos”.
Nenhum deles deu nome aos tais atores, mas ficou subentendido nos meios políticos que o governo se referia à participação da senadora Rose de Freitas (PMDB) em duas reuniões na Assembleia Legislativa, que aconteceram durante a tarde e noite dessa terça-feira (7).
A crítica velada se referia especificamente a um encontro entre a peemedebista e o deputado estadual Josias Da Vitória (PDT), que não é membro da Mesa Diretora, mas vem defendendo os militares e chegou a discursar na sessão dessa segunda-feira (6) na Assembleia sobre a insustentabilidade de André Garcia no cargo. A reunião entre os dois antecedeu ao encontro ampliado, que levou 30 mulheres de policiais à Assembleia Legislativa e contou com a participação de 22 deputados estaduais.
“O método adotado por algumas lideranças é o método que dá vergonha, é o método da chantagem. É como sequestrar o direito do nosso povo e cobrar resgate. A ética não permite pagar”, disse o governador licenciado Paulo Hartung.
Nos bastidores das movimentações dessa terça-feira, o comentário é de que Da vitória foi quem atraiu a senadora Rose de Freitas para a reunião com as mulheres e as entidades de classe ligadas aos militares. Da Vitória levou a pauta ao presidente da Assembleia Erick Musso (PMDB) que fez a reunião ampliada. Musso havia participado de um encontro com os demais poderes pela manhã, quando propôs ações independentes dos poderes na busca de soluções para a crise.
Da Vitória, inclusive, publicou uma nota sobre a polêmica em torno da reunião. Sob o título, “Realidade sobre a reunião desta terça-feira na Assembleia Legislativa”, o deputado que desde sábado vinha buscando diálogo com o governo para que as mulheres dos policiais e os presidentes de classe fossem recebidos. “Na terça-feira, 20 deputados se reuniram com a senadora Rose de Freitas, com os presidentes de classe, aproximadamente 50 esposas de militares, com a imprensa, OAB-ES e, somente não houve representação do governo, pois não quiseram, já que foram convidados”, esclarece Da Vitória.
Por outro lado, a senadora é desafeta do governador Paulo Hartung há anos, e como na reunião da Assembleia os representantes da categoria falaram em recomposição salarial, um tema que não está em discussão no governo, a presença da senadora seria um subterfúgio para que o governo pudesse politizar a discussão e paralisar o processo de negociação com a categoria.
Ao fim da reunião ampliada muitos deputados acreditavam no fim do impasse, já que a categoria aceitava tirar muitos pontos da pauta original de negociação em troca de um encontro nesta quarta-feira, mas os contatos do presidente da Assembleia com o representante do governo não avançaram, porque o Palácio Anchieta se manteve irredutível na realização de um encontro na sexta-feira (10), tampouco o governador Colnago bancou o acordo preliminar firmado em ata entre o Comando da PM e o movimento que previa a anistia aos policiais que estariam incitando a greve.
Como durante a coletiva os representantes do governo não deram nomes aos bois, muitos deputados ficaram irritados com as declarações, já que para a opinião pública em geral ficou a impressão de que houve um atropelo por parte da Assembleia. Até porque dois terços da Casa participaram do encontro.

