Está circulando, ou melhor, viralizando nas redes sociais uma foto do governador Paulo Hartung (PMDB) em frente a uma loja de roupas infantis, a Petit Bateau, em Paris, na França. O governador parece ter percebido o flagrante do clique. Isso talvez explique a cara de poucos amigos. A foto, em si, não teria desdobramentos além de um registro de viagem frugal, que caberia bem numa coluna social. Mas os antecedentes que marcaram o afastamento do governador levam o flagrante para a editoria de política.

É preciso esclarecer que Hartung não se licenciou para fazer nenhum procedimento médico. Ele se afastou das atividades profissionais, oficialmente, por recomendação médica para, posteriormente, dar seguimento ao tratamento de imunoterapia (tratamento do câncer que promove a estimulação do sistema imunológico, por meio do uso de substâncias modificadoras da resposta biológica). No caso de Hartung, que extirpou um tumor da bexiga, o tratamento está previsto por seis semanas. A licença, no caso, seria para repouso.
“Passo o Governo para César por um período curto, que por orientação médica, será importante para mim. Vou me preparar para um tratamento de imunoterapia e, neste período, vou descansar para chegar bem e dar continuidade a este tratamento que tem dado tudo certo”, disse o governador na ocasião da transferência do cargo para o vice.
Hartung se afastou na última terça-feira (16) e deve retornar ao cargo nesta quarta-feira (24). Como se trata de uma licença de oito dias, o governador não precisou de aprovação da Assembleia para realizar a viagem internacional. O problema é que não ficou muito claro no momento da licença, que Hartung faria o procedimento depois do retorno. E como a viagem aconteceu sem um aviso, a confusão ajudou a aumentar o clima negativo sobre o afastamento do governador.
Logo que o governador se afastou, vazou a informação de que ele havia viajado para Paris com a primeira-dama, Cristina Soares. A partir dessa informação, nem negada ou confirmada pela Assessoria de Comunicação do governo, ficou a sensação de que Hartung estava querendo omitir que viajara a Paris.
Além disso, menos de 24 horas após Hartung se licenciar, César Colnago (PSDB) assumiu uma missão política polêmica de última hora: fazer a prestação de contas do governo na Assembleia. A prestação de contas, como temia Hartung, evoluiu para um áspero embate entre o governador em exercício César Colnago e o deputado Sérgio Majeski, ambos do PSDB. Criou a impressão no mercado político de que Hartung queria evitar o embate iminente com Majeski, num momento de fragilidade política do peemedebista.
Para se ter uma ideia que a “escalação” de Colnago foi de última hora, o governador fez a transferência do cargo ao meio-dia da terça-feira (16) e o ofício de que Colnago iria prestar contas foi comunicado numa mesmo dia à Assembleia, durante a sessão.
Nessa segunda-feira (22), o deputado Sérgio Majeski pontuou o problema incutido nessa movimentação. Isso porque, destacou Majeski, se era o caso de Colnago prestar contas, o Palácio poderia ter cumprindo a Constituição, com a prestação sendo feita antes do prazo final, 30 de abril. Mas Hartung enviou ainda em março um comunicado à Casa, informando seu problema de saúde e pedindo o adiamento da prestação de contas anual.
Outro fator que traz prejuízo ao governo com sua viagem de descanso é a efervescência política no País, que tem aumentado a desconfiança do eleitorado aos gestores em geral. Hartung, denunciado pela delação do ex-executivo da Odebrecht, faz uma viagem em meio a uma crise política, o que pode contribuir ainda mais para a rejeição da população. O governador que vinha ensaiando um retorno às ruas, depois das crises sucessivas, pode ter complicado esse projeto com a divulgação da polêmica foto.

