Astuto, Hartung tentou se emplacar como um grande líder, no momento em que o País sofre de carência de novos líderes. Para tanto, o governador tratou de associar a crise ao seu antecessor, elegendo o cenário de “terra arrasada” como o solo fértil para sua atuação na tentativa de superar as dificuldades financeiras. Para tanto, ele repetiu quatro pontos que herdou: gastos com pessoal, repasses para outros Poderes, dívidas herdadas (empenhos) e o resultado fiscal do Estado. Se antes esses pontos eram a “herança maldita”, eles se tornaram o fundo do poço do qual o peemedebista teria retirado o Estado.
Sobre os gastos com pessoal, Hartung citou que a folha de pagamento era de R$ 260 milhões em 2010, quando deixou o Palácio Anchieta, passando para R$ 430 milhões no seu retorno em 2015. O mesmo período serviu de paradigma na comparação dos repasses para o Tribunal de Justiça, Ministério Público, Assembleia Legislativa e Tribunal de Contas: de R$ 85 milhões saltou para R$ 145 milhões mensais. Neste último caso, o ex-governador deu seguimento à política de Hartung de inflar o orçamento dos outros Poderes, sobretudo os ligados à Justiça – fato ignorado solenemente na fala do atual governador.
O corte usado por Hartung – diretamente entre 2010 para 2015 – deixa a clara intenção de renegar a gestão Casagrande a uma espécie de “vácuo de poder”, reduzindo a participação do socialista na história política capixaba. Além disso, o governador busca se descolar de seu antecessor, que foi eleito no palanque que garantiria a política de continuidade. Tanto que a maior parte do secretariado de Casagrande foi indicada pelo antecessor. Da mesma forma que o “desembarque” da gestão socialista se deu apenas nos meses anteriores a eleição de 2014. Tudo isso devidamente ignorado pelo peemedebista.
Mesmo buscando olhar menos para o retrovisor, Hartung não se esqueceu de atacar diretamente o governo Casagrande ao citar a questão dos empenhos. Segundo ele, a suposta dívida deixada de R$ 307 milhões seria um “ato criminoso”. Muito embora, a polêmica não tenha sido devidamente esclarecida, já que uma parte dos empenhos foi cancelada pelo próprio Hartung nos primeiros dias após tomar posse em janeiro do ano passado.
Outro ponto destacado foi a situação fiscal, em que citou o déficit acumulado nos dois últimos anos da administração passada e a “mudança” no primeiro ano de seu terceiro mandato. Quando o Estado passou a ter um pequeno superávit, mesmo que à custa de uma redução de 72% nos investimentos.
Em toda prestação de contas, Hartung mostrou que não tem mais receio de expor sua visão neoliberal do Estado, defendendo o mínimo de participação do poder público na gestão de importantes áreas e serviços, como o saneamento básico, distribuição de gás e manutenção de estradas. Na semana passada, o governador já havia se posicionado a favor da privatização desses serviços em entrevista à revista Época.
Desta vez, ele usou a tribuna da Assembleia para afirmar o mesmo, não sendo alvo de qualquer contestação por parte dos deputados. Pelo contrário, Hartung defendeu a “quebra de tabu” para tratar o assunto e confirmou o desejo de repassar a gestão da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) para um “operador privado” – leia-se neste caso, a iniciativa privada.
Hartung defendeu ainda que não se pode tumultuar o “ambiente de negócios” ao agradecer os deputados pela aprovação das leis que regularizaram os incentivos fiscais do Estado, que eram concedidos desde a primeira Era Hartung à revelia da legislação. Ele repetiu clichês sobre a importância do empresariado. “O Estado não pode achar que gera PIB [Produto Interno Bruto]”, afirmou, repetindo por diversas vezes as empresas que vieram se instalar no Espírito Santo e a necessidade de não se atrapalhar o desenvolvimento das atuais plantas industriais – mesmo àquelas que mantêm atividades com grande impacto ambiental.
Na parte das perguntas dos deputados, além dos muitos elogios, alguns deputados tentaram conciliar a pressão de suas bases sem criar constrangimento ao governador. Com exceção de Sérgio Majeski (PSDB), os deputados rasgavam elogios ao governador, registrando em seguida suas demandas. Foram os casos, por exemplo, de Padre Honório (PT), abordando a educação no campo; Almir Vieira (PRP), defendendo o retorno das atividades da mineradora Samarco; Marcelo Santos (PMDB), levantando demandas de Cariacica onde é pré-candidato; e Dary Pagung (PRP), que citou rapidamente as obras paradas de rodovia em Baixo Guandu, só para citar alguns.
O único questionamento de fato ao governador partiu de Majeski, que levantou a situação das escolas estaduais com perguntas sobre o fechamento de turmas e o desenvolvimento plano estadual para área. Hartung preferiu evitar o embate, mas deu algumas estocadas no deputado, que é seu principal critico na Casa. “Governo bom é o que sabe de suas limitações. Não dá para manter uma escola para oito alunos ou ter um professor para quatro alunos. Fechar uma escola não é nada absurdo”, alfinetou, completando que em sua idade não precisa fazer mais nada para agradar aos outros.
Essa falta de necessidade de agradar à população parecer ser a principal marca desse “novo início”, slogan que batizou seu terceiro mandado. Ele fez referência ao termo em vários trechos do seu discurso de pouco mais de uma hora. Ele ressaltou que o Estado está trabalhando em jornada tripla: ajuste fiscal, inovação das políticas públicas e ativismo nacional. “Fazer o ajuste fiscal com a mão e preparar o Estado para o futuro com a outra mão. Os ajustes não vão paralisar o nosso governo. Estamos consertando e calibrando o avião em pleno voo”, afirmou, dando mais uma vez ar de excepcionalidade ao seu feito.