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Novo partido do MBL inicia articulações no Espírito Santo

O delegado Romualdo Gianordoli é uma das figuras que está no radar do Missão

Kamyla Passos/Ales

Em novembro passado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou a criação do partido Missão, uma iniciativa do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo conhecido nacionalmente por defender pautas de extrema direita. No Espírito Santo, ainda não há um diretório registrado oficialmente, mas militantes locais do MBL já fazem articulações junto à sigla.

Nesse domingo (11), a assistente social Samira do MBL, uma das porta-vozes do grupo no Estado, postou uma resposta ao vereador bolsonarista da Serra Pastor Dinho Souza (PL), que, quando questionado sobre quando se filiaria ao Missão, disse que era “conservador” e “de direita”, e o Missão era de “centro”.

Samira, então, colocou trechos de vídeos em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) dizia que era do “centrão”, e ainda criticou Pastor Dinho Souza por um projeto de lei que institui o Dia Municipal dos Legendários e por gastos com diárias. “Mais uma fã”, comentou o vereador na postagem, junto a um emoji de gargalhada.

Durante um evento na Câmara de Vereadores de Vila Velha em dezembro, o engenheiro civil Breno Barcelos, outro porta-voz do Missão e do MBL no Espírito Santo, afirmou que “é difícil ser de um movimento de direita no Brasil, onde a máquina pública ‘tá’ toda tomada pela esquerda”. Ele fez também um apelo pela “união” da direita – entre os presentes estavam o deputado estadual Callegari (DC) e o vereador de Vitória Leonardo Monjardim (Novo), ambos pré-candidatos a senador.

Breno afirmou ainda que o partido vai fazer um investimento especial no tema da segurança pública em 2025. “E ‘pra’ galera da esquerda e para aquela galera que tem práticas ruins na política, eu só deixo aqui o meu aviso: tomem cuidado, que às vezes, quando a gente ouve o esturro da onça, ela já ‘tá’ no nosso pescoço”, discursou, fazendo referência ao animal escolhido como símbolo do Missão.

Dentro dessa temática da segurança pública, uma das figuras que parece dialogar com o Missão é o delegado da Polícia Civil Romualdo Gianordoli Neto, que deu uma palestra sobre crime organizado em evento do MBL do Espírito Santo em dezembro. Romualdo foi exonerado naquele mesmo mês do cargo de subsecretário de Inteligência na Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), mas resolveu “cair atirando”.

Em vídeos publicados em suas redes sociais na semanada passada, Gianordoli atribuiu sua exoneração aos desdobramentos da Operação Baest, que ele liderou em maio de 2025 e que resultou na prisão do traficante Fernando Moraes Pereira Pimenta, o “Marujo”. O delegado defendeu, sem apresentar provas, que a identificação de um empresário da Serra ligado ao “alto escalão” da sociedade capixaba no esquema criminoso fez com que o “sistema” reagisse para abafar o caso.

A publicação foi feita em colaboração com perfis de grupos conservadores do Espírito Santo, aumentando os rumores de que o ex-subsecretário estadual poderá rumar para a política em breve, talvez encampando uma candidatura já em 2026.

Nem Lula nem Bolsonaro

O partido Missão se coloca como oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas também quer manter distância do bolsonarismo, que atualmente enfrenta um processo de desidratação política. Em uma postagem no último dia 6 de dezembro, o Missão afirmou que seguiria um “caminho diferente” do que foi traçado pelo vereador de Vila Velha Patrick da Guarda (PL), que concedeu homenagem a membros do MBL na Câmara. Isso porque o vereador sinalizou apoio à pré-candidatura a presidente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)

Mesmo assim, figuras como o presidente nacional do Missão, o empresário Renan Santos, defendem iniciativas higienistas e de aumento da repressão policial típicas da extrema direita, incluindo um “plano nacional de ‘desfavelização’ e reconstrução das periferias” – conforme destacado em manifestação do MBL no Espírito Santo em outubro passado.

A vereadora paulista Amanda Vettorazzo (União), uma das principais lideranças nacionais do MBL, é a autora do primeiro projeto de “Lei Anti-Oruam”, destinada a proibir repasse de dinheiro público para artistas e eventos culturais que façam “apologia ao crime”. Ela esteve na Câmara de Vitória em maio de 2025.

Na ocasião, chegou a ser anunciado que o prefeito da Capital, Lorenzo Pazolini (Republicanos), pré-candidato a governador sancionaria a “Lei Anti-Oruam” aprovada pelos vereadores da Casa. Entretanto, Pazolini não apareceu, alegando “conflito de agenda”. A Câmara acabou promulgando a lei em junho, após o chefe do Executivo deixar o prazo de sanção se esgotar.

Coleta de assinaturas

Desde que ganhou notoriedade em 2014, a partir dos protestos a favor do impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), lideranças do MBL como Kim Kataguiri e Arthur do Val, o Mamãe Falei, se candidataram por diferentes partidos de direita. Em 2024, o grupo deu início ao processo de coleta de assinaturas para a criação de um partido próprio, o Missão.

Entretanto, naquele mesmo ano, começaram a surgir denúncias de que eleitores teriam assinado a ficha de criação do partido sem saber do que se tratava. Em junho de 2025, a Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro determinou a impugnação das assinaturas de 16 eleitores que pediram a exclusão de seus nomes das fichas de apoio. No caso de outros de 20 eleitores, não houve êxito na notificação dos eleitores para conferência. A juíza Carolina Gantois Cardoso também determinou a remessa dos autos para a Polícia Federal (PF) para futuras investigações.

As impugnações atenderam a um pedido da Promotoria Eleitoral do município de Três Rios, após ter sido procurada por eleitores que disseram desconhecer o apoiamento dado à criação do partido. A defesa do Missão afirmou no processo que contratou “terceiros” para a coleta das assinaturas, e que, mesmo não tendo verificado irregularidades a partir de apuração interna, afastou coletores responsáveis pelas assinaturas contestadas.

“É importante frisar que, caso realmente sejam constatadas as supostas fraudes nos apoiamentos, a principal vítima, além dos próprios eleitores, é o Partido Missão, que mesmo reforçando a todo momento a importância da idoneidade do processo de coleta das assinaturas e a representatividade de cada apoiamento e das consequências de possíveis desvios de conduta na operação dos coletores, ainda fica suscetível à má conduta de coletores”, manifestou-se o partido no processo.

Apesar dessas controvérsias, os ministros do TSE aprovaram a criação do Missão por unanimidade, em novembro. O MBL coletou quase 600 mil assinaturas favoráveis, sendo que o número mínimo era de 507.042.

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