O anúncio de que o governo federal desistiu da venda da Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) desagradou os empresários capixabas que operam no Porto de Vitória. A notícia também aumentou o ruído na relação entre o governador Paulo Hartung e a senadora Rose de Freitas. A disputa política incutida na decisão foi bem definida porque as duas lideranças marcaram suas posições sobre o embate contra a privatização, mas com muitas trocas de farpas.
Em abril, o governo federal anunciou que iniciaria os estudos para privatizar o porto de Vitória. Em agosto, a decisão ganhou força. Mas os estudos mostraram que seria inviável vender o porto neste momento. A Codesa tem vários passivos, como problemas em contratos, na questão Previdenciária, além de defasagem tarifária. Esses problemas fariam com que a companhia, se privatizada, fosse vendida a “preço de banana”, o que estaria atiçando investidores de ocasião.
Do ponto de vista político, a situação desencadeou uma disputa de bastidores e trocas de acusações entre os grupos do governador e da senadora. No dia 2 de outubro, em uma solenidade da Codesa, no Cais Comercial de Vitória, para anúncio da conclusão das obras de dragagem e derrocagem do Porto de Vitória, a senadora marcou sua posição contrária à privatização. Ela garantiu que brigaria contra isso no campo nacional, mesmo que precisasse chegar ao presidente Temer.
Na ocasião, a senadora teria pedido a um assessor do deputado federal Lelo Coimbra, que avisasse ao peemedebista que o porto não seria privatizado, dando a entender que o parlamentar seria favorável à privatização. Lelo reagiu, afirmando que não havia essa possibilidade. Ao criticar Lelo, o movimento político da senadora também estaria mandando a indireta para o governador Paulo Hartung, que também reagiu à insinuação.
No dia 11 de outubro último, Hartung convidou lideranças dos trabalhadores portuários do Estado para conversar sobre a possível privatização. Na ocasião, o governador se comprometeu a buscar mais informações sobre o processo. Ele confirmou o foco do governo do Estado no porto de Barra do Riacho, em Aracruz. E que não havia conversa da parte dele em privatizar o Porto de Vitória.
Mas o grupo do governador não ficou apenas na defensiva. Ventilou-se que os interesses de Rose de Freitas na não privatização da Codesa estariam ligados aos cargos que ela detinha na Companhia, mas isso ficou restrito aos bastidores. As trocas de farpas ficaram mais efetivas entre a senadora e o deputado federal.
Com a decisão do governo federal, os dois acabaram ganhando pontos com os funcionários da Companhia, mas o ruído agora é o com o setor empresarial, que deve cobrar mais do governador, com quem tem relação mais estreita. Quanto às duas lideranças, as brigas políticas devem continuar dentro e fora do PMDB.

