A cada nova manobra do governo do Estado, o projeto Escola Viva fica mais desacreditado. Nessa quarta-feira (22) reportagem de Século Diário informou que a Secretaria de Educação estava enfrentando dificuldade para preencher as 480 vagas abertas na unidade piloto do projeto, que promete iniciar as aulas na próxima segunda-feira (27), no Centro Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral São Pedro, Vitória.
A reportagem revelou que a lista de inscritos no Escola Viva poderia ter sido forjada. Dois alunos constataram que seus nomes estavam na lista, apesar de eles não terem feito a inscrição. Os estudantes contaram que havia outros casos de “inscrições compulsórias” feitas pela Sedu.
Nesta quinta-feira (23), dois dias após o encerramento oficial da inscrições, o secretário de Educação, Haroldo Rocha, finalmente, decidiu se pronunciar para tentar diminuir a polêmica em torno da estratégia malsucedida da Sedu para atrair alunos para o projeto.
Ao jornal A Gazeta, o secretário afirmou que 434 alunos se inscreveram para o projeto. Isso significa que 46 vagas ficaram ociosas. Segundo a Sedu, dos inscritos, 53% são alunos de Vitória, 25% de Cariacica, 9% de Serra e Vila Velha e 13% de outros municípios. Alguns bem distantes da Capital: como Cachoeiro de Itapemirim, Conceição da Barra e Colatina.
As denúncias dos alunos inscritos à revelia pela Sedu põem em suspeição a lista, que pode ter sido forjada. A estratégia da Sedu, com base nas inscrições supostamente “forçadas”, era lançar na lista de inscritos nomes de alunos de escolas bem avaliadas de Vitória e depois tentar convencer os pais a efetivar a matrícula. Essas manobras dão margem para deduzir que o número de alunos efetivamente inscritos pode ser ainda menor que o divulgado pela Sedu.
Sem contar que os alunos se inscreveram para uma das vagas, no geral. Não se sabe quantos alunos estão inscritos para cada uma das turmas, já que o governo dividiu as 480 vagas em três turmas iguais de 160 alunos cada: primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio. Quando as matrículas forem confirmadas, a Sedu será obrigada a divulgar quantos alunos efetivamente estão em cada uma das turmas, o que dará a real dimensão da ocupação e ociosidade das vagas. Pode haver, por exemplo, um número muito maior de inscritos para o primeiro ano e bem menor para o terceiro ou o inverso.
O balanço da Sedu deixa muitas dúvidas no ar. Será que os 13% dos inscritos de outros municípios – alguns distantes mais de 300 km da Capital – vão se mudar para Vitória no domingo para o início das aulas na segunda-feira (27)? Mesmo os alunos dos municípios da Grande Vitória, que representam outros 34% inscritos, terão disposição para se deslocar todos os dias para São Pedro? O aluno que mora em Serra-sede, por exemplo, teria que se deslocar por 32 km. É difícil calcular quanto tempo duraria essa viagem de ônibus. Mas o Google Mapas dá a seguinte informação: “Não foi possível calcular as rotas de transporte público da Rua Maestro Antônio Cícero – Serra, até Rodovia Serafim Derenzi, Vitória”. Lembrando que as aulas se iniciam às 7h30 e terminam às 17h.
É inevitável considerar que alguns dos inscritos dos municípios do interior e mesmo da Grande Vitória não confirmem a matrícula ou simplesmente desistam semanas ou meses depois em função da distância. Nove horas e meia na escola e mais duas ou três dentro do ônibus, é viável?
Plano B
Mas o secretário Haroldo Rocha já anunciou um “Plano B” para resolver o problema da falta de alunos. “Decidimos abrir para os demais alunos, pois muitos pais me procuraram com esse questionamento. Queremos que mais pessoas tenham essa oportunidade”, disse à reportagem de A Gazeta.
Quando o secretário diz “demais alunos”, ele está se referindo aos estudantes da rede particular de ensino, que podem, a partir de agora, se inscrever no projeto. Essa decisão desconstrói toda a concepção do Escola Viva como um projeto de inclusão social para os segmentos mais vulneráveis da população. O governador Paulo Hartung (PMDB) e o próprio secretário sempre afirmaram que o Escola Viva era um projeto que iria dar oportunidade, sobretudo, aos jovens mais necessitados. Por isso eles teriam decidido começar o piloto em São Pedro, considerado um bairro carente.
Abrir as vagas para os alunos das escolas privadas é mais uma medida desesperada do governo que se somam às outras manobras adotadas pelo caminho para impor um projeto que sequer foi planamente discutido com a comunidade escolar.
Antes de tomar novas medidas equivocadas, o governo deveria aceitar que há algo errado com o projeto. As equipes de Hartung e os “notáveis” da ONG Espírito Santo em Ação deveriam se perguntar por que um projeto “revolucionário” como o Escola Viva, como eles propagam aos quatro cantos, não despertou interesse nos pais, alunos e professores.