Quem esteve na Câmara da Serra para acompanhar a sessão de posse dos vereadores neste domingo (1) percebia o clima de Fla X Flu logo na chegada. Era possível notar a presença das ???organizadas??? do prefeito reeleito Audifax Barcelos (Rede) e do ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT), derrotado pelo rival no segundo turno das eleições de outubro último. Uma disputa apertada, decidida voto a voto (112.344 X 107.050).
Quem imaginava que a rivalidade entre Audifax e Vidigal se encerraria na disputa eleitoral de outubro passado, se enganou redondamente. Os palanques seguem armados e não há sinal de trégua no horizonte entre os dois grupos que se revezam há duas décadas no comando do município.

Apesar do forte calor, da superlotação do plenário da Casa e da diminuta galeria que deixou muita gente do lado de fora, a sessão corria, na medida do possível, dentro da normalidade. Cada um dos 23 vereadores foi chamado pelos dois colegas que conduziam a sessão, Adriano Galinhão (PTC) e Alexandre Xambinho (Rede), para o juramento de posse.
Encerrada a fase protocolar, Xambinho anunciou o tema seguinte da primeira sessão do ano: a definição da nova Mesa Diretora. Foi nesse instante que o clima de tensão entre os vereadores tomou conta do plenário.
Xambinho perguntou à vereadora Neidia Pimentel (PSD) se ela seguiria como primeira secretária na Chapa 1 ou presidente na Chapa 2. Antes que Neidia respondesse, a reação dos vereadores de oposição foi imediata. No plenário e na galeria ???as organizadas??? que apoiam os vereadores ligados a Vidigal soltaram o coro uníssono: ???Traidora???.
Mas não parou por aí. Um rapaz que acompanhava a posse nas ???organizadas??? de Vidigal, que seria filho do vereador Nacib (PDT), não se conteve com o ato de traição de Neidia e partiu para cima dos dois vereadores que conduziam a sessão. Ele lançou sobre ambos a primeira coisa que encontrou pela frente: o livro de posse.
A confusão estava formada. O rapaz foi rapidamente retirado do plenário e os ânimos se exaltaram de vez de ambos os lados, com provocações e xingamentos. Xambinho suspendeu a sessão por 10 minutos. O recesso de 10 virou 20 minutos, meia-hora, uma hora???Não havia clima para prosseguir.
Pegos de surpresa com a decisão de Neidia, os 12 vereadores de oposição se trancaram numa sala para definir a estratégia a ser tomada ante a virada de mesa. No plenário, o clima seguia quente, em todos os sentidos. A Polícia Militar foi acionada para garantir a ordem. Mas parecia meio perdida. Sem saber exatamente o que fazer para conter os ânimos dos mais descompensados.
Vermelho de calor e nervosismo, o experiente vereador Luiz Carlos Moreira (PMDB) acelerava os passos nos corredores da Casa de uma lado para outro em busca de uma saída conciliatória para o impasse. Moreira se esforçava para criar uma chapa de consenso. Mas o tempo foi passando e os vereadores não chegaram a um acordo. Era preciso retomar a sessão.
A oposição, que representava a Chapa 1, encabeçada por Basílio da Saúde (Pros), Wellington Alemão (DEM), Pastor Ailton (PSC) e Neidia, que aparecia como primeira secretária, queria a impugnação da Chapa 2. Eles não se conformavam com o fato de Neidia ter se inscrito em duas chapas.
Os vereadores de oposição se disseram traídos porque não sabiam que Neidia havia negociado também com a base de apoio do prefeito Audifax, que gostaria de ter Guto Lorenzoni (PP) à frente da Câmara .
Os vereadores de oposição diziam que a vereadora ???se vendeu??? em troca de encabeçar a Chapa 2, formada, além de Neidia na presidência, por Rodrigo Caldeira (Rede), Roberto Catirica (PHS), Robinho Gari (PV) e Adriano Galinhão (PTC).
Quando a sessão foi retomada a tensão aumentou ainda mais no plenário Os vereadores estavam todos fora de seus lugares. Xambinho e Galinhão conduziam a sessão aos gritos. Uma balbúrdia. Valia tudo. Ninguém respeitava ninguém. Nas galerias e no plenário as pessoas se comportavam como torcidas organizadas num estádio de futebol entre dois times rivais. Estavam ensandecidas. Não demorou para duas mulheres trocarem socos e empurrões. A polícia foi novamente acionado. Xambinho pedia a presença da polícia para apartava as brigas ao mesmo tempo que conduzia, de maneira atabalhoada, a votação. Mal dava para entender a manifestação de voto de cada vereador. Xambinho e Galinhão só queriam finalizar a sessão e sagrar a Chapa 2 vencedora.
Em meio a toda essa confusão, que lembrava mais um hospício, a sessão continuou a trancos e barrancos. Uma votação sôfrega, com trocas de insultos e xingamentos entre os vereadores, Xambinho decretou eleita a Chapa 2, formada por Neidia na presidência. Nacib, que queria a impugnação da Chapa 2, saiu do plenário esbravejando que a sessão não tinha validade. ???Isso não vai ficar assim???, ameaçou.
Depois que os vereadores de oposição e a respectiva ???organizada??? se retirou do plenário, a sessão teve prosseguimento um pouco mais tranquila. Mas havia uma urgência de todos os presentes em encerrar a sessão o mais rápido possível.
Muito constrangida, Neidia foi anunciada presidente da Câmara para o biênio 2017 a 2018 aos gritos de apoio da ???organizada??? do prefeito. Mas não havia clima para pronunciamento. Logo em seguida, Audifax Barcelos (Rede) e a vice Márcia Lamas (PSB) foram chamadas para fazer o juramento.
Já se passavam das 19h quando Audifax fez seu juramento, ou seja, duas horas e meia após o início da sessão. Ele não falou nem por um minuto, temendo que um novo tumulto tivesse início. Fez gestos que formavam coração para os presentes e agradeceu a militância. O prefeito convidou os presentes para participar de um ato no lado externo da Câmara, onde os membros de uma bandinha marcial soltavam, já desacorçoados com o atraso da ???festa???, a melodia de ???Cidade Maravilhosa??? para saudar o prefeito que estava prestes a deixar o Legislativo municipal. Aliás, a marchinha composta originalmente em homenagem à cidade do Rio de Janeiro, que também não anda lá essas maravilhas, parecia estar distante de retratar o atual clima na Serra. Pelo menos ???os encantos mil??? estão longe da Câmara serrana.
Assista aos vídeos com alguns dos “melhores momentos”

