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Sábado, 24 Outubro 2020

"Tanto Audifax quanto Vidigal são o mesmo projeto, não há uma mudança"

"Tanto Audifax quanto Vidigal são o mesmo projeto, não há uma mudança"

Renata Oliveira e Rogério Medeiros

 
“Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem” Bertold Brecht
 
   Fotos: Apoena

Tentando vencer uma dura e acirrada divisão política na Serra entre os candidatos Sérgio Vidigal (PDT) e Audifax Barcelos (PSB), o candidato do Psol vai sozinho e sem dinheiro de grandes empresas para uma disputa duríssima. A seu favor, tem a bandeira ideológica e o conhecimento de quem vive há 37 anos no município. Assistente social da prefeitura, ele defende que, apesar dos desentendimentos entre Vidigal e Audifax, ambos representam o mesmo projeto político que vige há 16 anos no município. Com pouco tempo no programa de rádio e com uma campanha orçada em até R$ 250 mil, ele quer ir de casa em casa para defender a ideia de que é a mudança.
 
 
O candidato é otimista. Com 25 mil votos obtidos na eleição ao Senado em 2010, quer levar a disputa para o segundo turno e aponta os problemas da gestão Vidigal e da atuação de Audifax. Confira a entrevista.
 
Século Diário – O município da Serra tem há 16 anos uma predominância do grupo do prefeito Sérgio Vidigal (PDT), com uma interrupção de quatro anos, na gestão de Audifax Barcelos (PSB), mas que na época defendia o mesmo projeto. Agora há uma disputa acirrada entre os dois e o senhor se apresenta como uma novidade no pleito. Como analisa esse cenário eleitoral?
 
Professor Renato – Na verdade, Vidigal entrou em 1996. Em 1997, Audifax foi convidado a participar do governo. Então, Audifax foi parte do governo Vidigal tanto no primeiro como no segundo mandato e, como não poderia haver um terceiro mandato do Vidigal, ele elegeu Audifax. Quando a gente conversa com a população, tenta mostrar isso. Na verdade é um projeto que está lá há 16 anos. Vidigal e Audifax estavam juntos e houve um racha por questões deles, e não uma questão mais de fundo. Então, quando eles vêm para a rua e dizem “nós somos a mudança”, não concordamos e mostramos para a população que isso não existe. Como eles estiveram 16 anos no governo e querem pedir mais quatro anos para trabalhar? A população não aguenta mais o mesmo projeto por tanto tempo. Nos últimos quatro anos, um desentendimento entre eles foi levado para o âmbito pessoal e isso não constrói o município. Para construir o município, você precisa unir as forças progressistas e não criar esse tipo de atrito que se tem lá. Então, o Psol é uma mudança, quer uma transformação da política da Serra. Tanto Audifax quanto Vidigal são o mesmo projeto, não há uma mudança.
 
– O Psol é um partido novo e entra em uma eleição que está radicalizada com seu melhor quadro, afinal, o candidato disputou a eleição ao Senado em 2010 e teve uma votação surpreendente. O senhor acredita que o momento e o local são esses para o partido este ano?
 
– Como os projetos de Audifax e Vidigal, apesar do racha, são o mesmo, se a candidatura do Psol não estivesse colocada, nem segundo turno teria na Serra. Um deles teria mais de 50% dos votos e não haveria o segundo turno. O que o Psol quer nesta eleição é levar para o segundo turno e que o nosso nome seja um dos dois na nova disputa. Hoje na Serra, as pessoas pensam que Audifax e Vidigal são uma coisa só. Quando a gente conversa com a população, isso vai ficando claro. O Psol se coloca como uma novidade, colocou o melhor quadro porque sou nascido e criado na Serra.
 
– Mas não é da elite serrana, não é?
 
– Não, não. Na infância eu vendia picolé. Meu pai foi pedreiro, pescador... Vivo na Serra, moro na Serra, trabalho na Serra, sou assistente social da prefeitura da Serra, concursado desde 2004. Não estou indo lá para disputar a eleição, porque há conversas de que tem candidato que mora em Vitória e está disputando na Serra...Tem esses burburinhos quando a gente conversa com as pessoas na feira...
 
– Quem mora em Vitória?
 
– Tem uma conversa aí, né. Nos dados de propriedade do TRE [Tribunal Regional Eleitoral] dá para ver quem tem casa na Serra e quem tem casa em Vitória. – Mas Vidigal mora em Jacaraípe, então não é Vidigal...
 
– Sempre morou em Jacaraípe, mas não sei se ele mora lá ainda. Estive em Jacaraípe na época do aumento dos vereadores. Nós coletamos quatro mil assinaturas na Serra para entrar na Justiça pedindo o congelamento do aumento. Então, a gente foi em Jacaraípe e por lá andando, muita gente falava que não via Vidigal há muito tempo. Se ele mora ainda por lá não posso dar essa certeza, mas tinha muita gente questionando. – Então, sua candidatura é uma tarefa importante?
 
– É uma tarefa importante para o Psol. Na Serra, se o Psol não comparece, não haverá uma disputa real, na nossa avaliação. Haveria uma disputa dos mesmos. Na história da Serra isso já aconteceu antes na época de José Maria [Feu Rosa] e Motta [João Batista Motta], quando entrava um e saia o outro. A gente não concorda com isso. Queremos contribuir para uma democracia real, porque até 20 dias antes do início das eleições, tinham vários pré-candidatos e os pré-candidatos migraram ou para um palanque ou para o outro. O Psol não está coligado com nenhum desses. O Audifax na Serra tem coligação com o PSDB de Motta e Motta na nossa avaliação não significa um avanço para a Serra, uma mudança para o município. O Motta atrasava o salário do servidor por seis meses. O Vidigal, em 1997, cancelou o plano de carreira dos servidores.
 
– No primeiro mandato, Vidigal chegou a ser chamado de caçador de marajás...
 
– No primeiro mandato de Vidigal ele foi uma mudança, porque ele rompeu com o Motta. Os grupos são os mesmos. Vidigal está com Luiz Carlos Moreira (PMDB) que teve todo aquele escândalo da Assembleia e hoje é aliado de Vidigal. O PT que estava com Vidigal há 16 anos, sai do Vidigal e vai para o Audifax, para ser vice de Audifax.
 
– A candidata a vice de Audifax já foi secretária do período Vidigal, líder do governo na Câmara. O PR está dividido, o senador Magno Malta está no palanque de Vidigal, mas Vandinho, que até poucos dias era pré-candidato, está no palanque do PSB. Isso não causa uma certa confusão na cabeça do eleitor?



– E os candidatos a vereador estão na chapa junto com Audifax, inclusive na chapa majoritária aparece o PR, mas o Magno Malta pede voto para o Vidigal. Mas é o mesmo grupo político, o que há de divergência é na condução do município.
 
– Na verdade Vidigal elegeu Audifax e esperava que ele fizesse apenas um governo de continuidade e devolvesse o mandato em 2008, mas Audifax não devolveu. É o caso da criatura que se vira contra o criador. Audifax teve uma administração eficiente e se tornou uma liderança no município, com o desapego que é natural aos políticos capixabas, ele também já passou por vários partidos. Então, a eleição lá é caseira. O candidato acredita que tem condições de fazer a população entender que é hora de mudar?
 
– É esse o nosso foco. O que a gente vê hoje na Serra é um monte de obra inaugurando. Já ouvi dizer que tem inauguração de escola em um lugar, aí tira os móveis e leva para inaugurar outra, mas a realidade das escolas é bem diferente, não tem nada. Até o muro da escola está caído, mas a fachada da escola está pintadinha, como se tivesse sido reformada.
 
– Foi uma maquiagem.
 
– Isso. Quem passa na rua pensa que está reformado. Aliás, quando você anda nas ruas da Serra pensa que está tudo um brinco, agora entra no equipamento...no inicio do ano faltou merenda. Na unidade de saúde, falta remédio, médico. Tem uma unidade em Planalto Serrano que tem uma plaquinha lá dizendo “unidade regional”, entra lá e vê se tem especialista regional. Eu trabalho na regional do lado e sei que lá em Planalto Serrano não tem todas as especialidades da regional que eu trabalho, mas a plaquinha está lá. Então, na Serra, por onde você anda, vê muito canteiro, muita obra inacabada, muita coisa abandonada. Em Balneário Carapebus, tem uma obra de casas populares, está abandonada. Eu moro no bairro São Diogo, a praça ficou dois anos em obra. Começou a obra na eleição de 2010, derrubaram a pracinha, e na eleição agora ela foi inaugurada. Tem 60 dias que foi inaugurada. A prefeitura está gastando milhões em outdoor, justamente para falar de obras, muitas vezes que nem começaram. É marketing. Os equipamentos públicos não funcionam. Na Serra você tem 40 mil crianças de 0 a 5 anos e a prefeitura disponibiliza 13 mil vagas nos Cemeis da Serra. Então tem 27 mil crianças fora, porque a prefeitura não dá conta.
 
– E como o candidato avalia a passagem de Audifax pelo governo?
 
– Se for comparar com o primeiro governo de Vidigal, que rompeu com Motta, houve uma mudança. Quando você compara o governo de Audifax com o de Vidigal, o do Audifax foi melhor.
 
– Mas não seria porque o segundo mandato é sempre mais desgastante?
 
– Até porque ele não preparou sucessor e há o interesse de deixar a máquina desgastada para poder voltar depois. Mas se você pega o crescimento da Serra, fica claro que houve crescimento no período de Audifax e depois tem uma queda com o retorno de Vidigal. Por isso, ele ficou com medo do Audifax.
 
– Mas o crescimento da Serra se deu também pelo esgotamento das outras áreas, o que coincidiu com a gestão de Audifax.
 
– Acho que isso é uma coisa que vale a pena a gente colocar também. O que tem na Serra é muito condomínio privado, construído com recurso público federal. Essas obras são para a classe média ou média alta. A população carente da Serra não tem casa. No final do ano passado começamos a questionar isso publicamente. Há um déficit habitacional na Serra de mais de seis mil residências. No início deste ano, o prefeito fez um cadastramento de sete mil famílias, alegando que as casas serão entregues em 2013. Para mim parece uma coisa muito eleitoreira, até porque não se sabe quem estará na prefeitura em 2013. Quando você coloca essa questão da habitação é importante lembrar um movimento estrutural da própria sociedade, até por uma questão de logística. Aí você procura qual é o investimento da prefeitura em infraestrutura? Qual o investimento no esgotamento sanitário? Será que eles já pensaram como ficarão aquelas praias daqui a seis, sete anos, quando estiverem ocupados? Será que estão pensando nas escolas fundamentais? Não há esse tipo de planejamento. O investimento da prefeitura nessa área é quase zero. Você procura a Secretaria Municipal de Habitação e pergunta qual é o projeto que a secretaria está implementando na Serra? Nenhum. Então, como a gente questionou muito isso no ano passado, este ano eles fizeram o cadastramento de sete mil famílias. Na verdade a gente também tem crítica a isso. Você abrir o cadastramento não quer dizer que vá atingir as pessoas que precisam. A prefeitura deveria ter ido nos bairros e mapear essas seis mil pessoas que estão precisando de residência.
 
– Naquela eleição para Senador, quantos votos o senhor teve na Serra?
 
– 25 mil na Serra. Vitória, 44 mil. Vila Velha, pouco mais de 44 mil e em Cariacica cerca de 25 mil. Na Serra foi cerca de 10% dos votos do município.
 
– E com quanto o senhor acredita que ficará desse percentual?
 
– A nossa expectativa é começar com esse número. Partir desses 25 mil e tentar subir. Eu fui o terceiro mais votado na Serra, tirando o cargo. O primeiro foi o Audifax, que teve 90 mil. Segunda foi a Sueli Vidigal (PDT), que teve 50 mil. Eu fui o terceiro.
 
– Agora o espaço está sendo disputado palmo a palmo por Vidigal e Audifax. Aonde a gente vai na Serra, as placas estão uma em cima da outra. Será uma campanha que vai exigir recursos. Como encontrar espaço nesse jogo duro. Lembrando que a Serra não tem TV, só rádio, não é?
 
– Só rádio, quatro canais de rádio.
 
– E o Psol também tem pouco tempo...
 
– Um minuto e meio. – Então, como entrar nessa disputa pesada, financeiramente falando? – Eu acho que a grande diferença das três campanhas é essa, porque as outras duas vão ter acima de R$ 3 milhões para gastar segundo os dados do TRE. Nós projetamos um gasto de até R$ 250 mil, mas não acredito que vamos arrecadar R$ 250 mil. Estamos trabalhando com a arrecadação principalmente de pessoas físicas, primeiro os filiados do partido, depois pessoas próximas a esses filiados, comerciantes, pessoas que tenham pequenos negócios na Serra. Esperamos chegar ao fim deste mês com R$ 8 a R$ 10 mil para fazer a campanha. A gente vai ter uma tiragem do primeiro panfleto neste fim de semana, de 50 mil panfletos. A partir do momento em que esse informativo está na rua, facilita até para conseguir o apoio. Porque muitos nem sabem que sou candidato ainda.
 
– Essa é a grande dificuldade.
 
– Essa é a grande dificuldade. Mas todo mundo que a gente conversa, que não é cargo comissionado, que não tem um partido definido, acaba optando por votar na gente. Agora, quando o cara é cargo comissionado ou tem partido fica mais difícil. Muito embora tenha vereadores de outros partidos nos procurando, porque não querem pedir votos para os candidatos majoritários deles. Então, já estamos entrando em bases que os outros candidatos acham que é deles e não são mais. Dentro do partido tiramos uma estratégia de visitar os bairros da Serra, todos os bairros. Começamos pelas feiras, agora estamos conversando com as lideranças religiosas, visitado eventos religiosos e, agora, com o panfleto, vamos visitar casa por casa. Essa é nossa estratégia na Serra.
 
– Qual o slogan de sua campanha?
 
– A Serra de cara nova.
 
– Um de seus adversários, o deputado federal Audifax, chegou a ensaiar na Câmara um discurso duro contra o mal causado pelos grandes empreendimentos no Estado, as poluidoras. Depois ele recuou. Essas empresas são em grande parte financiadoras de campanha. Caso ganhe a eleição, o senhor vai ter que lidar com ônus sociais de empresas instaladas na Serra ainda na década de 1970. O presidente do seu partido, em passagem pelo Estado esta semana, deixou bem claro que o Psol não receberá dinheiro dessas empresas. Como o senhor analisa todo este cenário?
 
– A maior parte da corrupção no Brasil começa com o financiamento de campanha. A maioria dos empresários doa o dinheiro para esses políticos e depois cobra dos políticos obras, serviços, liberação de licenças. Nós do Psol defendemos o financiamento público de campanha. Porque com o financiamento público de campanha, a gente sabe que não vai receber o mesmo que o outro, mas vai ter o mínimo debate com a população e que hoje não consegue nem esses mínimo para alcançar a população. Se a gente tem o financiamento público, já reduz enormemente a corrupção no País. Se a gente for olhar agora, o mensalão, o que é o mensalão? É exatamente isso. É dinheiro para campanha, caixa dois.
 
– Mas esse discurso não encontra força nessa resistência da população em aceitar o financiamento público de campanha?
 
– Acho que isso deve ser esclarecido para a população. Nesse momento, se você tem o financiamento de campanha público, o conjunto da sociedade paga. Mas como está hoje, com o financiamento privado, a sociedade está pagando mais caro, porque na hora de prestar o serviço, está cobrando muito mais caro. Onde você vê muito isso? São empresas de transporte, grandes poluidoras, empreiteiras para obras, as empresas que coletam lixo, de tratamento de esgoto. São serviços públicos em todas as instâncias que estão na no Tribunal de Contas e a população não tem essa clareza que está saindo muito mais caro para ela do que se houvesse o financiamento público de campanha.

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