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Trama policial foi ‘pivô’ da saída de Luiz Paulo da eleição em Vitória

O processo eleitoral de Vitória teve início com uma importante baixa. Foi com grande surpresa que o mercado político e os eleitores receberam o anúncio da desistência do ex-deputado federal e ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) em disputar a prefeitura da Capital. Apesar de liderar isoladamente as primeiras pesquisas de intenção de voto, o tucano simplesmente abriu mão da disputa, levantando uma dúvida entre os eleitores: o que teria motivado a desistência de Luiz Paulo? Desde então, o tucano preferiu o silêncio, dando margem para uma série de especulações. Quando tocou no assunto apresentou explicações pouco convincentes.

Entretanto, um episódio que até hoje era desconhecido do grande público pode ter relação direta com a súbita mudança nos rumos da disputa em Vitória. No dia 19 de maio último, exato um mês antes do anúncio da retirada de sua pré-candidatura, Luiz Paulo foi ouvido por policiais civis em um escritório de advocacia particular, de forma secreta, num expediente que foge à normalidade. Ele fora convidado a prestar um depoimento sobre denúncia de crimes eleitorais.

Os atores envolvidos naquele ???ato??? dão sinais da trama urdida nos bastidores da disputa, que podem ter tido um papel fundamental na saída do então favorito da corrida à prefeitura da Capital. Até então, Luiz Paulo circulava como pré-candidato, se reunindo com lideranças comunitárias e discutindo seu plano de governo. Mas no espaço de um mês, muita coisa mudou…

Luiz Paulo saiu da disputa, deixando o caminho livre para o PSDB compor a chapa do deputado federal Lelo Coimbra (PMDB), que se credenciou como principal beneficiado da reviravolta. Toda a composição para vice foi feita pelo presidente da Executiva municipal do partido, Wesley Goggi, que está na chapa do peemedebista à revelia de Luiz Paulo e de seu grupo político ??? que já manifestou apoio ao atual prefeito Luciano Rezende (PPS). Toda a manobra no ninho tucano teve a anuência do vice-governador César Colnago (PSDB) que, inclusive, já aparece nos vídeos de campanha de Lelo, pedindo votos para o candidato.

Mas voltando ao depoimento informal, o ???ato??? fazia parte de um inquérito aberto pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção (Nuroc), que desde o ano anterior levantava uma denúncia de suspeita de ???caixa dois??? eleitoral na disputa em 2012 à prefeitura de Vitória, em cuja Luiz Paulo saiu derrotado. Estavam presentes nesse depoimento singular os delegados Alexandre Passamani Galvão, do Nuroc, e José Monteiro Júnior, atual subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), além dos advogados Luciano Ceotto e José Carlos Stein Júnior, este último que defende o PSDB estadual e ???emprestou??? seu escritório. Também participou o vice-governador César Colnago, que levou o ex-prefeito ao local.

O papel de Colnago no encontro foi revelado pelo próprio Stein Júnior, que não fez questão de esconder antes do depoimento, em conversas com os demais presentes, da amizade com o delegado Monteiro. Este teria revelado ao advogado que desde o ano passado a Polícia Civil levantava ???algumas coisas??? contra alguns políticos, além da existência de ???forças ocultas??? atuando para acelerar as investigações. Por este motivo, Stein Júnior teria pedido a Colnago ??? no qual disse ter ???carinho e irmandade??? ??? para marcar o encontro com Luiz Paulo. Foi então que surgiu a fórmula do ???depoimento??? informal.

Antes de tomar o depoimento, o delegado Passamani foi apresentado aos presentes por Monteiro, que se classificou como ???equilibrado do ponto de vista político???. Um tipo de apresentação pouco usual em fatos do gênero. O subsecretário revelou que algumas pressões teriam partido de cima ??? ele citou ofícios do Tribunal de Justiça ???, mas preferiu não se ater ao caso específico de Luiz Paulo. Em relação ao tucano, ele disse que pensou ser mais interessante ouvi-lo em um ???lugar neutro??? para não despertar a atenção de curiosos e evitar factoides na mídia. ?? aí que entra o escritório de Stein Júnior, amigo de Colnago.

O depoimento em si de Luiz Paulo não durou mais do que dez minutos – o encontro todo teve pouco mais de meia hora. Luiz Paulo foi questionado sobre a relação com seu advogado particular [Luciano Ceotto, que não foi incluído no termo de depoimento por sugestão do delegado], sobre notas fiscais da prestação de contas nas eleições de 2012, bem como perguntas sobre um apartamento adquirido por Ceotto. A aquisição desse imóvel foi denunciada em duas cartas apócrifas por suposta relação com o ???caixa dois??? de campanha do tucano. No entanto, todas as investigações nada concluíram sobre a acusação.

Mesmo com todo o sigilo em torno do encontro, o depoimento de Luiz Paulo ???vazou???, resultando em um novo texto anônimo que chegou à 3ª Vara Criminal de Vitória na forma de uma incomum ???petição apócrifa???. O documento repete todas as acusações, citando ainda que o ex-prefeito teria mentido em seu depoimento ao Nuroc. Hoje, o caso está na 56ª Vara Eleitoral de Vitória, que seria o juízo natural do processo desde a origem, mas que recebeu os autos pela primeira vez somente no último dia 18 deste mês.

Denúncia sem autor

A história recente capixaba revela o uso de cartas anônimas em episódios da vida política e até jurídica. Não foi diferente neste caso. O texto das cartas anônimas narravam o suposto envolvimento de Luiz Paulo em ???caixa dois???, além do furto R$ 1 milhão desse dinheiro. Uma insinuação que não teve crédito na época, justamente pelo fato de Luiz Paulo ter apresentado uma prestação de contas de R$ 9,5 milhões, valor bem superior aos declarados por seus adversários ??? tanto os R$ 4 milhões gastos em um só turno pela candidata do PT, Iriny Lopes, quanto os pouco mais de R$ 2 milhões declarados por Luciano Rezende nos dois turnos da disputa.

O procedimento inicial foi instaurado em julho de 2014 pelo promotor de Justiça, Marcelo Zenkner ??? que foi secretário de Transparência do atual governador Paulo Hartung (PMDB) no início do ano seguinte ??? após tomar conhecimento da denúncia, cuja origem seria conhecida, pelo menos, aos participantes do depoimento de Luiz Paulo [apesar do nome do autor da peça apócrifa não ser mencionado].  A partir deste momento, o promotor faz uma série de requerimentos, pedindo informações sobre o caso, recebendo os primeiros dados sobre a transação

Já em setembro, Zenkner requisitaria a instauração de um inquérito policial para tratar do caso ??? desde aquela época caracterizado como eventual crime eleitoral, portanto, de atribuição da autoridade judiciária da União, leia-se Polícia Federal. Entretanto, o caso é encaminhado para a Polícia Civil, que tomou os depoimentos do vendedor do apartamento e até do dono da marcenaria responsável pelo projeto da cozinha planejada do imóvel, conforme documentos obtidos pela reportagem de Século Diário.

Durante as investigações junto à Delegacia de Defraudações, da Polícia Civil, o advogado Luciano Ceotto também foi ouvido, negando qualquer irregularidade na transação ou desvio de dinheiro para aquisição do bem, que foi pago, segundo ele, com seus próprios rendimentos financeiros na atuação como um dos mais renomados advogados do Estado. Ceotto entregou todos os comprovantes de pagamentos.

Diante dessa encruzilhada pela clara negativa dos fatos denunciados, o delegado Orly José Fraga Filho encaminha o inquérito para a Polícia Federal, que acabou devolvendo a solicitação por não ver nenhum crime a apurar por aquele departamento. O delegado federal Álvaro Duboc Fajardo chegou a criticar a forma comque o caso foi encaminhado para aquela autoridade judiciária.

Retornando à alçada da Justiça estadual, tentou-se, via judicial, a quebra do sigilo do advogado, negado pela juíza da 3ª Vara Criminal de Vitória, que também não vislumbrou nenhum crime que o justificasse a investigação. Após mais de um ano sem nenhuma tramitação ou qualquer fato novo, eis que surge o derradeiro depoimento de Luiz Paulo. Tornando patente que se criou a condição ideal para afugentar o tucano da disputa, inviabilizando sua candidatura em função dessa suposta pendência judicial.

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