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Quinta, 29 Outubro 2020

Vale tudo

Se alguém contasse que a Vale monitora pessoas ligadas a movimentos sociais com o mesmo modus operandi usado na época da ditadura militar, isso tudo em pleno século XXI, até o interlocutor que não dúvida mais de nada diria que a suspeita é fruto de uma mente persecutória, para não dizer paranoica.
 
Mas o caso de espionagem da Vale não é uma obra de ficção coisa nenhuma. É tudo muito real. A empresa não só monitorou ou monitora os movimentos sociais como criou um serviço de inteligência para identificar e vigiar pessoas que representam alguma ameaça aos interesses da empresa.
 
O serviço de informação da Vale se assemelha muito ao SNI (Serviço Nacional de Informação) - órgão criado em 1964, que tinha a função de informar o governo a respeito de movimentos estudantis e sindicalistas, bem como suspeitas e atos de partidos políticos, depoimentos, prisões, subversão e conspiração contra o sistema. O SNI se organizava de forma profissional, imprimindo relatórios sobre várias atividades da sociedade. Até ai, não tem nem o que tirar nem pôr do serviço mantido pela Vale.
 
 
O caso inacreditável de espionagem da Vale veio à tona pela coluna Radar, da revista Veja, após o ex-gerente André Almeida fazer acusações contra a empresa à Justiça do Trabalho do Espírito Santo e ao Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, em março deste ano. Almeida, demitido no ano passado, trabalhava no Serviço de Inteligência em Segurança Empresarial da poluidora e sabia tim-por-tim-tim o que se passava nos "porões" no departamento de espionagem da Vale. 
 
No primeiro dossiê, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Justiça nos Trilhos apareceram como alvos das investigações da empresa. Desta vez, o novo dossiê aponta dois nomes de pessoas conhecidas dos capixabas:  o articulador da Rede Sustentabilidade no Estado, Gustavo De Biase, e o coordenador estadual do Movimento Nacional por Moradia e vice-presidente da ONG Amigos da Barra do Riacho, Valdinei Tavares. 
 
 
Em 2011, a Vale monitorava os dois militantes (e muitos outros) que, segundo a empresa, estariam envolvidos num litígio de terras em Bicanga, na Serra. No documento, a Vale trata como de “cunho político” a ocupação e associa o  Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) ao Psol, antigo partido de Gustavo De Biase. “As duas organizações, desde o início deste ano [2011], vem liderando vários movimentos sociais e políticos como invasões e protestos”, denúncia o documento.  
 
O dossiê sobre os militantes é rico em detalhes, também não perde nada para os famosos arquivos de fichados do SNI. O material traz, por exemplo, a foto de Valdinei Tavares e a reprodução de informações divulgadas no blog da MTL, tratando Biase como “líder dos protestos [estudantis] em Vitória, e uma pessoa ligada e que orgulha o MTL”. 
 
Os dois militantes, como não podia ser diferentes, ficaram indignados com a arapongagem.  Valdinei desabafou: “É um absurdo um aparato empresarial ser maior até do que o aparato do Estado, e violar o nosso direito de privacidade. É a imposição da ditadura militar pelo capital privado”, protestou. 
 
"Acredito que a Vale deveria se preocupar mais com o pó preto que polui a nossa cidade e o nosso Estado, prejudicando a saúde dos capixabas e, espero, que tais práticas provoquem repúdio na sociedade organizada e nos movimentos sociais”, sugeriu Biase. 
 
A Vale precisa explicar aos dois militantes, à sociedade e à Justiça, qual é o destino das informações levantadas. Afinal, a empresa gastava ou gasta milhões para operar um departamento de espionagem e depois faz o que com as informações levantadas? Arquiva?
 
A ideia, se o modus operandi é o mesmo da ditadura, é usar a informação estratégica para estar sempre um passo à frente do "inimigo", a tempo de neutralizá-lo. Dá até medo de imaginar os outros expedientes que a empresa usou ou usa para coibir os movimentos sociais. 

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