Quinta, 18 Agosto 2022

Desafios do isolamento: 13 familiares adoecem em duas casas e um chega a óbito

familia_fabiola_maruipe_arquivo_pessoal Arquivo pessoal
Irmã e sobrinhas voltam pra casa depois de curadas

O Espírito Santo chega nesta quarta-feira (17) à marca de 1.179 óbitos pelo coronavírus, 47 delas nas últimas 24 horas, segundo o Painel Covid-19. E o inquérito sorológico mostra que a maior parte das contaminações – foram 30.508 pessoas confirmadas até agora, dentro de um universo de 300 mil estimadas pelo inquérito – acontece dentro de residências onde vivem mais de quatro pessoas. 

Na última etapa do estudo, realizada nos dias 8, 9 e 10 de junho, 48% das pessoas que testaram positivo moravam em lares assim, apesar de representarem apenas 33% das amostras

Nas periferias das cidades, famílias numerosas que habitam casas com poucos cômodos e apenas um banheiro são a realidade mais comum, o que demanda atenção especial do poder público nessas regiões, a fim de frear a velocidade de transmissão da doença, o número de internações e de óbitos.

Em Maruípe, Vitória, toda a família da cabeleireira Fabiola dos Santos Graça foi afetada pela Covid-19. Na parte de baixo da casa, o pai, a mãe e uma irmã. Na parte de cima, ela, os quatro filhos, mais a irmã e a neném que moram parte do mês na Serra e outra parte com ela. As dez pessoas se contaminaram. Algumas, como as crianças, tiveram sintomas mais leves, de gripe apenas, outras tiveram prostração e três foram internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

"Eu internei minha irmã no sábado, a minha mãe na terça à noite na UTI, e o meu pai na quarta de manhã também na UTI. Todos com os pulmões tomados pela Covid, que ocasionou pneumonia. Quando voltei pra casa, não tinha mais ninguém", lembra.

Ela cumpriu os 14 dias ativos da doença em casa, com muita fraqueza por não conseguir se alimentar direito devido à perda do paladar. "Cheguei a desmaiar de fraqueza duas vezes", diz. Ao final, todos em sua casa sobreviveram. "Somos uma família vitoriosa", diz Fabiola. Mas na casa do ex-marido, onde seus quatro filhos moraram por 15 dias até ela se recuperar, o pai das crianças, o avô e a avó também adoeceram. Os dois idosos foram internados e o ex-sogro faleceu.

"Lá cada um [dos filhos] apresentou um sintoma, perda de olfato e paladar, dor de cabeça, febre, tosse". O avô das crianças, conta, estava aparentemente bem de saúde, apesar da diabete elevada com que convivia há anos. Internado numa segunda-feira, faleceu na madrugada seguinte. "Ele estava bem, tomou banho sozinho à noite, mas de madrugada teve o quadro agravado e morreu na policlínica. Nem chegou a ir pra UTI", relata, com tristeza.

A dor da perda de um dos avós dos filhos convive com a alegria de ter salvado os pais. A mãe apresentou o quadro mais grave, com muita febre pela manhã, e à noite já com confusão mental. Internada, descobriu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o comprometimento de 75% dos pulmões. Foram 21 dias de UTI, sete deles entubada. "Obesa, idosa, diabética, hipertensa e recém-curada de um câncer de mama. Nem ela mesma acreditou que se salvou", afirma. "O padre aqui da igreja disse que foi um milagre. Nós também achamos. Hoje parei de trabalhar e vivo pra cuidar da minha mãe, graças a Deus", conta.

No bairro Santa Marta, em Vitória, a manicure Mariza Fernanda Santos Prudêncio conta outra história desafiante e que também teve final feliz. Ela trabalha em seu salão de beleza dentro da sala da casa dos pais. A casa tem ainda uma outra divisão, na parte da frente, onde moram o irmão com a esposa e três filhos.

Embalador em um supermercado, o irmão contraiu o coronavírus e, para evitar a transmissão aos familiares, ficou sozinho em casa por 14 dias. A esposa e os filhos foram para a casa da sogra, em Joana D'Arc, também em Vitória. O pai levava a comida para ele, que tomava banho de mangueira na varanda e fazia as necessidades fisiológicas em um balde, para evitar o trânsito próximo aos pais, idosos. "Ninguém mais ficou doente e ele já voltou a trabalhar tem 15 dias", comemora.

Casa de quarentena

Em algumas cidades do país, as Casas de Quarentena ou Casas de Apoio foram criadas para abrigar pessoas infectadas pelo coronavírus e que moram em residências onde o isolamento social é dificultado pelo pequeno número de cômodos e banheiros. 

Em Vitória, a ONG Ateliê de Ideias, no Território do Bem, tenta há três meses tenta aprovar um projeto com capacidade para 30 pessoas, mas que esbarrou na falta de entendimento entre a Prefeitura e o governo do Estado. Ainda há esperança, conta Denise Biscotto, uma das idealizadoras do projeto.

Durante o processo de conversação, a prefeitura decidiu ampliar a estrutura negociada em parceria com o Estado, o que inviabilizou a implementação, até o momento. De fato, o município criou um hospital de campanha no Sambão do Povo e inaugura, na próxima semana, um centro de quarentena no mesmo local. 

"Esse centro de quarentena é uma iniciativa necessária e importante demais! Torcemos que se escale para outras zonas especiais de interesse social", conclama Denise. "Estudos indicam que o doente deve ficar abrigado em até 3 km de distância do seu bairro", argumenta.  


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