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Segunda, 02 Agosto 2021

​Máscaras enviadas a profissionais da Saúde indígena estavam vencidas desde 2004

saudeindigena_maurolouzada Mauro Louzada
Um lote de máscaras encaminhado aos profissionais que atuam nas aldeias indígenas de Aracruz, no norte do Estado, estava vencido desde 2004. Os equipamentos foram enviados pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Governador Valadares (MG), do Ministério da Saúde, responsável pela área no Estado. Para servidores que estão na linha de frente do combate à pandemia do coronavírus, o episódio mostra o descaso com o Serviço de Saúde Indígena capixaba.

O material saiu do DSEI com destino ao escritório da Sesai em Aracruz. Renato Tupinikim, presidente do Conselho Local de Saúde da aldeia Caieiras Velha, afirma que as máscaras foram solicitadas em uma reunião com a coordenação do distrito de Governador Valadares. "Nós pedimos alguns insumos que estavam faltando. O pedido já estava lá no almoxarifado. Eles separaram naquele mesmo dia e a gente trouxe. Fomos ver só no outro dia que estava vencido", relata.

Renato conta que, após perceber o problema, entrou em contato com o Distrito, que informou que mandaria máscaras novas. O material chegou a Aracruz na últijma segunda-feira (12). "É uma falta de organização e de gestão deles", aponta.

O objetivo era distribuir os equipamentos para as unidades de saúde nas aldeias, mas o material foi recolhido. "As máscaras não tinham condições nenhuma da gente trabalhar. Um material de péssima qualidade e pior ainda: vencida", afirma Bruno Joaquim Siqueira, Tupinikim e técnico de enfermagem na aldeia Irajá.

Para ele, é mais um descaso com os servidores, que já apontam a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI's) nas unidades de Saúde indígenas há algum tempo. "Uma falta de respeito conosco, porque não é de hoje que a gente já vem sofrendo com o descaso. Eu sou profissional da saúde indígena, mas, antes, eu também sou indígena. Então, é claro que eu me sinto desrespeitado", destacou.

A médica da aldeia de Caieiras Velha, Alda Regina Gomes, também recebeu o material com as máscaras vencidas. "Isso é um descaso com os indígenas e, diante dessa pandemia da Covid-19, um crime contra a sociedade", critica.

Paulo Tupinikim, coordenador geral da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), disse que "se tratou de um engano". Ele afirma que as máscaras estavam separadas para descarte "e os rapazes do almoxarifado eram novos lá e não tinham conhecimento".

O Distrito Sanitário Especial (DSEI) justificou que, "caso ocorra algum equívoco de envio de material vencido, todos os profissionais de saúde são capacitados, desde a sua formação técnica, ao descarte imediato do material", e afirmou que "a última saída de máscaras descartáveis destinadas ao Polo de Aracruz tem as validades marcadas para o dia 30 de setembro de 2022 e 5 de outubro de 2030".

Para os servidores, o DSEI tenta, assim, transferir para os profissionais de Aracruz uma responsabilidade que não é deles. "Lógico que a gente é capacitado. A gente é tão capacitado, que descobrimos o erro, né? Sendo que ficou anos guardado no estoque deles e eles não viram", reage Bruno.

Alda reitera que os profissionais de Aracruz não receberam nenhuma capacitação para lidar com EPI's durante a pandemia. "Nós estamos aqui pra trabalhar. E eles estão lá para enviar para nós materiais adequados", reforça.

Abandono

Recentemente, Alda denunciou a falta de insumo e a escassez de Equipamentos de Proteção Individual nas unidades destinadas ao atendimento de povos indígenas em Aracruz. "Os EPIs, normalmente, são todos doados. Desde que eu cheguei aqui, não vi mandando nada para gente", disse na ocasião.

Juntamente com lideranças Tupinikim e Guarani, ela acredita que o maior problema é a dependência do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI). Para eles, é necessário ter uma gerência dentro do próprio Espírito Santo.

A profissional participou recentemente de uma reunião virtual com a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, para apresentar os problemas aos parlamentares. "Não há condições de trabalho. O DSEI mal manda para gente uma pia. Tem que comprar uma torneira, como eu já comprei. A própria dentista, ela que faz toda a manutenção estrutural do consultório, com o dinheiro dela", denunciou.

Renato Tupinikim afirma que, há anos, percebe as mesmas dificuldades. "Eles [DSEI] demoram muito para mandar materiais. Uma coisa que já está claro para nós, é que a Saúde Indigena aqui no Espirito Santo foi abandonada", exclama.

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