Sexta, 24 Setembro 2021

Uso do fogão a lenha pode agravar casos de Covid-19 em pessoas em vulnerabilidade

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Elias Costa Souza

A utilização errada da biomassa como fonte de energia doméstica pode ser um agravante em casos de contaminação pela Covid-19. Essa é a conclusão de uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ao mesmo tempo, o agravamento da pobreza faz com que equipamentos como o fogão a lenha voltem a ser utilizados por famílias em situação de vulnerabilidade, um efeito dominó durante uma pandemia que segue impactando os mais pobres.

Só em território capixaba, são mais de 157 mil pessoas abaixo da linha da pobreza, de acordo com dados do Instituto Jones dos Santos Neves. Com o gás de cozinha chegando a custar até R$ 100 em Vitória, o fogão a lenha, muitas vezes, é a única alternativa.

Foi nesse cenário que os pesquisadores descobriram problemas que também podem afetar a saúde dessas pessoas. A pesquisa revelou que o uso incorreto dos equipamentos de combustão e a inalação de partículas poluentes fazem com que essas famílias estejam mais suscetíveis a infecções respiratórias agudas, acúmulo de muco, doenças pulmonares obstrutivas, dentre outras complicações.

"Geralmente, quem utiliza esses sistemas são pessoas mais vulneráveis. Então essa combustão é feita em ambientes pequenos, nos mesmos espaços em que elas se alimentam ou dormem. Elas ficam o tempo todo expostas à fumaça, o que compromete o sistema respiratório", declara o coordenador da pesquisa, professor Ananias Dias Júnior, do Departamento de Ciências Florestais e da Madeira da Ufes.
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Durante a pandemia, isso também significa estar mais sujeito a complicações no quadro da Covid-19. "São pessoas que têm mais riscos de vir a óbito", aponta o professor.

O pesquisador explica que o principal problema está nos equipamentos utilizados dentro das casas. "Esses sistemas de combustão são considerados aparatos de convívio social que menos evoluíram desde quando foram criados. Pouco foi feito em termos de melhor eficiência de combustão", destaca.

Com a dispersão incorreta dos gases, as consequências também podem atingir quem já se curou da Covid-19. Isso porque, o estudo identificou que as sequelas da doença também podem ser agravadas em pessoas que estão nesses ambientes.

Apesar do problema ter se intensificado durante a pandemia, muitas famílias possuem gerações inteiras expostas aos poluentes resultantes da combustão inadequada. "Estudos mostram pessoas da zona rural com problema respiratório crônico sem nunca terem fumado", pontua o professor.

Ananias lembra que as doenças não estão relacionadas à utilização da biomassa, mas aos equipamentos de combustão. Segundo ele, o uso da madeira, resíduos vegetais e biomassa animal carece de métodos que diminuam esse impacto para a saúde humana.

O professor também coordena o Laboratório de Energia da Biomassa (LEB) da Ufes e já trabalha com pesquisas para aplicar a madeira e o carvão vegetal sob ação do calor, diminuindo os efeitos do uso de carbono sobre as mudanças climáticas. Os estudos também tentam oferecer produtos que gerem energia por meio de processos viáveis do ponto de vista econômico e social.

"Dois terços da população mundial já utilizam a biomassa para cozinhar, aquecer ou iluminar. É preciso ter um olhar mais atento aos combustíveis renováveis, só que primeiro é preciso aperfeiçoar esses sistemas de combustão", destaca.

A pesquisa que observou as possibilidades de agravamento de doenças respiratórias ainda está em andamento. A próxima etapa pretende cruzar os dados da utilização desses equipamentos alternativos de combustão com a contaminação da Covid-19 no Estado. "Nós vamos fazer o zoneamento das áreas do Espírito Santo que mais utilizam biomassa, com os casos de Covid e as classes sociais dessas pessoas", adianta.

A pesquisa conta com estudantes de doutorado e mestrado do Programa de Pós-graduação em Ciências Florestais da Ufes, estudantes de doutorado do Programa de Pós-graduação em Recursos Florestais da Universidade de São Paulo (USP), além de alunos de graduação em Engenharia Florestal e Engenharia Industrial Madeireira da Ufes. 

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Comentários: 1

Francisco Gomes em Segunda, 02 Agosto 2021 23:51

Texto interessante!!

Texto interessante!!
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Sexta, 24 Setembro 2021

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