quinta-feira, fevereiro 19, 2026
30.9 C
Vitória
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Leia Também:

Amacentro e vereadores pedem apuração de morte no Centro

Caso reacendeu alerta sobre falta de organização da gestão de Lorenzo Pazolini

Leonardo Sá

Após a morte de uma mulher trans durante o Carnaval do Centro de Vitória, no último domingo (15), na Praça Costa Pereira, vereadores da Capital e a Associação de Moradores do Centro de Vitória (Amacentro) cobram apuração do caso e criticam a condução da segurança pública no evento. O episódio ocorreu após um conflito entre duas mulheres, que teriam entrado em conflito corporal. Uma delas, identificada por Natasha, teria avançado com uma faca contra a outra, e foi atingida por disparo efetuado por agente da Guarda Civil Municipal.

Além da morte, a vereadora Ana Paula Rocha (Psol) também citou outro caso ocorrido na região, um jovem baleado nas proximidades do morro da Fonte Grande, e criticou ainda o uso de spray de pimenta e a forma de dispersão do público. “Novamente a Guarda Civil Municipal, de forma violenta, vem fazendo dispersão com spray, gás de pimenta. Estamos aqui na rua quase vazia, com muito prejuízos para os comerciantes”, relatou nas redes sociais. “Parece que a prefeitura quer instituir um toque de recolher de forma absurda”, acrescentou. Ana Paula disse que moradores relataram que o gás teria alcançado o interior de residências.

Para ela, a gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos) opera com uma “concepção de policiamento que não garante a segurança”, reafirmando a necessidade de apurar as condições da morte e do jovem baleado. “Nós precisamos de segurança para os trabalhadores, para os moradores”, reforçou.

O vereador Professor Jocelino (PT) lembrou, também em publicação nas redes, que houve alertas prévios à prefeitura sobre falhas no planejamento da festa. “Durante todo o ano tentamos diálogo, reuniões, cobranças, alertas. Conversamos com a Prefeitura de Vitória e com a organização dos blocos sobre planejamento, estrutura e, principalmente, estratégia para a dispersão do público. Não foi falta de aviso”, destacou.

Ele considera que o problema não foi o volume da festa, mas a ausência de organização. “Carnaval não acontece por acaso. Ele é construído com antecedência. E quem autoriza a festa, precisa assumir a responsabilidade por tudo o que vem junto. O que vimos não foi excesso de folia, foi ausência de planejamento”, declarou. Jocelino defendeu que segurança pública “não se faz apenas com imposição”, mas com “organização, inteligência e respeito ao território – aos foliões, aos trabalhadores, aos comerciantes e aos moradores do Centro”.

Os episódios também foram alvos de questionamentos da Amacentro, que defende a apuração da morte e prepara um posicionamento público sobre o caso. Para o presidente da entidade, Walace Bonicenha, o desfecho fatal não pode ser analisado de forma isolada. “Acredito que seja justamente um processo de qualificar, de preparo. Nós observamos que em vários momentos houve de falta de preparo, e isso culminou na ação”, avalia.

Ele observa retrocessos na estrutura de segurança neste ano em comparação a edições anteriores do Carnaval. “Em 2025, tinha uma base no entorno da Costa Pereira, um posto de atendimento variado. Este ano não teve plantão, nem policiamento na Costa Pereira e na Rua Sete”, declara.

A associação defende que segurança pública deve ir além da reação a ocorrências. “A polícia tem que ser preventiva. Ela tem que ser no sentido de evitar que o fato ocorra”, afirma. “Cultura de paz não significa ausência de conflito, e sim como se trabalha esse conflito”, completa. Nessa proposta, a atuação em situações de tensão deve priorizar o descalonamento, explica. “Na mediação do conflito, a ação vem para mediar, não pode servir para eliminar”, ressalta.

Outro ponto de preocupação é o acompanhamento psicológico oferecido para o agente envolvido na ocorrência. “É importante trabalhar agora e verificar a esse funcionário público um tratamento. Acredito que ele esteja abalado com a situação que enfrentou”.

Segundo ele, também não se pode forçar o esvaziamento de determinadas áreas do Centro. “Eu não posso expulsar de um determinado território, para levar para outro, nem forçar o esvaziamento de um território sem ter opções artísticas e culturais. Tem que ter a pluralidade nesse momento”, declara.

O dirigente comunitário critica ainda o modelo de organização territorial do Carnaval. “O Carnaval é plural e esse território também. Não dá para agora unificar e querer que só tenhamos eventos a partir de determinado horário em determinado local”, afirma. Para Walace, é necessário garantir a ocupação múltipla dos espaços e o direito de permanência, e o caminho é ampliar as possibilidades culturais, com formação e incentivo a novos blocos e músicos, fortalecendo a diversidade distribuída pelo território.

Falhas na comunicação do poder público e na organização do trânsito e infraestrutura também são apontadas. “Não existe informação com roteiro, de organização”, diz, citando ausência de sinalização adequada sobre horários, trajetos e infraestrutura. Em um dos dias de festa, afirma, lideranças comunitárias precisaram intervir para garantir a passagem dos blocos, porque não tinha guarda realizar o trabalho.

A Amacentro afirma que ainda não se reuniu com a Secretaria de Segurança ou com representantes da gestão municipal após o Carnaval. Século Diário solicitou nota oficial da Guarda Municipal sobre o fato e os protocolos adotados na ocorrência que culminou em morte, mas até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Mais Lidas