Sexta, 19 Agosto 2022

Coletivo organiza ato em memória de mulher assassinada em Guarapari

diadamulher_divulgacao Divulgação

O coletivo feminista Mulheres que Lutam realiza, nesta terça-feira (9), uma vigília em protesto a mais um caso de feminicídio em Guarapari. Nessa sábado (6), uma mulher foi assassinada pelo marido com golpes de facão dentro de um carro. Esse foi o terceiro caso na cidade este ano, de acordo com dados do Governo do Estado coletados até o mês de setembro. A concentração do ato será às 18h30, no centro da cidade.

"Mais uma. Menos uma. Perdemos outra de nós, e a cada uma que vai, leva um pouco de todas. As que ficaram seguem gritando: Nenhuma a Menos, Vivas nos Queremos. (...) Vá de preto, pelo luto em luta, leve velas, cruzes e cartazes. Use máscara e álcool em gel. Quem mata uma mulher, mata a humanidade inteira. Parem de nos matar! Seguimos resistindo. Por isso, nos levantamos contra o feminicídio! Edilaine, presente!", diz o coletivo nas redes sociais.

Edilaine foi morta no bairro Nova Guarapari. A Polícia Militar afirma que foi acionada na tarde de sábado, com a informação de que um indivíduo agredia uma mulher no interior de um carro. "A equipe, de posse das informações, conseguiu abordar o veículo, onde encontraram uma mulher em óbito vítima de golpes de facão. O autor do fato foi detido e encaminhado para a delegacia", diz nota da PM. Os dois filhos da vítima de feminicídio em Guarapari presenciaram o crime cometido contra a mãe. As crianças de dois e cinco anos foram encontradas com manchas de sangue e estavam em estado de choque após o ocorrido.

A assistente social Emilly Marques, integrante do Coletivo Mulheres que Lutam e do Fórum de Mulheres do Espírito Santo (Fomes), explica que o ato desta terça é uma forma de gritar por socorro. "O movimento feminista tem um processo histórico de lembrar cada mulher que foi vítima da violência patriarcal e que teve sua vida retirada de forma brutal, então a vigília tem um objetivo de protesto, de dar visibilidade, porque essa situação não é um caso isolado, e gritar socorro para que parem de nos matar e as autoridades façam seus papeis para prevenir as violências, proteger as mulheres que precisam de assistência", cobra.

Casos como esses são cada vez mais recorrentes no município e em todo o Espírito Santo. De acordo com o Observatório da Segurança Pública do Governo do Estado, até setembro, 78 mulheres foram mortas no Espírito Santo. Ao todo, 53 casos foram registrados como homicídio doloso, enquanto 25 foram notificados como feminicídio, quando a mulher é morta apenas por ser mulher. Abalada pela situação, Emily ressalta que a responsabilização de quem cometeu o crime é importante, mas não é a única medida necessária para combater a violência contra a mulher. "Isso não traz ninguém de volta", ressalta.

A assistente social destaca o contexto de Guarapari, onde as mulheres não têm acesso a um abrigo social municipal e enfrentam dificuldades para acompanhamento psicológico clínico, que é ofertado apenas pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). "A gente acredita em um processo de mudança estrutural, na necessidade de políticas públicas, das autoridades ouvirem os coletivos feministas sobre as políticas públicas no município, de financiar as políticas públicas para as mulheres", aponta.

No próximo dia 25 de novembro, o movimento Levante Feminista Contra o Feminicídio no Espírito Santo vai realizar uma vigília estadual em protesto aos recorrentes casos de feminicídio. O ato será realizado na Praça Costa Pereira, com concentração às 16h.

"Nós temos uma conjuntura de conservadorismo, machismo autorizado pelo Estado, onde a gente tem uma figura de um presidente extremamente machista e conservador, uma ministra de Direitos da Mulher que também é totalmente antifeminista, que desfinancia as políticas para as mulheres, que não investe nisso. Então nós temos um contexto, um cenário muito brutal para as mulheres. É um momento muito difícil, onde o racismo, o patriarcado e o capitalismo vão atacar as mulheres mais pobres, periféricas e negras", destaca Emily.

No final de outubro, entidades da sociedade civil realizaram um protesto em Cachoeiro de Itapemirim, sul do Estado, também denunciando a violência contra a mulher. O estopim foi o assassinato da vendedora Roseli Valiati Farias, morta pelo namorado no dia 17 de outubro, ao tentar terminar o relacionamento, conforme apontam as investigações.

Durante a pandemia do coronavírus, o cenário, que já não era favorável para mulheres que vivem no Brasil, piorou. A dificuldade de acesso a serviços que passaram a funcionar apenas de forma remota e o maior convívio com os agressores, em razão do isolamento social, foram alguns dos fatores que contribuíram para o aumento da violência contra a mulher neste período. "Não foi a pandemia que criou a violência contra a mulher, mas a gente considera que nesse contexto ela se agravou", ressalta.

Nesse cenário, os atos e denúncias promovidas por coletivos feministas no Estado tentam interromper um ciclo de morte, cobrando estratégias públicas de prevenção para que mais casos como esses sejam registrados. "Depois que as mulheres morrem, não tem mais o que fazer, já tiraram o bem mais precioso que é a vida (...) Essa situação deixa filhos órfãos, crianças que também já sofreram essa violência (...) É uma barbárie que nós, enquanto sociedade, não podemos aceitar, e o poder público precisa ser também responsável, porque o Estado, quando não protege, também mata", critica Emily.

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