Guilherme Perim pilotava uma moto quando foi atingido com um tiro no abdômen

A morte do jovem Guilherme Magalhães Perim Augusto, de 22 anos, no bairro Santana, em Cariacica, após uma abordagem da Polícia Militar (PM), gerou revolta na comunidade esta semana. Um protesto foi realizado na noite dessa terça-feira (3), dia do falecimento. A família também avalia medidas jurídicas a serem tomadas.
O caso aconteceu na noite do último dia 29. Segundo informações de uma fonte que prefere não se identificar por medo de represálias, Guilherme pilotava uma moto em direção à praça do bairro, com um amigo na garupa, quando foi abordado por um PM que estava em frente a uma lanchonete na rua André do Espírito Santo. O policial esperava colegas que estavam lanchando, aponta a fonte.
No momento, Guilherme estava empinando a moto, o que inclusive motivou a abordagem. A informação é de que o jovem tentou desviar do policial para não se chocar contra ele e inclusive teria falado que pararia, mas foi atingido por um tiro no abdômen e caiu, tendo sido socorrido e encaminhado para o Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE), em Vitória. O passageiro da motocicleta, que não se feriu, prestou depoimento na polícia e depois foi liberado.
Guilherme permaneceu internado no HEUE e estava consciente em parte do tempo, mas acabou não resistindo aos ferimentos e faleceu na manhã de terça-feira. Em que pese a realização da manobra irregular com a moto, a avaliação de pessoas próximas ao jovem é de que a atitude do policial foi desproporcional e acabou resultando na morte de uma pessoa querida pela comunidade.
Durante o protesto da noite de terça-feira, amigos e vizinhos de Guilherme chegaram a interditar parcialmente a Rodovia do Contorno, na altura do bairro Santana, colocando fogo em pneus. A vereadora de Vitória Ana Paula Rocha (Psol), cuja mãe reside no bairro, também discursou na Câmara na quarta-feira (4) em solidariedade.
“Eu fiquei muito entristecida, porque vi vários jovens chorando a perda de um amigo, de uma criança que eu vi crescer, e mais uma vez, o que a gente vê nesse Estado é a criminalização da juventude negra. A polícia atira primeiro, pergunta depois, e essa vítima é vitimizada várias vezes, porque na imprensa ela aparece como se fosse bandido. E Guilherme não era bandido, era filho de Taninha e de seu Moisés, um jovem cheio de sonhos”, afirmou Ana Paula.
Segundo informações de pessoas da comunidade, Guilherme trabalhava como conferente em um estabelecimento comercial de Viana, na Grande Vitória, e sempre morou no bairro Santana com os pais e dois irmãos pequenos.
O jovem não tinha registro de passagens pela polícia. Em novembro, passou por outra abordagem da policial por pilotar moto de chinelos, sem capacete e sem placa no veículo, tendo assinado um termo circunstanciado.
‘Desobedeceu’
Em nota para Século Diário, a Polícia Militar do Espírito Santo afirmou que, ao ser abordado por conta de “manobras perigosas”, Guilherme “desobedeceu e efetuou manobra brusca, direcionando deliberadamente a motocicleta contra um dos policiais. Diante da ameaça, o militar efetuou um disparo para cessar a agressão”. Após o jovem cair e ao constarem os ferimentos, ele foi socorrido e encaminhado ao hospital. O passageiro, sem lesões aparentes, foi levado para a delegacia, e a moto foi removia para o pátio credenciado.
De acordo com a PM, equipes do Batalhão de Ações com Cães (BAC) estavam desembarcadas no bairro Santana durante a realização da operação Força Total. “A Corregedoria informa que tem ciência do fato, e os autos foram encaminhados ao Batalhão de Ações com Cães (BAC), onde será instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) para a apuração dos fatos. A arma do policial militar foi recolhida e será objeto de investigação”, finaliza a nota.

