Feminicídio de comandante da Guarda expõe realidade da violência, afirma delegada
“Nenhuma mulher está isenta no Espírito Santo. Acho que essa entrevista é a mais difícil que eu já fiz em toda a minha carreira”. A declaração, da delegada Michele Meira, gerente de Proteção à Mulher da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), destaca o peso da morte da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, assassinada pelo companheiro, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza na madrugada desta segunda-feira (23). O crime é tratado pelas autoridades como feminicídio, e provocou forte comoção no Estado.

Reconhecida pela atuação no combate à violência contra mulheres, Dayse foi a primeira mulher a ocupar o cargo de comandante da Guarda Municipal de Vitória. Para as autoridades que comentaram o caso em coletiva de imprensa nesta segunda, o caso expõe a gravidade da violência de gênero e reforça que nenhuma mulher está imune, independentemente do cargo ou da função que exerce.
A delegada Rafaella Aguiar, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Mulher, afirmou que o caso evidencia que a violência de gênero não está relacionada ao perfil da vítima, mas ao comportamento do agressor. Segundo ela, as primeiras informações apontam que o autor do crime não aceitava o fim do relacionamento com a comandante. “Não é sobre quem é a vítima. Ela é uma mulher forte, uma autoridade. A violência de gênero é sobre quem é o homem”, afirmou.
Com base nos elementos reunidos na investigação, o chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Fabrício Dutra, confirmou que não há dúvidas de que o crime se trata de feminicídio. O assassino se suicidou após cometer o assassinado.
Rafaella Aguiar aponta que não havia registros formais de ocorrência envolvendo o suspeito, e a comandante também não havia comunicado oficialmente ameaças à polícia ou a colegas da Guarda Municipal. Após o crime, no entanto, relatos de pessoas próximas indicaram que o autor apresentava comportamento ciumento, possessivo e controlador. “A violência não começa naquele momento que houve aquele primeiro disparo que ceifou a vida dela. A violência começa naquele primeiro controle”, destacou.
As investigações apontam indícios de que o crime foi planejado. Segundo informações da Polícia Científica do Espírito Santo, foram identificados sinais de arrombamento na porta que dá acesso ao quarto da residência da vítima. No local, foram recolhidos projéteis de arma de fogo.
A perita geral adjunta, Daniela de Paula, informou que foram coletados projéteis e que a vítima foi atingida por disparos. Também foi encontrada uma bolsa contendo ferramentas como faca e instrumentos de corte, o que reforça a hipótese de premeditação.
De acordo com o secretário de Segurança de Vitória, Amarílio Boni, o autor entrou na residência pela marquise antes de cometer o crime. A dinâmica dos disparos ainda é analisada, mas, de acordo com as informações apresentadas, não se tratou de execução à queima-roupa, e sim de uma ação com algum distanciamento.

A delegada Michele Meira também chamou atenção para as dificuldades enfrentadas por mulheres, inclusive aquelas que atuam na segurança pública, para denunciar situações de violência doméstica. “Muitas vezes essas mulheres se sentem envergonhadas, com medo da repercussão que isso pode dar para a sua carreira, para o seu trabalho. E muitas vezes elas acabam não buscando ajuda”. Ela ressaltou ainda que a morte da comandante representa uma perda irreparável e reforça a necessidade de ampliar o olhar para mulheres que atuam na área de segurança pública e enfrentam situações de violência.
A morte da comandante mobilizou autoridades e instituições e reforçou o debate sobre a persistência da violência contra mulheres. A Prefeitura de Vitória decretou luto oficial de três dias. Em nota que destaca a trajetória de Dayse Barbosa, a administração municipal afirmou que a comandante teve uma atuação marcada por ética, dedicação, sensibilidade e compromisso com a segurança pública. “Profissional exemplar, Dayse Barbosa destacou-se também como por sua firme atuação na defesa dos direitos das mulheres, contribuindo de forma significativa para o enfrentamento à violência e para a construção de uma sociedade mais justa e segura”.

No início de março, o Brasil ultrapassou 1,5 mil vítimas de feminicídios, o maior número desde a tipificação do crime, em 2015, como aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Nesse período, ao menos 13,7 mil mulheres já foram assassinadas por sua condição de ser mulher.
Apesar da redução no números de feminicídios divulgada pela gestão de Renato Casagrande (PSB), o Fórum de Mulheres alerta para a escalada de agressões que antecedem os feminicídios, e destaca que a violência de gênero não pode ser analisada apenas a partir de dados isolados, porque é resultado de um processo contínuo e estrutural. A organização também aponta fragilidades na implementação das políticas públicas e critica a ausência de orçamento adequado, de monitoramento permanente, e de articulação entre áreas como segurança, saúde e assistência social.
Este foi o primeiro feminicídio registrado na Capital do Estado pelo painel de monitoramento neste ano, mas os dados também apontam outras duas tentativas de feminicídio, além de 546 ocorrências relacionadas à violência contra a mulher. Entre os registros, destacam-se 239 casos de ameaça, 117 de lesão corporal e 345 de violência doméstica. Também foram contabilizados 39 casos de descumprimento de medida protetiva e 46 registros de perseguição. Entre os crimes contra a dignidade sexual, há 15 ocorrências, incluindo estupro e outros delitos relacionados.

