Nas novelas, ao contrário do nosso excitante dia a dia, nada acontece por acaso. Tudo é minuciosamente elaborado para criar uma reação em cadeia: uma série de causas e efeitos que levam a coincidências e consequências, mais das vezes inverossímeis, mas que nos tornam dependentes da trama até o último beijo do último capítulo. No final tudo dá certo.
Já viu plano de vingança dar errado em novela? Eraldo programou sua desforra nos mínimos detalhes. Anos atrás foi traído e roubado, perdeu o amor, a fortuna e o crédito. Para elaborar um plano de vingança com a meticulosidade de um cirurgião, estudou medicina. Para não descuidar de nenhum detalhe, estudou engenharia. Para não deixar margem para dúvidas, estudou advocacia.
Finalmente está pronto para a revanche longamente acalentada. Os maus serão desmascarados e o amor da doce Lurdinha reconquistado, e nem todo o dinheiro a livrará da cadeia, pois a vingança foi arquitetada com a precisão de um relógio suíço. Tia Bondosa, a única que nunca o abandonou, fica responsável por levar ao aeroporto as provas irrefutáveis do crime, e a polícia interceptará os vilões fugindo para a China com a mala cheia de yuans.
Mas o homem arma e Deus desarma; ou melhor, põe um olho na trama e outro na metereologia. Um tremendo temporal arrasa a cidade, e quando tudo será esclarecido e bem vingado, Bondosa não consegue chegar ao aeroporto a tempo; o trânsito parou. O desenrolar de uma boa trama geralmente mostra algumas situações aparentemente irrelevantes, mas que prenunciam eventos decisivos que justificam o final. Lembra que durante toda a novela Tia Bondosa estava sempre atrasada?
Os distraídos dizem que nossa alma latina nos faz gostar de novelas, mas gostamos de tudo que se relaciona com a vida alheia, seja na ficção ou na vida real. Filme, livro, novela, kindle, seriado, biografia, até a janela da cozinha! Absorvemos tudo avidamente, que quinze minutos de fama não acontecem apenas na tela da TV. A aventura alheia, de verdade ou de mentira, compensa a escassez de aventura em nossas vidas.
Quem não aprecia uma fofoca, um disse-me-disse, um advinha-quêquieu-soube? Seria egoísmo não compartilhar com os amigos o caso do vizinho que chegou tarde em casa e levou uma surra da mulher; assim como é anti-ético não repassar para os colegas do trabalho que Ivone da Contabilidade está de caso com o Bento dos Recursos Humanos.
Nos tempos em que só se via filme na telona, diziam que o escurinho do cinema era responsável por nossa metamorfose – nos desligarmos da nossa realidade e assumir a do personagem principal, sentindo tudo que ele ou ela sente. Veio o vídeo e o filme hoje é visto na sala, luzes acesas, interrompido porque o telefone tocou ou o bebê acordou. Mesmo assim nossa alma-esponja continua absorvendo as vidas de mentira, e pelo menos nessas duas horas deixamos os vizinhos pecarem em paz.

