Sábado, 13 Agosto 2022

​Uma nova sociedade

Estamos ainda no princípio do ano. E o princípio é o verbo, a palavra, a ideia, como nos ensina João, no Gênesis Cristão. Da ideia, da palavra, surge a ação, a prática; essa prática deve vir dentro de um projeto, um plano. O plano é feito a partir de um ideal, de um objetivo estratégico, uma meta. As nossas ações ocorrem dentro de um real, a nossa realidade do dia a dia, e é dentro dessa realidade que devemos construir o nosso projeto de vida e de sociedade, para nós mesmos e para os nossos, enfrentando com determinação, garra e muita força, o nosso eterno conflito entre estar numa sociedade real e lutar por uma sociedade ideal.

Para isso precisamos perceber: quem sou "Eu"? Quais são os meus desejos; as minhas necessidades; e os meus legítimos interesses, para que eu possa gerenciar a minha realidade segundo o sentido que quero dar para minha vida, junto com os meus iguais, com quem formamos um coletivo de ideias e discursos similares, a nossa parte da sociedade?
Precisamos também conhecer bem o "Outro" com quem me relaciono, pois também o outro tem seus desejos, suas necessidades e seus legítimos interesses, e assim vamos administrando os conflitos e divergências que surgirem, naturais do ser humano.

O Outro e Eu fazemos parte de um coletivo, e eu preciso estar bem para conduzir o bem-estar para o coletivo. Um indivíduo que não está bem, dificilmente contribuirá para o bem-estar coletivo.

Se faz necessário, então, o conhecimento de si mesmo e do outro, para percebermos quais ideias se aproximam, quais necessidades dialogam, e quais interesses se somam na mesma direção, do objetivo comum, do bem-estar coletivo.

O coletivo do qual participamos, querendo ou não - por sermos dependentes uns dos outros -, é a nossa sociedade humana, e nela não produzimos tudo o que necessitamos, utilizamos muito do que outros produzem, tal como: roupas, residências, móveis, utensílios, ferramentas, etc. Somos dependentes uns dos outros do nascimento até a morte.

Na natureza, os humanos são os seres mais dependentes uns dos outros, os animais em geral nascem e em pouquíssimo tempo adquirem independência e autonomia, para se alimentarem e viverem. Os humanos sem os cuidados dos outros perecem nos primeiros dias de vida, e os que sobrevivem ainda assim requerem cuidados, por um longo período de vida e jamais alcançam sua total autonomia e independência. Sempre precisamos uns dos outros para sobrevivermos enquanto espécie humana.

A sociedade a qual construímos e participamos é um coletivo sim, mas não homogêneo, é dividido em partes, e cada parte luta constantemente para conquistar o poder de comandar a sociedade como um todo. O que fazemos em sociedade o tempo todo é a luta pelo poder. E quem não gosta da luta pelo poder será comandado, governado, por quem gosta.

A nossa sociedade é dividida em partes - por isso partidos - e cada qual com seu projeto de sociedade que atende os interesses da sua parte e busca convencer a maioria democrática, que assim é melhor para todo o coletivo.

Por isso a importância de cada cidadão e cidadã ter o autoconhecimento de si mesmo e ter a consciência do sentido da sua vida, dos seus desejos, necessidades e interesses, e procurar se associar com seus iguais para juntos defenderem o interesse da parte a qual pertencem.

É necessário conhecer a si mesmo e aos outros, para localizar-se na sociedade. Quem sou eu? Qual parte pertenço? Para onde quero ir? De qual lugar da sociedade estou falando? São perguntas que devemos nos fazer o tempo todo, para não errar o alvo e acabar somando forças numa parte a qual não pertenço, pois seus interesses são contrários aos da minha parte.

A sociedade que construímos e vivemos é dinâmica e se movimenta o tempo todo, e cada um de nós precisa situar-se para movimentá-la na direção dos nossos interesses, na busca de espaços de poder, para gerenciá-la segundo a parte que nos interessa fortalecer.

A sociedade atual esta polarizada entre poucos ricos e muitos pobres, tendo como uma larga fronteira, uma classe intermediária, chamada de classe média, que na realidade é formada por trabalhadores, de origem humilde, na grande maioria das vezes, e que precisam localizar-se melhor, entre a pobreza e a riqueza, o que requer uma opção com qual parte quer ficar.

O filósofo e sociólogo Alemão Karl Marx, concluiu que na nossa sociedade só existem duas partes: uma que domina e a outra que é dominada. A burguesia dominante e os trabalhadores com sua família.

Para Marx, essa característica da nossa sociedade explica as relações entre indivíduos e sociedade, onde os indivíduos e as partes são diferentes entre si e cada um ocupa lugares diferentes na sociedade, isso marca as distâncias e as desigualdades que existem entre as partes da sociedade e afloram os conflitos de interesses individuais e coletivos.
No Brasil se classifica por diferentes partes, quer seja por renda, pelos bens e pelo grau de escolaridade.

As Ciências Sociais lidam com a relação entre indivíduos e sociedade e aponta que existe uma profunda relação entre os indivíduos e a sociedade de diferentes modos, em alguns momentos prevalece a sociedade sobre os indivíduos, em outros os indivíduos, agindo como sujeitos de suas ações, prevalecem na sociedade representando sua parte com autonomia nas ações.

Pierre Bourdieu (1930-2002) e Anthony Giddens (1938) buscam serem mais equilibrados, dando mais autonomia ao sujeito, ao apontar que o agente social age sobre a sociedade e a sociedade age sobre o sujeito, num processo de transformação de mão dupla entre transformador e transformado, um agindo sobre o outro.

Um cidadão sujeito de suas ações age como um ator social no cenário da sociedade, quando portando uma ideia, um discurso e um plano, representa uma parte, uma categoria, um grupo, dando sentido à sua vida, defendendo os desejos, os interesses e as necessidades da parte a qual pertence ou optou por defender.

Sejamos sujeitos de nossas ações nesta nossa sociedade, conhecendo cada dia mais a nós mesmos, aos outros, e lutando contra as desigualdades com um plano definido pela nossa parte, com a nossa meta estabelecida de busca de igualdade de oportunidades, onde cada cidadão e cidadã seja reconhecido e valorizado pelo fato de ser humano. Transformando a nossa sociedade e sendo transformados por ela, nesta luta permanente e conflituosa, onde a diferença entre a ideia, o discurso e o plano ideal seja cada vez menor da realidade em que vivemos. Construir uma nova sociedade é possível, é só querer e lutar sempre por isso.

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Comentários: 2

Jose Carlos em Quarta, 23 Fevereiro 2022 19:52

Parabéns ao jornal Século Diário e ao colunista que trazem essa reflexão tão importante para nossa sociedade. Continuem assim, informando formando consciência cidadã.

Parabéns ao jornal Século Diário e ao colunista que trazem essa reflexão tão importante para nossa sociedade. Continuem assim, informando formando consciência cidadã.
Miguel Antônio Madeira da Silva Araújo em Quarta, 23 Fevereiro 2022 19:59

Parabéns Caetano Roque pelo artigo.
Saber onde está, com quem e porque.
Ser fiel às duas origens e princípios. Ter um norte.
Ser humilde e reconhecer suas limitações.
Ser transparente e íntegro.
Ser humano, valorizar a vida de qualquer espécie.
Fazer autocrítica. Permanecer, rever, redirecionar.
Tudo é aprendizado.


Parabéns Caetano Roque pelo artigo. Saber onde está, com quem e porque. Ser fiel às duas origens e princípios. Ter um norte. Ser humilde e reconhecer suas limitações. Ser transparente e íntegro. Ser humano, valorizar a vida de qualquer espécie. Fazer autocrítica. Permanecer, rever, redirecionar. Tudo é aprendizado.
Visitante
Domingo, 14 Agosto 2022

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