Para os padrões capixabas, as taxas de homicídios de Vitória são até razoáveis. Desde o segundo mandato do ex-governador Paulo Hartung, sempre houve uma preocupação especial com a violência na Capital. A estratégia do ex-governador, que se repete no atual governo, foi focar as ações de combate à criminalidade na Capital, onde os acontecimentos, positivos e negativos, sempre ganham mais evidência na mídia local e nacional.
A quatro dias de deixar o comando da Capital, o prefeito João Coser (PT) apressou-se em mostrar que de 2006 para cá houve redução de cerca de 40% nas taxas de homicídios. Coser não conteve a empolgação e comemorou os índices como uma grande conquista da sua administração. “Apesar de os números ainda serem altos, estou extremamente feliz porque no meu período de mandato a redução do índice de homicídios está relacionada a um intenso trabalho em parceria com os governos do Estado e Federal, principalmente em ações preventivas”, disse o prefeito.
Empolgação à parte, a Capital deve fechar o ano com uma taxa de 33 homicídios por 100 mil habitantes. Se considerarmos que a média nacional é de 20/100 mil e a Organização Mundial de Saúde classifica como violência epidêmica qualquer índice que esteja acima de 10/100 mil, Vitória está longe de ser uma cidade segura para se viver.
Essa queda de 40% esconde um paradoxo instigante. Repare que houve de fato redução nos índices em Vitória, mas curiosamente o Estado continua ocupando a segundo posição entre os mais violentos do País há mais de uma década.
Não é preciso ir muito longe para encontrar as contradições desses números, os municípios vizinhos a Vitória – Serra, Cariacica e Vila Velha – seguem ostentando taxas de guerra civil – acima de 50 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes. Estranho, não é?
Decifrar os segredos desse “enigma” é até simples. Tanto Hartung como Casagrande, nas figuras dos seus respectivos secretários de Segurança – Rodney Miranda e Henrique Herkenhoff –, entenderam que era estratégico centrar investimentos em Vitória, que por ser a Capital, tem a função de vitrine na mídia nacional. Toda vez que sai um novo estudo, como o Mapa da Violência, a imprensa se atenta aos comparativos das capitais. Se os números vão mal em Vitória, a fama de Estado violento se propaga mais rapidamente. Ao contrário, se os assassinatos estão explodindo em Serra ou Cariacica e são relativamente baixos na Capital, a repercussão é bem menor.
O próprio Coser listou as chaves desse enigma ao enumerar os investimentos em programas preventivos. Comparativamente, todos os prefeitos dos municípios da Grande Vitória sabem que a prioridade na hora de o governo destinar reforços policiais, estruturar delegacias ou adquirir novas viaturas, sempre foi a Capital, por sempre estar em evidência. Qual notícia terá mais impacto na mídia local ou nacional, o assassinato de um turista na Serra ou em Vitória?
Se avaliarmos a realidade dos municípios da Região Metropolitana, Vitória sempre foi privilegiada em todos os sentidos. Além de receber mais efetivos e recursos, a Capital tem uma população bem menor do que Serra e Vila Velha; poucos bolsões de pobreza em relação aos seus vizinhos; geograficamente é muito menor e mais agrupada, o que facilita o policiamento.
Situação inversa à da Serra. Proporcionalmente, os efetivos de policiais destinados ao município serrano sempre foram inferiores aos de Vitória, mesmo levando-se em conta a grande área territorial, a complexidade geográfica e os diversos bolsões de pobreza de Serra. Um levantamento feito no ano passado apontou que Serra tinha um policial para cada grupo de mil habitantes, quando o recomendado pela OMS é de 1 para 250.
O resultado dessa discrepância se reflete, como não podia ser diferente, nos índices de homicídios e desmistifica também outro enigma: violência se combate com investimento pesados em políticas públicas preventivas e no policiamento (pessoal e tecnologia). Basta olhar os exemplos do Rio e São Paulo, dois estados que investiram forte em segurança.
Embora entre as capitais Vitória ainda ocupe a primeira posição em homicídios praticados contra mulheres e jovens e ostente uma alta taxa geral de assassinatos, a situação já foi bem mais crítica. Ou seja, se Vitória continuasse no ritmo dos seus vizinhos, a imagem do Estado estaria ainda pior nacionalmente.
Coser colhe hoje os louros por estar na vitrine, mesmo sabendo que seus vizinhos continuam em plena guerra civil.

