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Queda do tarifaço: alívio para empresários, dor de cabeça para bolsonaristas

Governador Renato Casagrande comemorou decisão da Suprema Corte dos EUA

Secom-ES

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, nesta sexta-feira (20), que o presidente Donald Trump não tem autonomia para criar tarifas comerciais sem limites contra outros países, como as que foram feitas no “tarifaço” do ano passado – afetando inclusive o Brasil, que teve taxação extra de 50%, sob o pretexto de “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Apesar de Trump desafiar a sentença judicial anunciando novas taxas, a medida representa um alívio para empresários capixabas, ainda que momentâneo – e uma “dor de cabeça” para os bolsonaristas.

O governador Renato Casagrande (PSB) comemorou a notícia nas redes sociais. “A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derruba as tarifas impostas por Donald Trump reforça que comércio internacional precisa de legalidade, equilíbrio e diálogo. Quem produz e gera emprego não pode pagar a conta de disputas políticas. Seguimos defendendo nossa economia e nossos trabalhadores”, escreveu.

Os Estados Unidos são o principal destino das matérias-primas produzidas no Espírito Santo, tornando a taxação um desafio a mais para o Estado. Apesar disso, o agronegócio capixaba fechou 2025 com US$ 3,21 bilhões (R$ 17,2 bilhões) em exportações, o segundo maior valor da série histórica do Estado. Em volume, de acordo com o Governo do Estado, foram 2,4 milhões de toneladas embarcadas para 133 países. O setor respondeu por 30,7% de todas as exportações capixabas no ano.

Dentre produtos específicos, café e derivados foram o campeão de exportações, US$ 1,79 bilhão (55,7%). A pimenta-do-reino cresceu 113% em valor e 58% em volume, atingindo US$ 347 milhões – o maior crescimento. E os Estados Unidos continuaram como o principal destino dos produtos capixabas, com 20,5% das participações.

Outros setores mais diretamente afetados pela sobretaxação também comemoraram os resultados de 2025. De acordo com a Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas), o Espírito Santo alcançou o maior faturamento em exportações de toda a sua história no ano passado, US$ 1,16 bilhão, o equivalente a 78,5% da participação nacional.

O aumento da exportação de rochas ornamentais do Espírito Santo em relação a 2024 foi de 12,2%. Mais uma vez, os Estados Unidos foram o principal destino. Serra e Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado, foram os municípios que mais se destacaram – alguns se lembrarão da carta do prefeito Theodorico Ferraço (PP) a Donald Trump apelando contra as sobretaxas.

O cenário não representou surpresa para muitos economistas. A avaliação, já na época do anúncio, era de que, com o “tarifaço”, muitas das exportações antes direcionadas aos Estados Unidos ganhariam outros destinos, ajudando a diversificar os mercados. Além disse, o país da América do Norte não teria condições de superar a dependência dos produtos brasileiros de imediato, e as taxas adicionais recairiam nos preços pagos pelos próprios estadunidenses. Não à toa, a decisão que removeu as sobretaxas teve origem em uma ação movida por empresas do próprio país governado por Trump, tendo em vista que amargavam prejuízos.

Mesmo assim, a sobretaxação gerou apreensão entre os empresários capixabas a respeito dos rumos da economia. Donald Trump anunciou uma nova taxação global de 10% logo após a decisão da Suprema Corte, ampliando o cenário de incertezas.

Impactos políticos

Em julho do ano passado, quando Trump anunciou uma tarifa adicional de 50% para os produtos brasileiros, o governador Renato Casagrande (PSB) disse que a medida tinha base política e ideológica, e afirmou que poderia “afetar o ânimo dos empreendedores capixabas”.

Ontem como hoje, quem ficou sem discurso nas questões envolvendo o “tarifaço” foi a extrema direita brasileira. O processo judicial que resultou na prisão de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado foi explicitamente colocado como um dos argumentos de Trump para a sobretaxação brasileira, e o filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro (PL), fez campanha declarada nos Estados Unidos a favor das taridas, como força de pressão ao governo brasileiro.

A imagem que ficou, porém, foi a de políticos atentando contra os interesses nacionais em benefício próprio. O episódio acabou contribuindo para elevar a popularidade do presidente Lula (PT), então em baixa. Lula, inclusive, aproximou de Donald Trump durante as negociações posteriores.

Restou a figuras como o deputado federal capixaba Evair de Melo (PP) o argumento de que o “tarifaço” era fruto de “falta de preparo e diálogo técnico” do Governo Federal. Muito ligado ao agronegócio, ele enviou ofícios ao governo estadunidense em agosto passado, junto ao Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), pedindo que o café brasileiro fosse incluído na lista de exceções à sobretaxação.

“Essa cobrança não pune governos; pune produtores, cooperativas e encarece a xícara do consumidor americano, ameaçando empregos em toda a cadeia do café. O café não é o problema — é parte da solução. O que pedimos é simples: previsibilidade, comércio leal e respeito a uma parceria que sempre beneficiou Brasil e Estados Unidos”, afirmou Evair de Melo – segundo o próprio -, em carta ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Com a nova decisão da Suprema Corte, o bolsonarismo se vê novamente obrigado a recalibrar o discurso. Não comemorar uma decisão que beneficia o Brasil pode reforçar a imagem de antinacionalismo. Por outro lado, celebrar a medida é o mesmo que ir contra Donald Trump, ídolo da extrema direita global. Aliás, entre os bolsonaristas estão muitos dos próprios empresários que foram afetados pelas taxas.

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