Macário Júdice foi denunciado pela PGR por vazamento de informações de investigação

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu, nessa segunda-feira (16), pela manutenção da prisão preventiva do desembargador capixaba Macário Ramos Júdice Neto, preso desde dezembro do ano passado por suspeita de vazamento de informações a respeito de operação da qual era relator. Também foram mantidas as medidas cautelares contra o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União); e Thárcio Nascimento Salgado, assessor do ex-deputado estadual carioca Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias (MDB).
Macário Júdice foi alvo de uma denúncia formal da Procuradoria-Geral da República (PGR) na última sexta-feira (13), por violação de sigilo funcional, e também pelo crime de obstrução de investigação de infração penal que envolva organização criminosa armada, junto com Rodrigo Bacellar, Thárcio Nascimento Salgado, TH Joias e sua esposa, Jéssica de Oliveira Santos.
No despacho dessa segunda-feira, Alexandre de Moraes afirmou que “permanecem inalterados os fundamentos que justificaram a decretação da prisão preventiva” e mencionou decisão do último dia 9, em que já tinha negado a revogação da prisão.
“O quadro fático denota, além do risco de fuga, o risco de continuidade delitiva por parte do investigado. A situação fática e jurídica que autorizou a decretação da prisão preventiva do investigado mantém-se inalterada. O pedido formulado pela Defesa, uma vez mais, não afasta os elementos que fundamentaram a decretação da prisão preventiva e as suas posteriores manutenções”, escreveu Moraes na ocasião.
Como estratégia para tentar livrá-lo da prisão, a defesa de Macário solicitou à Justiça, em janeiro, acesso a dados de geolocalização referentes a 2 de setembro de 2025, no período das 10h às 24h, véspera da Operação Zargum, que prendeu TH Joias. Nessa data, segundo as investigações da Polícia Federal, Júdice teria participado de um jantar com Rodrigo Bacellar, cuja prisão foi revogada pelo plenário da Alerj. Os advogados do desembargador alegam que as informações de geolocalização comprovariam que ele não esteve no evento apontado pela PF.
Entretanto, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), o desembargador de plantão afirmou que a competência sobre o caso era do Supremo, e determinou apenas que a operadora Vivo preservasse os dados de geolocalização. Já o ministro Herman Benjamin, citando a Súmula 691 do STF, entendeu que só caberia revisão da decisão anterior se fosse identificado algum erro de aplicação das normas, o que não foi o caso.
Denúncia
Segundo a denúncia da PGR, ficou comprovado que TH Joias obteve informações antecipadas sobre a Operação Zargum, deflagrada em 3 de setembro de 2025 pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Rio de Janeiro (FICCO/RJ), com o objetivo de desarticular ações do Comando Vermelho no tráfico internacional de armas e drogas, lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos.
No dia da operação, não foram encontrados computadores e mídias na sala de TH Joias na Alerj, comprometendo a investigação. Imagens de videomonitoramento do condomínio em que mora o ex-deputado mostram o processo de esvaziamento de materiais de sua residência, com o auxílio de sua esposa, Jéssica. Thiego foi encontrado posteriormente pela polícia na casa de seu assessor, Thárcio.
Rodrigo Bacellar admitiu em depoimento à Polícia Federal, segundo a denúncia, que conversou com TH Joias sobre a operação policial um dia antes da deflagração. As investigações apontaram ainda indícios de que o seu conhecimento sobre a operação partiu de Macário, relator da ação no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).
No mesmo dia da conversa com TH Joias, o então presidente da Alerj teria se encontrado pessoalmente com Macário em uma churrascaria. Apesar de Júdice e Bacellar terem adotado medidas para dificultar a rastreabilidade dos dois por celular, a Polícia Federal encontrou comprovações do encontro por meio de informações obtidas em mensagens e depoimentos.
A investigação também apontou para uma relação de intimidade entre Rodrigo Bacellar e Macário Júdice. A esposa do desembargador, Flávia Ferraço Lopes Júdice – indiciada pela PF -, trabalhava na diretoria-geral da Alerj. O ex-chefe de gabinete de Macário, o policial penal Rodrigo Azevedo Tassari, atuou na Secretaria de Governo do Rio de Janeiro quando Bacellar era secretário, entre 2021 e 2022.
Em uma decisão do dia 8 de setembro do ano passado, o próprio Macário Júdice afirmou que houve vazamento da operação, mas o atribuiu aos policiais. Outro indício de cumplicidade com a organização criminosa foi uma decisão proferida no âmbito da Operação Oricalco. Integrantes do Comando Vermelho foram incluídos no Sistema Penitenciário Federal, mas o mesmo não ocorreu com um dos líderes do grupo e parte integrante de seu núcleo político: TH Joias.
Operação Baest
Na última quarta-feira (11), Alexandre de Moraes também autorizou o compartilhamento de provas da Operação Baest, relacionada ao crime organizado no Espírito Santo, com o inquérito que envolve Macário. Isso porque foi identificada uma mensagem de celular entre o desembargador e o empresário da Serra Adilson Ferreira, investigado na Baest.
O caso teve uma polêmica recente. Em dezembro passado, o delegado da Polícia Civil Romualdo Gianordoli Neto, que estava no comando da Operação Baest, foi exonerado do cargo de subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp). Inconformado, foi às redes sociais acusar a cúpula da Sesp e o Governo do Estado de tentar abafar as investigações, após a identificação de figuras de prestígio. Ele também tem se articulado com grupos de extrema direita.
A temperatura aumentou após a notícia do pedido de investigação da Polícia Federal contra o governador Renato Casagrande (PSB), por suspeita de troca de favores com Macário Júdice. Casagrande negou qualquer irregularidade, argumentando que teve conversa “institucional e republicana e no intuito de agilizar a tramitação do processo”, envolvendo o ex-prefeito de Montanha (extremo norte do Estado), André Sampaio (PSB).
O secretário estadual de Segurança Pública, Leonardo Damasceno, e o Delegado-Geral da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), José Darcy Santos Arruda, também foram a público para informar que Romualdo Gianordoli é alvo de investigação na Ouvidoria da PCES. Eles o acusaram de reter consigo informações sigilosas da polícia – incluindo a da ligação do empresário da Serra com Macário, que não havia sido compartilhado com as autoridades policiais competentes no curso das investigações.

