Projeto da Cesan quer levar esgoto de Vitória para tratar no município vizinho

Moradores de bairros da Serra voltaram a cobrar a realização de uma audiência pública na Câmara Municipal para discutir o projeto de implantação da Estação de Produção de Água de Reuso (Epar) ligado à Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan). A nova audiência havia sido anunciada após um primeiro encontro realizado no ano passado terminar sem encaminhamentos, mas acabou sendo cancelada e ainda não foi remarcada.
A obra integra o plano acordado entre o governo do Estado, a Cesan e o consórcio GS Inima, para produção de água de reuso para fins industriais, e prevê o bombeamento do esgoto até uma estação a ser construída no município.
A principal preocupação das comunidades é com a instalação de uma tubulação que transportaria efluentes da Estação de Tratamento de Esgoto de Camburi – conhecida como “penicão” – em Vitória, até a Serra, passando por diversos bairros da Serra, incluindo Hélio Ferraz, Manoel Plaza – onde uma das principais vias deverá ser interditada para as obras –, Rosário de Fátima, Eurico Salles, Carapina I, Bairro de Fátima e São Geraldo.
A Estação de Produção de Água de Reuso (Epar) está prevista para ser construída em uma área de 11 mil metros quadrados doada pela ArcelorMittal, localizada atrás do Fórum Cível da Serra, em São Geraldo, com capacidade para produzir 300 litros por segundo, sendo 200 l/s destinados para atender à siderúrgica. Há previsão de expansão para até 21,3 mil metros quadrados. O contrato é orçado em R$ 240 milhões, com 30 anos de validade, firmado entre a empresa, o Governo do Estado, a Cesan e o consórcio GS Inima.
Carlos Romeu de Melo, morador do bairro e integrante da associação comunitária local, afirma que a população teme que o projeto avance sem diálogo adequado. Segundo ele, a rejeição ao plano já foi expressa em mobilizações realizadas no ano passado. “Vamos ficar muito insatisfeitos se tentarem fazer essas obras sem comunicação. Não queremos aceitar essa tubulação de esgoto de outro município, não queremos o perigo de estourar e não beneficia em nada a Serra. Não conseguimos nem entender como pôde ser aceito”.
Além da cobrança por mais transparência, moradores também acompanham a tramitação de um projeto de lei que busca impedir a imposição de políticas de saneamento de outros municípios na Serra. A proposta foi apresentada pelos vereadores Renato Ribeiro (PDT) e Rafael Estrela do Mar (PSDB), em meio à mobilização contra o empreendimento.
O texto foi aprovado em setembro de 2025 pela Comissão de Legislação, Justiça e Redação Final da Câmara, presidida por Renato Ribeiro, com vice-presidência de Raphaela Moraes (PP) e secretaria de Dr. William Miranda (União Brasil). Para seguir à votação em plenário, porém, o projeto ainda precisa passar por outros três colegiados: Infraestrutura, Desenvolvimento Urbano e Regional, Mobilidade Urbana e Logística; Obras e Serviços; e Agricultura e Meio Ambiente.
A Comissão de Infraestrutura é presidida por Fred (PDT), tendo como vice Rafael Estrela do Mar e como secretário George Guanabara (Podemos). Já a Comissão de Obras e Serviços é presidida por Renato Ribeiro, com vice-presidência de Andrea Duarte (PP), e secretaria de Pequeno do Gás (PSD). Na Comissão de Agricultura e Meio Ambiente, o presidente é Paulinho do Churrasquinho (PDT), com vice-presidência de Pequeno do Gás e secretaria de Cabo Rodrigues (MDB).
A tramitação também ocorre em meio a mudanças na composição da Câmara após o afastamento, por denúncias de corrupção, dos vereadores Cleber Serrinha (MDB), que presidia a Comissão de Justiça, Teilton Valim (PDT), que integrava comissões estratégicas e presidia a de Agricultura e Meio Ambiente, e Wellington Alemão (Rede), que ocupava a vice-presidência da comissão ambiental, além do ex-presidente da Câmara Saulinho da Academia (PDT). Eles são investigados pelo Ministério Público, que recomendou a medida, acatada pelo juiz Gustavo Grillo Ferreira.
Tomaram posse os suplentes Wilian da Elétrica (PDT), Marcelo Leal (MDB), Dr. Thiago Peixoto (Psol) e Sergio Peixoto (PDT), ocupando os lugares, respectivamente, de Saulinho da Academia (PDT), Cleber Serrinha, Wellington Alemão e Teilton Valim. A recomposição alterou o equilíbrio político nas comissões e passou a influenciar o andamento de projetos em tramitação.
Procurada para atualizar o andamento do projeto, a Cesan não respondeu até o fechamento desta matéria. No ano passado, ao ser questionada pelo Século Diário, a companhia informou que a definição do traçado da tubulação que atravessaria bairros da Serra se baseava em “requisitos técnicos, de viabilidade e de impactos”, sem detalhar quais critérios foram considerados.
Na ocasião, a empresa também afirmou que o empreendimento ainda estava em fase de levantamento topográfico e execução dos estudos de impacto ambiental e social, com previsão de início das obras no segundo semestre de 2025. O cronograma, no entanto, não se concretizou, após forte mobilização de moradores e questionamentos levantados por vereadores.
Outro vereador que fez frente à proposta foi Leandro Ferraço (PSDB), que criticou o beneficiamento da Arcelor Mittal, com a economia de água, e do município de Vitória, que vai poder desativar uma estação de tratamento no modelo de lagoas, considerado ultrapassado e inconveniente, por trazer mal cheiro, desvalorização e risco ambiental.
Ele destacou que a proposta desconsidera o interesse coletivo dos moradores de Serra, que ficariam com o ônus e tem se manifestado contra o empreendimento. “Se a Arcelor [Mittal] continuar com essa autorização, pode contar comigo, nós vamos queimar pneu na portaria. Pode contar comigo, pode contar com esse vereador. Os pneus é comigo, eu levo”, declarou, na ocasião.
Moradores e vereadores também cobraram que, caso o projeto avance, o esgoto tratado seja o da própria Serra, e não o de Vitória, como está previsto no contrato. Também questionaram o desequilíbrio da proposta, que transfere os impactos ambientais para a Serra e os benefícios para Vitória, que vai liberar uma área considerada “nobre” em Jardim Camburi para especulação imobiliária e novos empreendimentos.

