Ao fim da entrevista, o ex-governador Max Mauro falou em saudade. Acabara de rememorar como foi um dos únicos governadores do PMDB que permaneceu ao lado de Ulysses Guimarães na campanha à Presidência da República, embora, como todos, discordasse da candidatura.
Ulysses, afora presidente da Assembleia Constituinte, presidente da Câmara dos Deputados e do PMDB, era também vice-presidente da República. Desfrutava de prestígio e poder incomparáveis em Brasília. Para Max, Ulysses desejava a presidência para consolidar a transição do país rumo à democracia – uma transição da qual ele foi um dos protagonistas, desde os tempos de resistência à ditadura.
Mas dentro do próprio PMDB havia uma oposição consistente à candidatura. Em uma reunião entre Ulysses e governadores do partido para discutir a candidatura, o então governador do Rio Grande do Sul, Pedro Simon, foi destacado para levar-lhe as ponderações dos governadores. Em suma, a mensagem era: apesar do mítico prestígio em Brasília, Ulysses seria fatalmente atrelado à bancarrota política e econômica do governo José Sarney.
Não deu outra. As urnas confirmaram as previsões e o Grande Timoneiro, o Senhor Diretas, ???o condestável da Nova República???, amargou nada menos que o sétimo lugar da primeira eleição direta para a presidência. Registrou votações expressivas justamente nos estados cujos governadores conservaram-se fieis a ele: Espírito Santo e Bahia, estado natal do vice Waldir Pires.
Max fez questão de trazer a campanha de Ulysses para o Espírito Santo. Destaca como deputados estaduais e outras figuras proeminente do PMDB, como Roberto Valadão, foram ao Aeroporto de Vitória para receber Ulysses e sair em uma grande carreata pelas ruas de Vitória e Vila Velha. ???As pessoas acenavam para ele, aplaudiam nas ruas???, entusiasma-se Max, revivendo a cena, para, então, imediatamente refrear a emoção: ???Mas não deu???, diz, em tom de obviedade, arqueando as sobrancelhas.
Max Mauro e Ulysses Guimarães se conhecem pessoalmente em fevereiro de 1972 em um episódio de início festivo, depois aflito e, finalmente, catártico.
Filiado ao partido de oposição consentida à ditadura militar desde o ano de sua criação, em 1966, Max já conhecia, acompanhava e admirava a destemida figura parlamentar de Ulysses. O ex-governador, por sua vez, já era uma expressão local do MDB. ???Eu já tinha militância no partido, organizando diretório, participando de movimentos sociais???, pontua.
Assim que, em 72, então prefeito de Vila Velha, conduzindo uma gestão sem auxílio federal ou estadual, a reboque apenas dos recursos municipais, resolve trazer pela primeira vez ao Espírito Santo o presidente do MDB, Ulysses, para uma reunião com a militância capixaba do partido para discutir eleições. ???Convidei, ele aceitou e veio???, diz.
Ulysses chegou no dia 27 de fevereiro, trazendo junto o senador Nelson Carneiro. A importância da reunião que ocorreria já no dia seguinte no Cine Dom Marcos, na Avenida Luciano das Neves, no Centro, em frente à Praça Duque de Caxias, e a presença luminar de Ulysses reclamavam uma recepção especial. Na véspera, Max já havia arrumado um jeito de colocar um carro de som pela cidade para anunciar a reunião. Para o grande dia, arquitetou uma festa em frente ao local.
???Mobilizei dois blocos, de Cobi e São Torquato, para fazer movimento na rua. No dia, botei som na parte externa do cinema, mobilizei movimentos comunitários, as primeiras associações de moradores, e convidei todo o MDB do estado, por correspondência, ligando???, diz, com entusiasmo, quase tropeçando nas palavras.
De repente, ele para e a voz amansa.
Na manhã do dia 28, uma intimação para comparecimento à sede da Polícia Federal, em São Torquato, pousa na mesa do prefeito. Ele vai, senta-se à mesa do delegado e, não demora, sente a pontada nos ouvidos: ???Ordem de Brasília. Suspender a reunião programada???. De imediato, não reage, manietado sentia-se: de um lado, o compromisso com Ulysses e o partido para discutir o futuro de um país imerso em escuridão e o do próprio partido; do outro, o bafo quente do regime às suas costas.
Não cedeu. Encontrou uma brecha pelo diálogo, meteu-se nela e desembocou em um bom termo: tiraria o som externo, artifício para transmissão do encontro, o carro, a folia. Mas a reunião era inegociável.
O que parecia ter sido um acordo revelou-se poucas horas depois um recuo estratégico. Uma nova tentativa de convencer Max Mauro a abortar a reunião do MDB viria com um inflexível General Fernando Corrêa Coelho, secretário de Segurança do governo Arthur Gerhardt: ???Tem que suspender a reunião. A Polícia Federal recebeu uma determinação para suspender a reunião e eu já fiz um acordo com a PF???, conta Max, emulando o tom taxativo do general.
Max mostrou-se mais inflexível, que, no entanto, seria testada pela terceira vez. Na sede da prefeitura, recebeu o secretário estadual do Interior, Namir Carlos de Souza, para uma conversa. Em vão, mas a insistência de Namir atingiu um nível temerário. ???Olha, se soltarem uma bomba no teatro, vocês vão ser responsabilizados???, disse. Saturnino Rangel Mauro, pai de Max, costumava auxiliar o filho na prefeitura e participou da conversa. Ele rebateu a ameaça com leveza: ???Que isso, o povo de Vila Velha é pacífico???. Namir ainda tentou insistir, mas desistiu. A reunião ocorreria.
??s 18h30 do dia 28, um carro oficial da Prefeitura de Vila Velha estaciona em frente ao Hotel Tabajara, próximo ao Clube Libanês, na Praia da Costa. Max e o motorista aguardavam Ulysses e Nelson. Quando o carro despontou na Luciano das Neves, os três viram uma multidão. Ulysses saltou de um lado, Nelson e Max do outro e, juntando-se aos três, Saturnino e Berredo de Menezes, que chegaram em outro carro: todos se enfiaram no meio da euforia geral e conduziram aquele ajuntamento para a entrada do cinema.
???A polícia está aí e fechou as portas. Tem soldado lá dentro???. A advertência veio antes mesmo de baterem à porta do Dom Marcos. Abriram caminho e a advertência se confirmou: um paredão de fardas e botinas enfileiradas resguardava as portas do cinema. Ulysses tentou contornar, dizia da reunião já programada no local. Os soldados não cediam. Ulysses pressionou, forçou e, num acesso, trovejou: ???Respeitem o presidente da oposição do Brasil!???.
Uma ovação dominou o local. As pessoas sentiram naquele gesto uma convocação. Os soldados não conseguiram conter aquela fúria. As portas se abriram e todos entraram e viram, além de poltronas vazias, duas fileiras de soldados com metralhadores em punho.
???Subimos no palco e começamos a reunião com a polícia assistindo???, ri-se, agora. Ulysses desferiu um discurso calcinante contra a ditadura militar. Os discrusos seguintes vieram com igual virulência. Terminada a reunião, Ulysses, Nelson e Max foram jantar. Ulysses pediu um carro ainda para aquela noite: teria que estar no Rio de Janeiro na manhã seguinte, onde, no Palácio Monroe, concederia entrevista para o Clube dos Repórteres Políticos.
A ???Batalha do Dom Marcos??? mereceria destaque em matéria do Jornal do Brasil de 1° de março. Resultado do encontro de Ulysses com o clube, a matéria mostra o então deputado federal defendendo as divergências entre os autênticos, parlamentares mais à esquerda do MDB, desde que não descambassem para a contestação. Max pega uma cópia xerocada da edição e põe-se a ler o trecho que retrata o encontro capixaba:
???A proibição ao rádio e à televisão é da responsabilidade do Governo Federal, mas as perseguições, prisões e coações exercidas no interior são da responsabilidade de autoridades estaduais, segundo ele [nota da Redação: Ulysses]. Agora mesmo, em Vila Velha, o governo [estadual] chegou a exercer uma série de pressões para prejudicar uma concentração oposicionista já realizada e à qual esteve presente junto com o Sr. Nélson Carneiro.
Segundo ele, o secretário do Interior, Sr. Namir Carlos de Souza, e o secretário de Segurança, General Fernando Correa Coelho, tiveram uma conversa de três horas com o prefeito de Vila Velha, Sr. Max de Freitas Mauro, para proibir que um veículo do MDB trafegasse pela cidade convocando o povo à concentração que se realizou num teatro.
– Além disso, ainda proibiram a transmissão da concentração, colocando um exagerado dispositivo policial às portas do teatro. Tudo em nome do Governador Arthur Gerhardt Santos – informou
O Deputado Ulysses disse que a Oposição espera que o povo dê ???uma resposta à altura??? nas urnas, razão por que lança desde já seus candidatos nos Estados. Está certo de que os Srs. Pedro Simon, no Rio Grande do Sul; Franco Montoro, em São Paulo; Amaral Peixoto, no Estado do Rio, para citar somente alguns, têm grandes chances de vitória???.